samedi 31 mai 2014

The best of all the years have gone by

Hoje, em algum lugar muito distante de onde eu vou estar, "Total Eclipse of the Heart" estará sendo tocada, ao vivo, para mim.

Desses presentes que são iguais a deus: a gente não vê, não sabe se existem, amor define e dinheiro quase nenhum compra.

jeudi 1 mai 2014

Vingt ans

Não estou aqui para discutir o status de "herói" de ninguém. Stricto sensu, nem sei se entendo bem o conceito de herói (delego para os filósofos do século XIX). De todo modo, assim como 99% da internet, eu tenho algo a dizer sobre o dia de hoje.

No final dos anos 80, o Brasil estava tentando juntar os cacos e se reinventar a partir de um regime corrupto, destrutivo e injusto. Falhamos ao escolher nosso (re-)primeiro presidente eleito de maneira direta e democrática. As artes no país estavam entregues às traças. O esporte também não estava em situação muito melhor.

No final dos anos 80, já fazia quase 20 anos da conquista do "tri". O "tetra" ainda estava cozinhando em fogo bem baixo -- antes, ainda precisaria passar pelo fiasco de 90, na Itália, e se recuperar dele. O vôlei brasileiro ainda não tinha o status que tem: teríamos de esperar até Barcelona, em 1992, para termos uma equipe campeã. Gustavo Kuerten ainda era criança. A TV a cabo ou via satélite ainda estava engatinhando. Para assistirmos a eventos esportivos, tínhamos de ver o que a Globo se prestava a transmitir, ou então colocar um pedaço de Bombril na antena da TV para tentar pegar a TV Bandeirantes ou algum outro canal.

Desde que eu era bem pequena, me lembro de acordar cedinho, ou no meio da madrugada, ou ir dormir super tarde, duas vezes por mês, aos domingos, durante uns seis ou sete anos, para ficar colada na frente da TV, com meu pai.

Eu lembro que ele quase sempre fazia pipoca. Mas pipoca de panela, comme il faut. Tenho quase certeza de que, nessa época (ou durante boa parte dela), não existia pipoca de microondas. Ia falar que a gente sequer tinha um microondas em casa, mas isso é mentira. A gente tinha um Panasonic (ou era Sanyo?) daqueles de rodar o botão para os minutos. Acho que o prato não era giratório.

O piso dos quartos de casa ainda era de carpete. A gente tinha uns edredons fofinhos que eu usava para forrar o chão (carpete é um troço from hell e dá coceira) do quarto de TV para assistir à TV mais comodamente. Nessa época, a gente sequer tinha TV nos quartos lá em casa. Tinha uma TV de umas 16 polegadas que ficava no quarto de TV. E tinha uma outra, preto e branco, na cozinha (para a gente assistir ao JN durante o jantar). Eu só ganharia uma TV para o meu quarto em 1994, acho. Meus pais só teriam uma TV no quarto deles alguns anos depois, no final da década de 90. O som da TV do quarto de TV daquela época provavelmente era mono, mas o "tema da vitória" na época me soava tão bem em mono quanto qualquer coisa digital stereo surround de hoje em dia.

Eu lembro de estar no Pré II e enrolar a língua ao máximo para conseguir pronunciar "Hockenheim" (a primeira palavra alemã que aprendi!). Aprendi que Spa ficava na Bélgica. Meu maior inimigo declarado nessa época se chamava Alain Prost. Foi o primeiro francês que eu odiei de verdade. Uma das coisas que eu mais queria -- e eu só tinha lá meus 5 ou 6 anos -- era conhecer Interlagos. Depois, o que eu passei a querer (mas aí eu já tinha meus 8 ou 10 anos) era aprender a pilotar kart. Não podendo fazer isso, eu me contentava em encher o saco dos meus pais toda vez em que a gente ia a um lugar que tinha uma pista de mini-buggy, para poder pilotar um pouquinho. Se bobear, deve ter tido uma época em que eu era capaz de reconhecer um motor McLaren pelo som.

Uma das primeiras coisas que meu pai me disse quando eu falei que me mudaria para Montreal foi: "Lembra do circuito de Montreal? Na ilha Notre-Dame? É um dos circuitos mais bonitos que tem, na minha opinião." (Meses depois, eu participaria de uma 5K que passava por parte do circuito: uma das coisas mais legais da vida.)

No final dos anos 80, início dos 90, não tinha tamagochi, celular, internet por toda parte. Tinha o circuito de rua de Adelaide, que era o mais legal, porque era justamente a vez em que eu podia ficar acordada até de madrugada. (Aprendi também sobre fusos horários.) O condomínio todo com as luzes apagadas. Você olhava para as outras janelas e via uma luzinha fraca vinda de cada uma: todo mundo só com a TV ligada. Minha mãe às vezes perdia a paciência ou ficava com sono e ia dormir. Mas eu ficava lá, vidrada na TV, com meu pai. E meu pai se empolgava: ele comemorava, xingava (bom carioca xinga sempre!), ficava ansioso com os tempos nos boxes, angustiado com algumas fechadas. Eu nunca dormia: sempre ficava acordada até o final. Eu adorava ver o pódio, as taças, os banhos de champagne.

Os tempos eram outros. Eu sequer torcia para um time de futebol. Não dava bola para a seleção brasileira. Acho que a maioria das crianças pequenas nem ligava tanto para a Copa do Mundo. Acho que eu nem assistia a jogos de futebol -- menos ainda a outros esportes. Como os tempos eram outros e eu era criança, eu não tinha preocupações ecológicas, políticas, sociais envolvendo eventos esportivos. Eu só gostava de poder compartilhar aqueles momentos com meu pai, empolgada, comendo pipoca, e de, depois, poder comentar com meus coleguinhas de escola, perguntar quem viu a largada, a chegada, aquela ultrapassagem incrível, o acidente grave.

Desde 1o. de maio de 1994 eu nunca mais assisti a uma corrida de Fórmula 1.