mercredi 9 juillet 2014

Necks gin

Não sou Nelson Rodrigues, então sequer deveria estar escrevendo isso aqui. Só que.

Só que talvez eu deva isso aos filhos e netos que nunca vou ter. Ou porque daqui a 4, 8, 12, 16 anos etc. alguém ainda vai recuperar essa conversa de onde-você-estava-no-Brasil-e-Alemanha-de-2014.

Vejam: eu cresci com a lenda do Maracanazo. Não sei quando foi a primeira vez que ouvi falar da final entre Brasil e Uruguai. Deve ter sido durante a Copa de 90. Não vi o tri. Não vi a Grande Seleção de 82. Não tenho lembrança alguma de 86. Minha primeira lembrança de Copa do Mundo é da Copa de 90: me lembro só da eliminação do Brasil (pela Argentina) e da final entre Alemanha e Argentina. Torci para a Alemanha -- no Brasil, afinal, a gente aprende a torcer contra a Argentina desde bem cedo e, em 90, foi ainda mais fácil; fiquei contente com a vitória de uma Alemanha que, embora já unificada, ainda jogava como Ocidental.

Eu cresci com a lenda do Maracanazo. Acho que meu avô me contou que estava no Maracanã naquela final (que não foi uma final strico sensu). Ou eu inventei isso, porque gostaria de ter conhecido alguém que estava lá, pra ter certeza de que aquilo realmente aconteceu, do contrário talvez não acreditasse. Como não acreditei que o Brasil seria campeão em 94, depois daquele doloroso jogo contra os EUA. Voltei a acreditar depois do gol do Branco, contra a Holanda. Quem esquece do Brasil x Holanda de 94? Fomos a um casamento de um primo do meu pai nesse dia. Meus pais eram padrinhos. Eu me lembro de ter emprestado um mini-radinho amarelo de braço (com uma banda elástica) para meu pai usar por baixo do paletó do terno e poder escutar o final do segundo tempo do jogo na igreja (Q: Quem marca um casamento para dia de jogo de quartas-de final? A: Gente que não acredita.). A final de 94? Dessa todo mundo lembra. Ela foi quase tão grande quando o Maracanazo. Acabou, Baggio. Acabou, Galvão. É tetra. A primeira vez que vi o Brasil ser campeão em Copa do Mundo. Nunca se comemorou tanto uma vitória. O país que tinha acabado de perder o Senna era o primeiro tetra da história. Márcio Santos foi esquecido. Taffarel virou herói. Em 94, Baggio, nosso herói italiano, virou um nome tão grande como o Maracanazo.

Eu cresci com a lenda do Maracanazo. Ainda assim, o jogo mais inexplicável de uma final de Copa foi o de 98, quando passamos tão perto e tão, tão longe. Quando, da janela do hotel em que estava hospedada em Copacabana, no dia da final -- 12 de julho, Zagallo passou raspando! --, vi o palco que estava montado na areia da praia para a festa do penta ser desmontado ao som fraco do show de axé marcado para a comemoração que não existiu. Perderíamos (mas mais cedo) para a França novamente em 2006, quando eu teria de lidar com meus colegas de trabalho (franceses, nessa época em que eu trabalhava para uma multinacional gaulesa) indo às forras com o resultado do jogo. Naquele ano, eu torceria para a Itália, que, finalmente, seria tetra. Mas o Brasil foi primeiro.

Eu cresci com a lenda do Maracanazo, mas a verdade é que não sei bem como ele foi. Assim como não sei como foi a Copa de 2002, o Penta. Não madruguei para ver os jogos. Na final, que terminou bem cedo numa manhã de domingo, só soube que tinha dado Brasil porque acordei com os fogos e rojões -- na casa da minha avó, em uma cidade onde fogos e rojões só são vistos e ouvidos, usualmente, em festa de São João. Copa do Mundo na Ásia foi um fiasco. Mas não foi um Maracanazo.

Eu cresci com a lenda do Maracanazo. E, apesar disso, aprendi a torcer para o Uruguai como quem torce para a pátria-amada-idolatrada-salve-salve, porque em 2010 o Uruguai veio para a Copa como o Globo Repórter e mostraram "Futebol: o que é, como se faz, de que se alimenta". Nunca haverá jogo como Uruguai x Gana em 2010. Nunca. Se houve uma seleção melhor que o Uruguai de 2010? Não sei. Certamente Holanda e Espanha não eram. Talvez o Uruguai do Maracanazo?

Eu cresci com a lenda do Maracanazo. E ela voltou com tudo esse ano. Para mim, com saudosismo clariceano (saudades do que não vivi etc.): eu queria ~my own private Maracanazo~, um Maracanazo pra chamar de meu. Queria Brasil na final, porque sou brasileira, com muito orgulho e não desisto nunca.... Queria Uruguai na final, porque o melhor time merece estar na final, E ganhar. Só que o Maracanazo de 50 não foi construído com mordida (nem com chute de Subzero colombiano, aliás). Caiu a Celeste. Acabou o sonho de Maracanazo Redux.

Eu cresci com a lenda do Maracanazo. Mas aí, teve hoje. E é essa a história que eu contaria à minha prole. Como, depois de um dia dos infernos em outro hemisfério, em um país cuja seleção sequer conseguiu se classificar para a Copa, terminei uma avaliação às 15h30 (hora local) sem a menor vontade de assistir a esse jogo, mas fui cooptada pelos colegas animados. Fomos a um bar, onde sentei, estrategicamente, ao lado do meu colega alemão. Também estavam lá uma colega e um colega finlandeses, um colega polonês, duas colegas americanas, um colega britânico e um colega italiano; 16h00 hora local; o nome do bar era Foxes Den (que fiquem registrados esses dados para a posteridade). O jogo começou bem, mesmo sem Neymar e Thiago Silva. O Brasil no ataque. Passados poucos minutos, gol. O time ruim que vinha jogando já não era mais reconhecível. Mais alguns minutos, gol. E foi aí que começou a roleta-russa do desespero. Esperávamos 2x0. Já estava 0x2. Os jogadores em campo não sabiam o que fazer. Eu sabia: pedi meu segundo gin-tônica. Foram mais 3 gols em 5 minutos. Meu colega alemão já não comemorava. Ele estava atônito, esperando ver cada replay para ter certeza de que era verdade. Minha colega argentina, sentada à minha frente não acreditava. Ela estava torcendo pelo Brasil. O que estava em jogo aqui não era rivalidade Brasil-Argentina. Era América do Sul-Europa. Em 2014, isso faz muito mais sentido que a rivalidade antiga, boba. No segundo tempo, seriam mais 2 gols. Mais um gin-tônica. A Alemanha já não comemorava. As pessoas no bar ainda gritavam, mas só os americanos ou canadenses. Os alemães só batiam palmas fracas, por respeito à vergonha pela qual o Brasil passava. Um gol "de honra", com todas as aspas que ele merece (não há honra possível em 1x7), só veio aos 45 do segundo tempo. Todo mundo no bar comemorou: meio que por ironia, meio que como se comemora um gol de um café-com-leite (ver: Coréia do Norte, Irã etc.). Saldo final do jogo: Brasil 1 x 7 Alemanha, 3 gins, um ravióli que desceu mal, um alemão incrédulo, e uma argentina desolada, que chorou com a derrota brasileira.

E quando a argentina chora nossa derrota é quando temos a certeza de que temos nosso novo Maracanazo.