vendredi 31 mai 2013

Lendemain

Agora, sim: 30.

(sic)

Yes.

Vale lembrar, por outro lado, que minha 8-year-old self estudava em uma escola piagetiana hardcore, com apenas 7 outros coleguinhas na turma (um dos quais virou patricida, btw), não sabia correr (!), queria ser violinista E astronauta (eu INVENTEI o Chris Hadfield). Seu grande ídolo da vida era Sócrates (o filósofo, não o jogador de futebol. Aliás, WTFF, 8-year-old self? Você era uma self-fulfilling prophecy!), queria que alguém lhe explicasse que diabos era a teoria da relatividade "de que tanto falavam" (quem falava, cara-pálida?), preferia a URSS aos EUA, sonhava em conhecer a Berlim recém-unificada, imaginava que as pessoas no Japão viviam em uma espécie de futuro espaço-apocalíptico.

Ou seja, não sei se deveria confiar no julgamento de alguém tão inconseqüente...

Inconseqüente, mas coerente. - Favor fazer disso meu epitáfio.

Como sempre, deve ter algo filosófico a ser dito sobre isso aí, mas ainda não sei o quê. Descobrirei, possivelmente, quando chegar aos 50, idade em que, segundo Sócrates (personagem de Platão e meio que aquele cara mesmo ali de cima, que é filósofo, mas não jogador de futebol), conseguirei captar a forma do bem, ou algo assim (algo que eu também só vou conseguir entender quando chegar aos 50 - Platão malandrinho!).

20 years to go. Slow but steady.

mercredi 29 mai 2013

Trente

Há pouco mais de um mês, às vésperas (na véspera?) de fazer 40, o Michel Laub escreveu isso aqui para a FSP. Todo mundo achou lindo; virou viral. Eu gosto bastante do Laub, mas confesso que achei esse texto bem ruim marromêno.

Mas, mesmo assim, fiz minha paráfrase. Porque não é todo dia que a gente completa a amarelinha da ~young adulthood~ e chega na casinha "balzaca".

Fazer 30 anos é:

- Saber que a decadência do mundo é minha decadência.
- Continuar me aborrecendo com as coisas graves, e aprender a ignorar as pequenas.
- Entender que, no mundo de hoje, não posso excluir qualquer possibilidade de o que pode me matar. Saber que, no final, o que vai me matar é a comida (Monsanto, I'm talking to you!)
- Poder escolher os defeitos que os amigos tem. Burrice e falta de caráter são defeitos de ex-amigos e conhecidos.
- Deixar de confessar meus defeitos. Fazia isso aos 20. Aos 30, eles já ficaram todos bastante óbvios.
- Saber que é impossível não magoar pessoas queridas; me esforçar ao máximo assim mesmo.
- Continuar falando sozinha em casa; tentar não ser rabugenta nem em casa nem em público.
- Dada minha memória decadente, confiar na minha mente extendida para os momentos de lacuna. Tratar essa mente extendida como uma das coisas mais preciosas da vida.
- Beber menos: menos quantidade, com menor frequência, um leque menor de coisas (cerveja, whisky, Manhattan e Campari), com mais qualidade. Continuar longe de cigarros e cocaína.
- Ter de comer menos, mas comer mais. Ter de dormir mais, mas dormir menos. Só sair de casa na metade menos fria do ano.
- Uma vida completamente alheia aos esportes na televisão. Uma vida completamente alheia à televisão.
- Viajar com minha máquina fotográfica e deixá-la na mala. Não tirar fotos de lugares; tirar fotos de pessoas ou curiosidades (com a câmera do celular, porque a máquina ficou na mala).
- Ter restaurantes favoritos em cidades a que eu só fui uma vez e às quais provavelmente não voltarei.
- Não precisar negar o passado, ter orgulho de minha coerência ideológica, abjurar as incoerências.
- Continuar detestando o fato de que pessoas próximas (as boas) morrem.
- Ler cada vez menos ficção. Ler cada vez mais "outras filosofias".
- Tentar ser menos dependente do meu computador. Falhar. Não ter mais medo da tela branca do Word.
- Dirigir melhor, com mais calma, mais civilizadamente. Continuar xingando.
- Continuar sem ver TV. Acompanhar política o suficiente para me manter informada e ter crises de ansiedade.
- Ser muito crítica (sempre) de religião, apreciar artes plásticas contemporâneas, não entender hipsterismo e Big Brother, fazer parte de ONG ecológica.
- Endossar aquele discurso anti-intelectual que faz regredir a sociedade. Me afastar cada vez mais do mundo literário.
- Não ter tempo o bastante para a maledicência, mas exercê-la a fundo quando posso.
- Não entender esoterismo pseudo-acadêmico. Ter preguiça dele.
- Saber que a meritocracia é uma farsa capitalista.
- Sempre gostar mais de idéias que de pessoas. E mais ainda de pessoas com as boas idéias.
- Ter pesadelos constantes, enquanto tento perder medos bobos na vida real.
- Respeito por indignação profissional, algumas explicações psicanalíticas, pensamento acadêmico. Reflexão sobre por que existe vitimismo. A certeza de que São Paulo é incomparável.
- Ter um ego pessimista e um superego poliânico.
- Ter medo de envelhecer e não conseguir acompanhar as novas tecnologias.
- Não ter tempo (nem vontade, nem muita habilidade) para espionar os outros nas redes sociais.
- Ser pontual. E não me achar mais idiota por isso.
- Ter a certeza de que o ápice da minha vida já foi. Os primeiros anos da década de 2000 foram tudo o que prometeram ser. Em retrospecto.
- Ter a consciência de que estou ficando cada vez mais self-righteous. Lutar contra isso. Me tornar mais auto-crítica. Falhar.
- Saber que metalinguagem é esconderijo de superficialidade.
- Lamentar pelo resto dos tempos: não ter aprendido a tocar piano decentemente, o fim do Atari, o Uruguai não ter ganhado a última Copa do Mundo.
- Ter consciência de que, sem motivação, não dá para abrir os olhos de manhã. Tentar ser cuidadosa com meu uso de vírgulas.
- Viver como se não houvesse escolhas. Mas não acreditar em determinismo.
- Saber que não vou ter filhos.
- Seguir não comendo frango.

(Sim. Estou virando balzaca e sobranceira. Acho que é para isso, afinal, que servem os 30.)

mardi 14 mai 2013

Réellement l'amour

Maior vantagem de se ter amigos italianos: comida. Mentira, mas só meio que.

Teve jantar na casa de uma amiga italiana, combinando algumas das melhores coisas de Montreal: o carré St.-Louis e massa fresca feita em casa. A companhia também não era má...

Caipirinha sem gelo, fusão de mundos, montes de comida boa, tortinha de climão. Enfim, uma típica noite alineana. Bom, porque essas estão ficando cada vez mais raras...

As quatro pessoas que estavam presentes nesse jantar se viram pela última vez em janeiro, quando tudo era bem diferente. Antes disso, o último encontro foi há quase um ano, em junho do ano passado, logo antes que as suas vidas virassem o "Bizarro World" de si próprias. É possível que as quatro pessoas presentes nesse jantar só se vejam mais uma ou duas vezes mais antes de seus encontros finais (cedo ou tarde) com a Ceifadora. Porque essa é a naturezadas coisas.

Aqui entraria alguma consideração sobre como a curta interação entre essas quatro pessoas é uma versão apocalíptico-distópica de "Love Actually", mas é muito melhor que isso: porque não tem coro de Natal, nem redenção.

jeudi 9 mai 2013

Des reflets d'argent

Quinta-feira à tarde: palestra do Jesse Prinz (CUNY Grad Center) sobre "Art & Wonder"
Quinta-feira à noite: jantar com medievalistas (de toda a América do Norte)
Sexta-feira de manhã: palestras de medievalistas do mundo inteiro
Sexta-feira à tarde: mais palestras de medievalistas do mundo inteiro
Sábado de manhã: mais palestras de medievalistas do mundo inteiro
Sábado à tarde: mais palestras de medievalistas do mundo inteiro
Sábado de madrugada: vôo para a Flórida.

Porque ninguém é de ferro.

Depois de três dias bem hardcore, por que não dormir poucas horas, acordar às três da manhã e pegar o ônibus para o aeroporto.

Voilà.

Vôo MTL-Washington D.C.-Orlando.

Meio-dia e meia de domingo, o que sobrou de mim estava em Orlando, pronta para comemorar o aniversário da mamãe no Benihana, que é esse restaurante de que eu nunca tinha ouvido falar, mas que me parece ser a nova modinha americana no Brasil (depois de Friday's, Outback, Applebee's etc., chegou a vez  de orkutizarem a comida asiática-americana).

Eles chamam essa parada aí de "hibachi", que acho que é a palavra errada,
mas eu não manjo nada; só tenho fome.

Depois de sei-lá-quantas horas sem comer e sem dormir,
se forem me dar comida, chamo até de "minha quenga"

Olha... teriyaki por teriyaki, eu também me viro fazendo isso aê...
Sou boba nem nada; pedi sushi!

Mas confesso que eu comi metade das vieiras que vieram nesse prato

De quebra ainda teve um ~sorvetíneo~ acompanhado de ~parabéns~
para comemorar o aniversário da mamãe.


De resto, a Flórida é esse lugar meio chato, onde faz sol, e para onde as pessoas vão se enfiar em shoppings e fazer compras.

Eu prefiro a política de aproveitar que Orlando é uma cidade onde as bebidas alcoólicas são bem mais baratas que em Montreal.

Tim-tim!
Três dias em Orlando... Bora pra Miami (Ball Harbor). Porque quanto mais perto do sol (bem, bem perto, tipo Mercúrio) melhor.

Meu reino por essa vista todos os dias

Mas a mordomia de calor, compras e drinks, como boas alegrias de pobre que são, duram pouco. Quatro dias e, op!, bora voltar para a tundra canadense. Vôo Miami-MTL bem tarde, para eu chegar a Montreal depois da meia-noite, debaixo de chuva. Para ficar cada vez mais difícil gostar daqui.

vendredi 3 mai 2013

Satisfaisant

Hoje, eu quase matei a secretária do departamento. Mentira. Mas cheguei a ponto de quase gritar e tentar arrancar os cabelos daquela incompetente. Felizmente, depois da santa intervenção do diretor de pós-graduação, consegui o que queria: boas notícias.

A versão resumida é a seguinte:

"...I find this project absolutely sound, solid, well-conceived, and perfectly feasible" 
"...je donne un avis tout à fait favorable à ce projet prometteur et innovateur" 
"je considère ce projet de thèse très satisfaisant dans son état actuel et je lui attribue la note 'S'."
Sim. Isso significa que recebi, hoje (um pouco contra a vontade dos burocratas envolvidos), o relatório de avaliação do meu projeto de tese. É claro que houve algumas críticas, como há de haver, mas ainda acho que a avaliação que eu recebi (apesar de um dos membros - provisórios - da banca ser meio café-com-leite) foi ligeiramente acima da média. De todo modo, o que importa é que essa foi mais uma burocracia acadêmica superada.

Agora, bora escrever essa bagaça.


mercredi 1 mai 2013

La fleur aux dents

Fazendo a faxina bucal cotidiana dia desses, notei que tinha um FURINHO em um dos meus pré-molares do lado esquerdo. PÂNICO. Fui verificar o pré-molar gêmeo dele do lado direito para ter uma base de avaliação do estrago. BAM! Um furo gêmeo!

O que pessoas normais pensariam: "Ah, visto que não estou sentido dor nem sensibilidade alguma, deve ser um defeito do meu dente!"

O que eu pensei: "Ai, meldels, estou com uma cárie. Uma não, duas! Vou ter de obturar, fazer canal, meus dentes vou cair, vou ter de pôr implante, dentadura, vou ficar banguela, vou gastar todo o meu dinheiro no dentista, sentir dores infernais e ficar SEM DENTES! Meldels, como é que eu vou conseguir mastigar minha comida se não tiver dentes! AI, DROGA! Vou ter que ter uma alimentação líquida. Nunca mais vou poder comer bacon! Ai, e agora, o que eu faço, meldels???!!"

Vale lembrar que eu tenho uma única obturação, que foi feita em um dos meus pré-molares quando eu devia ter uns 6 ou 7 anos. Ou seja: memória zero da ocorrência. Fora isso, vou ao dentista regularmente, comme il faut, e sempre só para aquela limpeza básica. Nunca tinha tido de lidar com uma cárie. E o pior, sem ter acesso à minha dentista de SP (#classemédiasofre).

Vale lembrar também que existe o Google, que gente hipocondríaca como eu vê como o melhor substituto para uma consulta especializada. O Google dizia que eu tinha uma cárie. Que podia virar um canal, que eu podia perder o dente, morrer de septicemia etc. Sabem como é, o de sempre.

Daí começou a roleta-russa telefônica. Liguei para uma clínica de dentistas brasileiros que tem no centro da cidade. Como conheço duas pessoas que se trataram lá (e não morreram), me pareceu uma boa opção. Só que eles só tinham consulta para dali a um mês.

"COMOASSIM para dali um mês?! Em um mês, essa cárie já vai ter virado canal, vou estar morrendo de dor, não vou conseguir comer, vou perder o dente etc."

E agora? E AGORA?

Já sei: vou telefonar para a minha dentista!

Minha dentista estava de férias. Por umas duas semanas ainda.

Preciso achar um(a) dentista, preciso achar um(a) dentista! MAS COMO?

Santo Facebook nosso de cada dia! Um apelo aos coleguinhas de inverno e... voilà! Uma recomendação de uma outra clínica no centro da cidade. Liguei.

"Você pode vir daqui três dias?"

OPA!

(A vantagem do Canadá é que os serviços odontológicos são tabelados, então, não precisei me preocupar com achar um(a) dentista bom que fosse em conta. Me bastava achar um(a) que fosse bom/boa)

Estava marcado. 18 de abril seria o fatídico dia em que eu receberia o veredito de que, aos 29 anos, estava começando a perder meus dentes.

Depois de preencher a ficha, lidar com as burocracias do seguro e alguma espera, fui atendida por um dentista simpático, que perguntou se eu preferia ser atendida em inglês ou francês e que ainda arranhou um espanhol.

Ele olhou meus dentes, elogiou minha dentição como se eu não fosse cavalo dado e disse que eu só precisava marcar um limpeza com a higienista.

Mas, mas... e esses FUROS nos meus dentes?

"Furos? É com eles que você está preocupada? Eles não são cáries, não. São covinhas. Seria um pecado obturá-los. Agende uma limpeza e basta!"

:D (no pun intended)

"Agora, só uma coisa... o padrão em que seus dentes estão gastos... alguém já te disse que você range os dentes à noite?"
"Não."
"Pois eu acho que sim. Você não acorda com dor de cabeça, às vezes?"
"Não. Nunca."
"Hum. Mas observe isso quando acordar, se seu maxilar não está um pouco cansado. Porque esse tipo de desgaste aqui nos incisivos é típico de gente que range os dente ou rói as unhas."
Guilty as charged.

Saí de lá contente, com meus dentes saudáveis, e com uma limpeza agendada.

Data: 18 de abril
Serviço: consulta diagnóstica de urgência
Tempo: 5 minutos
Tortura: 1/10 (o "1" vem só da sensação de sentar em uma cadeira de dentista)
Custo: $ 0 (meu seguro arcou com vinte-e-poucos Stephen Harpers)


Chegado o dia da limpeza. Primeiro de maio (porque feriado é para fracos mentira: dia do trabalho aqui é em setembro).

Novamente alguma espera e... cadeira de tortura.

Dessa vez, foi uma moça francesa que me atendeu (quem faz a limpeza é higienista, não dentista).  Primeiro, raio-x de todos os meus dentes.

Como nunca tinha tido nada, sequer me lembro da última vez que tive de fazer radiografia dos dentes. Se minha memória não muito me falhar, deve ter sido lá pelos idos de 1995. Tudo ok. Nenhuma cárie escondida, nenhum problema horrível nas minha gengivas.

A limoeza em si seguiu meio que a mesma rotina que é seguida no Brasil, exceto para a remoção de tártaro, em que, em vez da moça quase arrancar meus dentes com aquele ferrinho, aqui, eles usam uma maquininha elétrica. O que não é muito melhor como sensação.

Depois de terminada a limpeza, o dentista "chefe" (o que tinha me atendido da outra vez), veio inspecionar a limpeza e dar uns retoques e recomendações finais.


Data: 1o. de maio
Serviço: radiografia, raspagem e profilaxia
Tempo: 35 minutos
Tortura: 3/10 (porque minhas gengivas não curtem esse lance de raspagem)
Custo: $ 0 (meu seguro arcou com uns duzentos Stephen Harpers)

Versão TL;DR da história:

Comparação final Google x Dentista:

GOOGLE
Disponibilidade: imediata (com a condição de que haja conexão de internet)
Tempo total: umas 2 horas de pesquisa
Profissionais consultados: profissionais??? Isso é o Google!
Diagnóstico: cárie seguida de canal, seguido de septicemia, seguida de morte
Prognóstico: nada bom
Custo: $ 0 (sem contar meu custo mensal com internet, eletricidade etc.)

DENTISTA
Disponibilidade: em 3 dias
Tempo total: 40 minutos
Profissionais consultados: 2 (dentista e higienista)
Diagnóstico: tártaro e gengivite
Prognóstico: muito bom, desde que eu faça a profilaxia a cada 6 meses
Custo: $ 0, com o uso do seguro (sem contar transporte de/para o consultório)


Veredito: "Google, perdeu preibói!"