dimanche 29 décembre 2013

2013

Retrospectiva das melhores coisas de 2013, em ordem aleatória:

1. Hipopótamo de chocolate;
2. Projeto de tese aprovado;
3. Portugal;
4. Bate-e-volta pro Vermont;
5. Começar o ano com magret de pato, cogumelos selvagens, gravlax, cervo, foie gras...;
6. Show do My Bloody Valentine;
7. Poutine week;
8. Nuit Blanche;
9. Almoçar e tomar um negroni em Florença;
10. Ramadã em Istambul;
11. Brunches no APDC;
12. IMAX;
13. Medo eterno do Bob, de Twin Peaks.


vendredi 6 décembre 2013

Syllogomanie

Tem aquele programa "Acumuladores", que as pessoas têm algum prazer mórbido em ver. A acumulação, esse distúrbio, que leva as pessoas a acumularem coisas a ponto de não conseguirem viver "normalmente", faz parte (até segunda ordem) do espectro do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). No mesmo espectro, estão versões graves de distúrbios de ansiedade.

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Ontem, alguém compartilhou isso aqui no Facebook: um desses memes da web. Dessas coisas que seriam engraçadas não fossem trágicas. O problema é exatamente esse: é trágico. E, portanto, não é engraçado.

As pessoas se dizem ansiosas a torto e a direito. As pessoas se dizem deprimidas a torto e a direito. As pessoas dizem coisas. As pessoas não sabem o que dizem.

É difícil explicar a natureza de um real distúrbio de ansiedade para que ele não seja mal-compreendido como uma mera idiossincrasia. Isso quer dizer só que meu organismo fica no modo "stress" o tempo todo? Significa que eu durmo mal? Que eu tenho insônia? Que eu me preocupo demais? Que eu sou hipocondríaca? Não. Um real distúrbio de ansiedade pode incluir, sim, todas essas coisas, mas é muito, muito maior que isso.

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Uma das explicações dadas à acumulação é que ela é um quadro em que, segundo a Wiki, por exemplo, a aparente importância do itens acumulados excede em muito o valor real deles.

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A ansiedade. Um dia, você acorda e não quer mexer em nada. Não quer tocar em nada à sua volta. Age com tanta cautela que sua cabeça dói, seu corpo dói. Você acha que, se fizer o cenário a seu redor congelar no tempo, as coisas voltarão a ser como eram. Você não quer trocar a roupa de cama, desdobrar o pijama guardado sobre o travesseiro com um laço, guardar as coisas que ficaram em cima da mesa de cabeceira, lavar a louça. Uma tentativa fútil, irracional. Irracional mas inevitável.

É esse mesmo tipo de impulso que faz com que muita gente demore algum tempo a conseguir doar/vender/jogar fora objetos e roupas que pertenceram a alguém que morreu. Tem gente que faz por negação; tem gente que faz por barganha. De todo modo, a motivação tem a ver com a maneira com a qual lidamos com tragédias. A idéia por trás disso é que, se deixarmos as coisas como elas estavam, tudo irá, automaticamente, manter a mesma estabilidade. É algum tipo de barganha com o universo, misturada com uma nostalgia que acalma.

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Acumuladores "podem perder a vontade de jogar fora itens indesejados devido a um sentimento de ligação com esses itens."

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Imagine a casa de uma dessas pessoas que aparece no programa "Acumuladores". O programa pode, para alguns, ter algum valor de entretenimento, mas imaginem, por um segundo, ter de lidar com isso: viver na casa em que essas pessoas vivem, andando por cima de amontoados de objetos, dormindo no espaço que sobrou entre as coisas que lhes dão a última esperança de segurança, de calma.

Agora, imagine que a cabeça de uma pessoa com distúrbio de ansiedade é como a casa de um acumulador. Exceto que não se tem nunca a opção de sair dela. Você tem de lidar com sua vida desviando de obstáculos mentais que você se impôs; você só dorme quando o cansaço vence - e, mesmo assim, com medo de que, ao dormir, alguma coisa se perca, alguma coisa interfira na estrutura das coisas quando você não estiver consciente. Isso não é um traço de personalidade, um estilo de vida, um estado de espírito. Não mais que a acumulação é qualquer uma dessas coisas.

Você vive em uma desordem cognitiva constante, num estado de barganha irracional e perene, sem a menor chance de saída. A cada dia, você adiciona um item, uma preocupação, uma memória ao amontoado. Seu cérebro transborda, assim como a casa dos acumuladores, em um determinado momento, já não comporta aquelas tralhas. Sua memória falha constantemente e você tenta, cada vez com mais força, se ater àquilo que sabe que vai perder num piscar de olhos. Memórias se tornam bens perecíveis preciosíssimos. Acumuladores acumulam mais ainda quando sentem a pressão de que podem perder objetos acumulados. A cabeça de uma pessoa com distúrbio de ansiedade faz o mesmo. Os dois distúrbios podem ser, qualitativamente, bastante diferentes, mas os pontos análogos podem ajudar a "desbanalizar".

A grande diferença entre os dois é que, em geral, as paredes de uma casa não cedem.



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dimanche 1 décembre 2013

Dimanche

Todo mundo torcendo para que novembro acabasse logo. E eu aqui, torcendo para que não acabasse nunca.

De dentro da minha cabeça, o mundo está bem estranho. Desde sexta-feira, me esqueci de olhar a caixa de correio. Hoje, saindo de casa (e tendo de colocar minha cabeça um pouco para fora da cabeça), abri a tampinha. E eis que tinha uma cartinha para mim. Se eu acreditasse em qualquer coisa, diria que era algum tipo de compensação cósmica.





Mas é claro que o universo é tão cheio de truques quanto uma tirinha do Cornellà. Foi só eu virar o cartão e:


Eu que o diga.