mardi 29 mars 2016

Nous étions formidables

Primeiro se foram os sapatos, com força, quicando no chão. Em seguida, estranhamente, as luvas. Aquelas amarras, que escondiam os piores demônios. Os grampos do cabelo. Teve um que ficou emaranhado, dando mais trabalho. Saiu, mas levou um punhado de fios junto. Não sentiu dor; sentiu alívio. Perdeu a paciência com a meia-calça, que desfiou toda. Jogou no chão, chutou. O emaranhado de nylon, leve demais, mal se moveu. Sentou-se na cama com os cotovelos apoiados sobre as coxas, e a cabeça pesando sobre os punhos. Esperou o frio subir pela espinha. Nada. Abriu a janela, no escuro, para deixar entrar o ar frio. Sua respiração continuava quente, ardendo. Acendeu a luz, porque já não bastava ver o mundo: queria ser vista. Gritou e gritou. Ninguém gritou de volta; ninguém reagiu.

Mediu as juntas do piso. Contou-as uma vez, duas. Mediu o quarto em passos. Quatro. Tão, tão pouco. Não era à toa que o ar tinha se transformado em brasa. Um, dois, três, quatro ─ rápido, com afinco. O quinto foi um impulso no parapeito. O sexto foi no vento denso, que a impulsionou. Lá de cima, era para o mundo parecer em miniatura, mas ele parecia assustador, gigantesco, mas do avesso: um reflexo numa colher.

Viu seu reflexo macroscópico deformado, atroz. Achou que era um oceano, mas era só o rio. Quis mergulhar, mas percebeu que não sabia como. Desceu, subiu, passou pertinho da margem, mas não teve força o bastante para atravessar a película d'água. Percebeu que talvez nunca mais conseguisse pousar. Imergir parecia ainda mais improvável. Quis voltar para os sapatos de solas gastas, para o conforto das luvas, para a disciplina dos grampos e elásticos. Só não sentiu falta da meia-calça, que odiava com força.

Quase começou a se imaginar de volta e, quando olhou para cima e viu as nuvens carregadas, sorriu. Decidiu que iria se abismar nas raízes da chuva.

Para ouvir: Rolling Stones ─ You Can't Always Get What You Want

lundi 28 mars 2016

Tu souris trop pour être heureux

Ressuscitar um blog citando Marx ─ what a concept! Mas eis que, nove anos depois, a história se repete como tragédia. Nove Páscoas. O dia exato é difícil especificar, mas vou jogar lá na conta da margem de erro. Na época, era uma coisa só, curta, pontual, que se arrastou por algumas semanas. Alguns dias sem dormir, alguns momentos de crise, um final de semana de Páscoa e bacalhau e fondue de chocolate com gente que eu nunca mais vi, umas reviravoltas, uns carros na contramão, uma passagem aérea só de ida e um punhado de malas. E assim tudo se resolveu.

Agora, é todo um pacote de coisas, um troço que já vem se arrastando por alguns meses, com muitas malas e passagens de ida-e-volta no meio do caminho. E eis que. E eis que eu me vi de volta naquele mesmo lugar, sendo salva por amigas e amigos incríveis, mas sem bacalhau nem fondue de chocolate ─ nem aquele memorável churrasco de bacon. Em vez disso, eu pilotando forno e fogão (quem diria!), algumas garrafas de vinho e cerveja, um retorno às minhas origens neo-aristocráticas, um bar hippie com uma jam band, alguns aplicativos no celular, um brunch, uma tarde deitada ao sol. Dessa vez, nenhuma das pessoas a minha volta fala minha língua materna, e a gente alterna entre duas ou três línguas outras, todas tão estrangeiras como todas essas sensações que eu não me dei o direito de vivenciar da primeira vez. E eu mesma fui procurar os comprimidos para dormir, para acordar, para viver.

Eu achava que o mais difícil era desistir. Há nove anos, o mais difícil foi desistir, sim. Porque eu queria muito continuar. Queria viver mais que todo mundo. Quis tanto que não percebi onde estava, o que estava fazendo, e tudo o que eu estava trancando em um armário que eu nunca mais abri, para poder correr, rápido e ao longe. Voar, correr, nadar, pedalar. Dessa vez, o mais difícil foi continuar. Ir dormir e querer acordar. Mas aí eu gritei de volta para alguém na rua, senti o sangue esquentar apesar de tudo, cliquei em "going" para aquele evento em que vou ter que ficar cara a cara com a pessoa com quem eu estava evitando comprar uma briga, senti o sangue ferver apesar de tudo. Quando acordei no mesmo lugar tanto tempo depois, com o celular piscando para mim num reality check que deu um frio na espinha, percebi que era hora de fazer meu chá, trocar de delineador e esperar pela próxima vez, quando, com sorte, a história se repetirá como farsa.

Para ouvir: Stromae ─ Sommeil