lundi 28 mars 2016

Tu souris trop pour être heureux

Ressuscitar um blog citando Marx ─ what a concept! Mas eis que, nove anos depois, a história se repete como tragédia. Nove Páscoas. O dia exato é difícil especificar, mas vou jogar lá na conta da margem de erro. Na época, era uma coisa só, curta, pontual, que se arrastou por algumas semanas. Alguns dias sem dormir, alguns momentos de crise, um final de semana de Páscoa e bacalhau e fondue de chocolate com gente que eu nunca mais vi, umas reviravoltas, uns carros na contramão, uma passagem aérea só de ida e um punhado de malas. E assim tudo se resolveu.

Agora, é todo um pacote de coisas, um troço que já vem se arrastando por alguns meses, com muitas malas e passagens de ida-e-volta no meio do caminho. E eis que. E eis que eu me vi de volta naquele mesmo lugar, sendo salva por amigas e amigos incríveis, mas sem bacalhau nem fondue de chocolate ─ nem aquele memorável churrasco de bacon. Em vez disso, eu pilotando forno e fogão (quem diria!), algumas garrafas de vinho e cerveja, um retorno às minhas origens neo-aristocráticas, um bar hippie com uma jam band, alguns aplicativos no celular, um brunch, uma tarde deitada ao sol. Dessa vez, nenhuma das pessoas a minha volta fala minha língua materna, e a gente alterna entre duas ou três línguas outras, todas tão estrangeiras como todas essas sensações que eu não me dei o direito de vivenciar da primeira vez. E eu mesma fui procurar os comprimidos para dormir, para acordar, para viver.

Eu achava que o mais difícil era desistir. Há nove anos, o mais difícil foi desistir, sim. Porque eu queria muito continuar. Queria viver mais que todo mundo. Quis tanto que não percebi onde estava, o que estava fazendo, e tudo o que eu estava trancando em um armário que eu nunca mais abri, para poder correr, rápido e ao longe. Voar, correr, nadar, pedalar. Dessa vez, o mais difícil foi continuar. Ir dormir e querer acordar. Mas aí eu gritei de volta para alguém na rua, senti o sangue esquentar apesar de tudo, cliquei em "going" para aquele evento em que vou ter que ficar cara a cara com a pessoa com quem eu estava evitando comprar uma briga, senti o sangue ferver apesar de tudo. Quando acordei no mesmo lugar tanto tempo depois, com o celular piscando para mim num reality check que deu um frio na espinha, percebi que era hora de fazer meu chá, trocar de delineador e esperar pela próxima vez, quando, com sorte, a história se repetirá como farsa.

Para ouvir: Stromae ─ Sommeil

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