vendredi 6 juin 2014

Vitelliani

Eu escrevo, escrevo, escrevo. Depois vou e edito tudo, para ficar mais bonito. Aí, eu deleto e começo tudo de novo. Aí, acho a o vídeo perfeito, a frase perfeita, o comentário perfeito. Ótimo. Feito. Clique.

E aí, fica tudo perfeito demais. E eu penso duas vezes. Um clique, dois. Fico morrendo de raiva. Apago tudo. Não, não vai ter nada. Nada. E foda-se. Vai, sim. Vai ter alguma coisa, e vai ser horrível, e é o que tem, porque eu sou essa pessoa horrível e tudo é um grande rascunho do que eu queria que as coisas fossem.

No final, não digo o que eu queria, e vai ficando tudo entalado. Sobra só um título vazio e, no cantinho, duas palavras murmuradas.

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mercredi 4 juin 2014

Lunellum

Cena: cozinha da casa na hora do café da manhã. Eu estou ajudando mãe e filha a arrumarem a louça, depois da refeição. A filha, de 5 anos, começa e me contar sobre a escola. Pergunto de que ela mais gosta (de tudo), de que ela não gosta (lição de casa), se ela vai à escola durante o verão etc. A mãe, que estava colocando a louça na máquina de lavar louça, levanta a cabeça e me pergunta sobre o doutorado. Me pergunta quantas páginas tem uma tese em filosofia. Quanto tempo leva, em média, a escrita de uma tese etc. Conversamos um pouco, até sermos abruptamente interrompidas pela filha:

- O que é uma tese?
- É a maior lição de casa que alguém já teve de fazer na vida.

I fucking nailed it, sem nem hesitar.

Até que pensei mesmo nisso: a maior lição de casa da vida.


lundi 2 juin 2014

Pugillares

Fui à manicure. Entrei no primeiro segundo terceiro salão que vi pela frente e marquei um horário. Chegando lá, a manicure falava só umas palavras básicas, em inglês (colour? pedicure too?). Durante todo o processo de fazer minha mão, ela ficou em silêncio. Quando terminou, ela até falou mais, apologética:

-- Sorry. I don't speak English. I just arrive here. I speak Portuguese. [sic]

Canadá: o paraíso dos portugueses (e chineses, e vietnamitas, e franceses, e indianos...). A partir daí, detectada a falha de comunicação, batemos o maior papo: ela, na maior fofura do sotaque da região do Porto e eu tão-obviamente paulistana.

Eu poderia tirar muitas conclusões dessa história, mas, no final das contas, essas coisas só me dão saudades de Portugal e do Porto, e fazem com que eu me questione, pela milionésima vez, o que estou fazendo por aqui. É preciso que as aulas comecem para eu ter certeza de que pelo menos uma parte de mim está em casa na América do Norte. Até lá, meus pensamentos ficam do outro lado do Atlântico.

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dimanche 1 juin 2014

Tabula cerata

Chegar à cidade onde a gente nem tem certeza de que quer estar.

Se instalar em uma nova casa: ver se e como a persiana funciona (funciona, e é normal), onde ficam os interruptores (um na entrada, um ao lado da porta do quarto, será que tem um na escada?), descobrir se o quarto pega o sol da manhã ou da tarde (da manhã, ainda bem!), se o chuveiro é bom (já vi melhores).

Ser recebida com um café da manhã de bacon, ovos e panquecas. Deitar na cama, porque a noite foi muito mal dormida, e pegar no sono com o solzinho da manhã batendo no rosto.

Ir explorar o bairro; fazer compras (azeite! o primeiro item da lista é sempre o azeite!).

Procurar um lugar para jantar: descobrir (por recomendação) um restaurante etíope ótimo, com porções generosas e preço que agrada bem ao meu bolso.

Conter a ansiedade e pensar na Primeira Semana. Essa é que é a parte difícil. O resto, aí de cima, é como se fosse quotidiano.

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