samedi 30 novembre 2013

C

Último dia do curso (from hell) de lingüística do francês. ["Eu não quero ir para a escola; eu ODEIO a escola!"]

Aprendi muito mais sobre a vida com Los Campesinos que indo à escola

File under: bowled_over


*posts retroativos a vir.

vendredi 29 novembre 2013

J'ose pas vous dire à quel point vous m'êtes chers

Teve uma dessas vezes que eu fui embora do Brasil estudar. Conheci meus colegas: um tanto de acadêmicos e pessoas com aspirações exóticas. Entre eles, um cara chato. O melhor da turma, mas meio mala, todo metido com seus anos de estudo de latim e outros poliglotismos.

Eu morava num lugar bem legal: o apartamento era bem decorado, embora não fosse no lugar mais legal da cidade à época. O problema, de início, é que eu sempre encontrava o baixinho chato do latim (porque ele morava relativamente perto da minha casa, in the grander scheme of things), e eu tinha de aturar o caminho de ida e/ou de volta com ele.

Depois de um tempo, a companhia dele foi ficando mais agradável. A cada vez que íamos à aula juntos acontecia uma coisa esdrúxula. Do tipo de coisa que, se você contasse para alguém, a pessoa não acreditaria. Mas éramos dois para ver e morrer de rir depois. E aí, foram surgindo as piadas internas. E os comentários inócuos sobre alguns colegas de classe - que depois viraram grandes tirações de sarro entre nós dois (principalmente às custas de um colega grego: uma das pesoas mais sem-noção que já conheci). Logo, estávamos gostando de nos encontrar acidentalmente e começamos a marcar para nos encontrarmos de propósito. Para voltarmos juntos para casa. Para passar num lugar baratinho para comer alguma coisa.

Sempre que marcávamos alguma coisa com o grupo, íamos juntos e servíamos de "buffer" um do outro. Quando a ~baladénha~ estava chata, a gente ia prum canto, sentava e passava a noite toda lá, fora da rodinha, conversando. Todo mundo jurava que tinha alguma coisa entre a gente. Vivíamos grudados. Ninguém entendia. Uma vez, voltando de uma dessas ~baladénhas~, estávamos do outro lado da cidade. Nos destraímos tanto conversando que acabamos voltando a pé para casa. Seis quilômetros. Às quatro da manhã. Aos finais de semana, rodamos a cidade toda. Comemos todos os tipos de comida barata. Quando deu, saímos da cidade. Passamos um dia lindo de verão fora do caos, longe dos turistas etc.

Chegada a época de ele ir embora, o contrato de aluguel que ele tinha acabava antes da data do vôo. Como meu apartamento era espaçoso, ofereci a ele de acampar comigo. No dia da partida, tomamos um café da manhã tranquilo: conversamos, planejamos trocar e-mails. Ajudei ele com as malas no transporte público (malas vs. transporte público: a batalha é sempre dura...) e nos despedimos. Voltei para casa (a volta é sempre longa) sem ter para quem contar minha aventura surreal do caminho de volta.

Corri para o e-mail e escrevi para meu amigo: coisa de gente desesperadamente solitária, mas teria um e-mail de "bom retorno" quando ele chegasse. Não parecia tão ruim. Me pareceu simpático. Algum tempo passou e nada de resposta. Fiquei chateada, mas sabia que era assim que as coisas eram. No dia seguinte, recebi um e-mail dele: ele me pedia desculpas por escrever tão cedo (ainda fazia pouco tempo que ele tinha partido), mas ele dizia estar sentindo falta das nossas conversas, das piadas internas, de jogar bilhar com bêbados aleatórios. Não entendi bem por que ele não mencionou o e-mail que eu tinha mandado e fui ver o e-mail que tinha mandado para ele no dia antes: mea culpa. Tinha enviado para o endereço de e-mail errado. Coração partido por nada. Fiquei mais tranquila. Respondi. Ele re-respondeu. Durante algumas semanas, trocamos pelo menos dois e-mails por dia. Depois, parcimônia: um e-mail a cada dois ou três dias, um e-mail a cada duas semanas, um presente de aniversário e um cartão de Natal, um e-mail por ano. Então, inevitavelmente: silêncio.

Isso aí foi há mais de oito anos. Hoje em dia, só tenho notícias dele pela esposa (ele se casou e teve três filhos), que é minha "amiga" no Facebook.

Acho que tem uma lição para se tirar dessa história, mas a lição que eu aprendi é que, estranhamente, o prato mais típico da comida grega parece se chamar alguma coisa que soa como "hambúrguer".

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Nesse verão que passou, a gripe espanhola veio bater à minha porta em Salamanca. Quando eu cheguei a Bologna, ainda estava na batalha final contra a morte. Lá, dividi um apartamento com outras três pessoas que nunca estavam em casa. Resultado: eu nunca interagia com ninguém em casa. Assim, nunca ficava em casa. Saía quase todas as noites com meus colegas de curso. Fiz uma amiga lituana. Também saiamos bastante, viajamos juntas etc. Também fiquei amiga da minha professora: fizemos algumas coisas juntas.

Mas é verdade que, todos os dias, eu acordava entre 7h30 e 8h30 e, quando eu chegava à aula, às 9h00, eu ainda não tinha falado com ninguém. Porque ainda estava com o resquício da peste, assim que eu começava a emitir as primeiras palavras do dia, me dava um ataque de tosse dos infernos, que durava mais ou menos uma hora, non-stop (sem exagero). Não queria ir ao médico, ter de lidar com antibióticos nem nada. Então, fui à farmácia buscar alguma variante de panacéia. Nada feito.

A tosse do demônio ainda demorou umas duas semanas para ir embora. Para evitar que o ataque de tosse continuasse atrapalhando minha aula (afinal,também tinha outras pessoas lá), adotei a estratégia de começar a falar assim que acordasse: falava um pouco sozinha pela casa (feito louca) e cantava B&S pelas ruas, no caminho para a universidade. Tudo isso para fazer que o ataque de tosse já tivesse passado quando eu chegasse à aula.

Fui estudar latim e virei mestre em falar sozinha. Morando uma casa em que outras três pessoas viviam. História da minha vida.

Acho que tem ma lição a se tirar dessa história, mas a lição que eu aprendi é que, às vezes, a gente realmente precisa de antibióticos.

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Há alguns meses, eu resolvi explorar o cinema québecois. O resultado dessa incrível aventura é que eu vi um monte de filme ruim. O pior deles, Café de Flore, é provavelmente um dos piores filmes que eu vi na vida.

Tenho certeza de que o diretor tinha uma lição a nos ensinar, mas ele fracassou enormemente e eu só retive uma cena, porque eu adoro quando as pessoas gritam na TV. 

Noooon! Nooon!

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No final das contas, as coisas importantes da vida a gente só aprende mesmo com o Joan Cornellà:



file under: ça_changera_pas_le_cours_des_rivières_pour_toi

vendredi 8 novembre 2013

Feuilleton

17 de setembro de 2011.

Nesse dia teve um show do Olivia Tremor Control, lá no Il Motore, que foi um show bem legal. Naquela época, eu sequer conhecia o Olivia Tremor Control. E eu não poderia nem passar perto de imaginar o que essa noite iria render.

Tinha combinado com um amigo (colega, stricto sensu) de nos encontrarmos antes, no metrô, para irmos ao local do show juntos. Quando virei a esquina de casa, ele me ligou, dizendo que ele e o amigo, que talvez fosse com a gente, ainda iam demorar a estar prontos, e que pretendiam ir para lá mais tarde. Perguntei, então, se eu deveria voltar pra casa e dar um tempo ou se deveria ir emcontrá-los na casa do amigo (onde eles estavam). Decidimos pela segunda opção. Eu nem tinha onde anotar o endereço, e tive de confiar na minha memória. Não sei bem como, mas até que deu certo.

Tomei a linha laranja e fui uma estação a mais ao norte de onde tínhamos originalmente combinado. Mais uma caminhada de uns 10 minutinhos ("que bairro curioso!", "que predinhos feios!") e, com alguma dificuldade, achei a casa.

Toquei a campainha, subi, entrei. Fui apresentada ao amigo. "Vocês já se conhecem, não? Estão fazendo um curso juntos..."

Estamos?

Sou péssima fisionomista. Me apresentei (!.... er...) e tive de lidar com aquela conversa de elevador. Detesto. Mas essa estranheza só durou uns 2 minutos.

Foi a interação menos estranha que eu tive com um desconhecido e com um "meramente conhecido". Foi legal. Me senti menos socialmente inepta. Ficamos lá um tempo, conversando e bebendo. Depois, fomos andando até o local do show, conversando já num tom de amigos de longa data.

O show foi bom. Foi muito bom. E estava meio vazio. Foi tranquilo. Foi o primeiro show a que eu fui em Montreal. Me deixou esperançosa para futuros eventos na cidade (principalmente porque, àquelas alturas, eu já tinha comprado meu ingresso para ir ver Portishead). De lá, voltamos para a casa do amigo-do-amigo, para beber mais e continuar a conversa. E assim a coisa foi. De 20h30 até umas 3h20, que foi a hora em que eu percebi que, se não fosse embora imediatamente, não iria nunca mais: seria sugada para um buraco negro de embriaguez e conforto.

O resumo do que aconteceu àquela noite foi proferido pelo amigo-do-amigo, quando ainda era passado pouco da meia-noite: "por que nós três não podemos simplesmente morar juntos? seria perfeito." Não fazia nem quatro horas que tínhamos começado a interagir a três. Mas os três concordaram. E é claro que essa ~idéia brilhante~ bêbada nunca foi realizada. Para o bem de todos.

Fato é que, depois disso, começou nossa lua-de-mel a três. Nos encontrávamos sempre, fazíamos trilhões de coisas juntos, trocávamos centenas de e-mails por dia, a ponto de ninguém mais conseguir fazer outra coisa além de passar o dia respondendo a e-mails. Nos tornamos pouco funcionais para o resto do mundo, sugados pelo buraco negro da empolgação, ao melhor estilo de paixonite adolescente.

E assim foi por algum tempo. Algo entre 2 e 4 meses, mas que me dão a sensação de um ou dois anos, considerando o fator intensidade.

E aí, como havia de ser, o mundo parou de girar ao nosso redor. O foco da lente abriu, abriu e, dali a virar novela, foi um pulo. Mas novela mexicana, mesmo. Daqueles dramalhões, em que tem tantas obviedades, tantos clichês e tantos plot twists que você acha impossível aquilo ser a vida real. Só que é. E é a sua vida real. A novela é longa, e os detalhes são, como sempre, outra história, para outra ocasião, mas uma maneira correta de resumir, seria: tudo o que poderia acontecer aconteceu. Exceto, talvez, uma ou duas coisas. (Pensem em Fellini meets Bertolucci meets Mike Nichols meets Aguinaldo Silva meets Glória Perez.)

A lua-de-mel, da mesma maneira que começou (do nada), acabou, no meio ou no fim do printemps érable -- é difícil saber ao certo. Também é difícil saber ao certo quando terminou o printemps érable, se é que terminou...


7 de novembro de 2013.

Show do My Bloody Valentine. Um dos shows que eu mais queria ver na vida. E o amigo também. E lá fomos.

Bilheteria, chapelaria e... e eis que encontramos com o amigo-do-amigo. É claro que ele estaria naquele show. E também estava claro, para ele, que nós estaríamos lá. Contudo, ninguém tentou entrar em contato, combinar alguma coisa. Nos encontramos por acaso, como se aquilo fosse um posfácio óbvio e impertinente de alguma coisa maior.

Assistimos ao show juntos, aproveitando o intervalo entre a banda de abertura e o MBV para conversarmos sobre amenidades. Desconforto generalizado durante o show. Para ir embora, idem.

Por conta dos rumos novelísticos que as coisas tomaram, acho que nós três sabíamos de uma coisa: aquela foi, muito provavelmente, a última vez que nós três nos encontraríamos (os três juntos, ao mesmo tempo, quero dizer). Estranho que, depois de uma interação tão à la love at first sight dois anos antes, esse encontro gerasse um mal-estar tão grande. Era quase o oposto daquela sensação de buraco negro de conforto.

Um primeiro encontro num show. Um possível último encontro num show. Talvez algum ciclo de alguma coisa tenha se completado aí, mas, se fosse o capítulo final de uma novela, teria sido um grande fracasso. Exceto pela trilha sonora.