mardi 29 janvier 2013

Les invasions barbares

Pobreza é o estado mais triste da alma, apaziguado por amigos(as) fofolitos(as) que nem os meus/as minhas.  Depois de ter sido convidada a assistir a "Red" em novembro, dessa vez o convite foi para ver a pré-estréia de "Waiting for the Barbarians", no Centre Segal. Texto do Coetzee, com o grupo que fez a peça na África do Sul.

Ingresso para a primeira fila: nada mal.



Confesso que nunca tive perseverança para terminar um livro do Coetzee (eu sei que eles são curtinhos, mas, enfim, há muito Kant e Tomás de Aquino a serem lidos por essas bandas), então, assistir à peça foi um bom atalho para conhecer melhor coisas que eu tenho preguiça demais para usar de maneira sólida na minha formação intelectual. (Projeto Pantagruel foi abandonado há muito.)

Peça em dois atos, começando às 20h., lá na casa do caralho em Westmount (não farei uma crítica da peça porque, porfa, né!). O que significa que eu não jantei antes (porque era cedo demais), e que saí de lá mor-ren-do de fome. O problema é que, às mais de dez da noite, não há muita coisa aberta em Montreal. O que deixa como solução La Banquise.

La Banquise é sempre uma ótima idéia, exceto quando.

Exceto quando a gente descobre que, três dias depois, vai começar a Poutine Week, e você tem a certeza de ter overdose de batatas gordas. Mas não sou eu que vou ficar reclamando de ir ao teatro sem pagar.

Já que as coisas de que mais sinto falta aqui (em comparação a São Paulo) são cinema e teatro, tenho de confessar que eu tenho arrumado boas soluções aos meus problemas: em SP, a cada dez vezes que ia ao teatro, talvez uma fosse a convite de gente linda do meio que me dava ingressos. Aqui, onde minha pobreza é maior e minha rede de contatos é menor, estou com 100% de eficiência. Não que eu reclame muito em gastar com essas coisas (gastei 10 stephen-harpers com aquela coisa de arte alternativa perto de casa, compro arte de prisioneiros etc.), mas não tenho 40 stephen-harpers (i.e. 80 dilmas) para gastar com duas horinhas no teatro por aqui, não.

Mas a maior vantagem de ter esse acesso às Artes (com letra maiúscula por esnobismo) é que ela dá um vigor a mais à alma. Porque eu sequer me lembro se assinei a petição contra o fechamento do Belas-Artes, mas preciso, sim, da minha dose diária (mensal? semestral?) de artes performáticas para ser sobreiver. Enquanto o Eugenides não escreve mais um livro, todas as outras coisas da vida funcionam como place holders.

lundi 28 janvier 2013

Pas compris

Passei quase o mês inteiro enfiada em casa lendo e escrevendo. Mas a minha pilha de coisas a ler não parece diminuir nunca, especialmente em vista de novos livros e artigos que eu descubro a cada dia.

Uma amostrinha:


Notaram alguma coisa meio "diferente" aí nessa pilha?

Vou dar um tempinho para vocês examinarem a foto...

Acharam o geninho?

Eu mostro para vocês:

Cliquem na foto para ampliar com esplendor

Se alguém quiser me mandar um "Teach Yourself Polish" (ou uma noiva russa que fale polonês), estarei aceitando, agradecendo, cantando e rodando. Vida não tá fácil pra ninguém. Vida acadêmica tá bem mais difícil pra mim. Rezem novenas.

samedi 26 janvier 2013

Pas génial

E aí que eu sou meio idiota e eu vivo com um pezinho em um mundo poliânico onde toda comida é boa e toda demencinha é arte.

Me convidaram para ir almoçar no Sushi St.-Denis. Eu aceitei. Aceitei sabendo que ia ser horrível. Mas aceitei sabendo também que fazia parte de algum tipo de idéia de ceder um pouco em prol da sociabilidade, ou alguma besteira de auto-ajuda que eu teria ouvido se tivessem me enfiado na terapia quando, no maternal, descobriram que eu tinha problemas de socialização.

Aí, acontece que vivi com esse estigma e hoje em dia eu fico hipercompensando e me enfiando nessas frias. O almoço foi bem ruim. O serviço foi horrível. Tudo como esperado. E eu lá, socializando...

Corta para de noite, quando minha pulsões artisticas pouco aptas me arrastaram para uma coisa bastante amadora e borderline show de horror aqui no Marché Saint-Jacques. Na verdade, fui mais pela causa, visto que o mercado é bem pertinho aqui de casa, é ótimo (tem uma ótima queijaria, uma ótima loja de embutidos e, hum, a CRémy!), mas tem pouquíssimo movimento e corre risco de falência.

Lição para a vida: mesmo com boa vontade, we have to draw the line somewhere quando se trata de arte amadora.

Uma hora e meia de piração artística pseudo-intelectual depois, decidi que bastava. E olha que, a essas horas, a situação lá em casa não era muito melhor...

wut?

Moral da história: onde se compra o pão não se idolatra a carne.

jeudi 24 janvier 2013

Pas de deux

E aí que eu passei uma boa parte do outono e esse início de inverno escondida enfiada em casa e evitando as pessoas por motivos de: muito trabalho e repetidas crises de ansiedade. Desnecessário entrar em detalhes, mas digamos que minhas interações humanas se resumiram a um círculo de umas duas ou três pessoas (dentre elas, o Ben, por motivo de: ele dorme a uns quinze metros do lugar onde eu vivencio ataques histéricos seguidos de insônia). Mas, enough about myself.

Fato é que essa reclusão, mais cedo ou mais tarde (mais tarde, mais tarde!), teria de acabar (teria nada!). E eis que, nessa leva de pessoas brincando de fênix, recebo um convite para um jantar de aniversário.

Porque a vida ~é bonita e é bonita~, era bastante óbvio que o evento social iria coincidir com a única noite da semana em que eu trabalho. Foda-se. Saí mais cedo e peguei o metrô para ir ao restaurante escolhido pela aniversariante, e me preparando para uma noite de intrigas e revelações (not).

Desnecessário também dizer que essa foi, possivelmente, a noite mais fria do ano. E eu lá, dando bola pra pneumonia, tomando metrô e andando pelo Plateau como se não houvesse superlotação hospitalar.

Ao sair do metrô, vejo essa figura que se apresenta aos meus olhos míopes como um protagonista de filme noir: andando à minha frente (portanto, de costas para mim), um homem magro, alto, com casacão de frio, capuz na cabeça, fumacinha vinda do rosto. Poderia ser fumacinha de frio ou de cigarro. Olhos míopes - e lacrimejantes por conta do frio - não ajudam na distinção. Cheguei um pouco mais perto e tive alguma certeza de que era cigarro. A julgar pelo passo (estranho como a gente tem essa coisa de reconhecer o passo das pessoas, mas esse papo fica para outra hora...), imaginei que era uma das pessoas fofas (not) que haviam recentemente ressurgido - e que também estava indo para o jantar. Chamei o sujeito e, voilà, estava certa. Fomos andando juntos para o restaurante (Monsieur B.), como se os últimos seis meses não tivessem acontecido e conversando sobre navalhas (of all things!).

Confesso que foi bom ter o par de olhos a mais para me servir de muleta, porque (novamente, míope!) teria passado direto do restaurante e possivelmente andado até a Sibéria, onde eu teria morrido de um misto de exaustão com hipotermia.

Entrando no restaurante, minha cabeça registrou um momento Bizarro World, em que tudo parecia uma versão estranha do mundo "normal" que eu conhecia: Um casal. Ela, uma versão morena da aniversariante. Ele, uma versão mais gordinha da figura de filme noir que foi andando comigo até o restaurante. Antes que minha cabeça explodisse, o casal me foi apresentado. Entendi que aqueles eram os irmãos das respectivas pessoas que povoavam meu mundo normal. (le sigh)

Logo depois, chegaram a aniversariante e mais uma convidada. A mesa estava quase completa. Só faltava um convidado que, como nós já sabíamos, envergonharia ao máximo a expressão punktlich wie die Maurer (adoro essa expressão, e fiquei feliz de finalmente poder jogá-la assim, super blasé, como quem não quer nada, aqui no blog. Só me julguem após dar um Google nela!). Todos estavam lá, cumprindo seus papéis: a aniversariante, bonita e simpática, meu quase escort com sua persona meio irreal meio cinematograficamente noir, o casal, altivo ou distraído (ou algo assim), a outra convidada, grávida, o outro convidado, atrasado, e eu sem ter uma idéia muito clara de que demônios estava fazendo ali.

Depois de momentos de revelação (mas não de intrigas, porque minha vida não é uma novela das 8) e muitas conversas de bebês a caminho (qual é o problema com vocês, pessoas que insistem em se reproduzir???), pudemos pedir a comida, que foi o dinheiro mais triste que gastei no mês. Não estava ruim, mas minha entrada tinha o tamanho de um amuse-bouche, e meu prato principal tinha o tamanho de uma entrada. Resumo: fome.

Entre o atndimento relapso e o bom vinho do Porto, as pessoas pediram sobremesas. Eu, por motivos de contenção de despesas, contenção de calorias e bom-senso em sentido geral (dado o tamanho das porções) resolvi ficar longe dessa furada. Os presentes, sabendo da alma obesa que habita meu corpo, estranharam, mas me mantive firme na minha decisão. Mesmo depois de ouvir repetidas vezes as palavras "doce de leite".

E depois? Depois, pagamos a conta, peguei o metrô, vim para casa e dormi.

Ainda não sei se isso é estoicismo ou ascese.

mercredi 23 janvier 2013

Pas chaud

Termômetro que fica na varanda da minha casa. Hoje. Se vocês não conseguirem enxergar o vermelhinho que marca a temperatura, é isso mesmo: ele está todo acanhado, lá em baixo, perto dos -30C (-20F).




Quem vai ser o primeiro fofolito/a primeira fofolita a reclamar do frio *horrível* de 15C de SP?

Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

Ah, tá. Foi isso mesmo que eu achei.



mardi 22 janvier 2013

Pas évident

Olha o que se pode encontrar em uma sala de espera de Montreal! (insira aqui sua piada sobre esperar o inesperado e blá-blá). Um adendo interessante é que as duas publicações têm, ao meu ver, o mesmo nível de credibilidade. Estando eu na situação de escolher como passar o tempo (bzz, bz, motorzinho, motorzinho), minha preferência óbvia foi o Chico Bento.



(Ah, e se algum troll passar por aqui, que fique registrado que não quero saber de mimimi nos comentários. Se você for leitor desse semanário cujo nome não digitarei, favor tomar um banho com pedra pomes e Omo e buscar outro lugar para compensar esse vazio existencial que toma sua alma. Grata.)

lundi 21 janvier 2013

Pas de pudeur

Olho no lance:

Plataforma da estação de metrô Beaudry (o metrô mais perto daqui de casa)

Mais foco, gentchy:

Quê isso no chão??
Bora ver diretinho:

Isso mesmo.

Não entendeu? Em que mundo vocês vivem?

Certamente não nesse mundo montrealense, onde algumas estações de metrô (não a minha, obviamente) e a maioria dos banheiros de McDonald's têm luz negra, para as pessoas não conseguirem achar as veias com facilidade. ~TENSO~

dimanche 20 janvier 2013

Pas drôle

Frio dos infernos e o Ben inventou de ir ao mercado na PQP para fazermos compras de mês. Acho que não faço "compras de mês" desde aquela remota época pré-plano Real, quando meus pais me buscavam na escola (onde eu estudava em tempo integral porque os tempos eram duros e eles tinham que trabalhar loucamente para pagar a escola alternativa piagetiana em que eu estudei em tempo integral e ainda tinha de sobrar algum troco no final do mês para eles comprarem o leite que eu me recusava a tomar etc. Ah, bons tempos! But I digress.) e íamos ao hipermercado Eldorado, corredo para encher dois carrinhos de compras antes que os funcionários viessem com aquelas maquininhas, reajustar os preços conforme a inflação do dia. Porque, sim, crianças nascidas na década de 90: o Brasil tinha inflação diária.

Mas isso é mais digressão, só para reforçar a idéia de que compras de mês trazem toda essa carga traumática à tona. (Eu, exausta, com minas perninhas gorduchas que prendiam na cadeirinha para crianças do carrinho e o incessante tec-tec-tec das maquininhas, que iam se aproximando e ameaçando obrigar meus pais a devolver a barra de chocolate Diplomata, para poder comprar um tanto a mais de carne... Era um pac-man da vida real.)

A vantagem é que o Ben agora tem carro, o que torna esse tipo de aventura bem mais fácil e agradável. Exceto que.

Exceto que tinha nevado loucamente nos dias precendentes a essa epopéia (e, a bem da verdade, ainda estava nevando quando saímos de casa) e o termômetro devia estar marcando algo na casa dos -15C. Depois de passarmos uns bons 20 minutos escavando o carro para fora da carapaça de neve dentro da qual ele estava, fomos lá, no maior estilo perua escolar, passar a tarde de domingo no mercado.

O detalhe é que isso foi no início da tarde e, até aquele momento, eu só tinha consumido uma xícara de chá (ou algo assim).

Fazer compras com fome. Dessas coisas que a gente aprende a não fazer quase instintivamente. E que a gente sempre faz, como que por auto-despeito. Só que, no meu caso, a fome era tanta que só me deu mau humor. Especialmente porque tudo estava caríssimo nesse raio desse mercado. Mas o problema de fazer compras em grupo (outra lição para a vida...) é que a gente fica refém do consumismo alheio.

Honestamente, não sei quantas horas ficamos no mercado, mas me pareceu algo em torno de uns 4 dias. Eu estava achando que ia morrer ali. Quando já estava a ponto de desistir e pedir a extrema unção para um tigre da Kellogg's, o Ben resolveu que estava na hora de passarmos no caixa.

Larguei todo o dinheiro que (não) tinha naquela maldita compra. E continuava com fome.

Hipotermia para carregar o porta-malas do carro com as compras (a gente imagina que, numa cidade em que a temperatura vai de -40C a 35C, eles construiriam estaconamentos cobertos - mas nããããão!). Hipotermia para descarregar as compras chegando em casa (tomando cuidado para não escorregar na escada, cair, bater a cabeça e morrer que nem a Nico).

Por fim, poderia ficar quietinha no quentinho e - oxalá! - me alimentar. Exceto que.

Exceto que, nessa compra de mês, como havia de ser, não tinha muita comida. Nada de preparo rápido, ao menos. Graças a algum tipo de impulso engenhoso do meu sub-consciente, entretanto, eu comprei uma caixa de waffles congelados (sim, caros e caras: Eggos!). Mas eu teria de dar aquela famosa garibada neles, para que eles dessem conta de tampar a cratera que havia sido aberta no meu estômago, visto que já eram 17h, e tudo o que eu havia consumido - eu vos lembro - era a tal xícara de chá (e mais uns salgadinhos que abri logo após passar no caixa).

Eis aí o maior momento de iluminação: na minha geladeira, tinha uns restinhos de porco desfiado que tinham sobrado do jantar (ou almoço?) do dia anterior!

Vocês sabem o que isso significa, crianças? Atenção para o momento flashback (mas, dessa vez, não vamos até épocas pré-plano Real; acalmem-se!, vamos apenas para 2007-2008):

pork... on... my... Eggos!

Se você não entendeu, eu explico: clique aqui, ó!

Tem gente que vive. Tem gente que apenas cumpre profecias. (Nietzsche estaria com um super orgulho de mim.)

Com esse pensamento filosófico do dia, subscrevo.

vendredi 18 janvier 2013

Pas possible

A Cassy fica ouvindo músicas no repeat. Aí, eu lembro que elas existem e elas grudam na ~vitrola~ aqui de casa também. Não que eu esteja reclamando...


...you went away but now you're back

De resto, visto que não tenho tido tempo nem pra ouvir música, só sobra ficar ouvindo a rádio "Guitars & PBRs" do songza (que eu tenho confiança de que foi feita sob medida para mim) enquanto lavo louça...

samedi 12 janvier 2013

Pas toujours

Ontem à noite, recebo um a mensagem de texto de uma amiga, querendo marcar um brunch. Sempre topamos brunches aqui por essas bandas, mas franceses têm uma dificuldade peculiar para entender brunch, entāo sempre desconfio. O escolhido da vez era o Régine Café, o novo queridinho dos brunchers de Montreal. Decidi ir em parte pelo social, em parte pela comida, visto que eles tinham uma poutine de café da manhā no cardápio.

Como éramos sete adultos e um carrinho de bebê (e o lugar estava hypado em toda a internet), esperamos uma boa hora antes de nos sentarem. O serviço meio que foi um desastre (meu chocolate quente chegou depois do prato principal, tudo um pouco confuso), mas o rango foi bom, apesar de nāo particularmente barato.

Tudo estava indo até bem. Só que.

Só que na saída do restaurante, o Ben resolveu me informar de que iríamos também à IKEA, porque ele queria comprar um móvel. IKEA no final de semana é tipo a definição do inferno.

Meu conhecimento da IKEA, até esse fatídico momento, era de segunda mão, via séries de TV, catálogos da loja, que eu recebo em casa, os móveis usados que eu comprei para mobiliar meu apartamento em NY (comprar móveis da IKEA de segunda ou terceira mão é o fim do mundo, eu sei; isso dá uma idéia do nível de pobreza da época), e alguns móveis do meu apartamento aqui de MTL, todos comprados pelo Ben, sem a minha participação. O mais próximo que eu cheguei de uma real experiência da IKEA foi um passeio à Etna, em SP, em que eu quase morri de crise respiratória ao atravessar a seção de tapetes.

Dessa vez, não havia de ser muito diferente. Demoramos um tempão para conseguirmos uma vaga no estacionamento, abarrotado. Andamos uns 12 quilômetros do carro até a entrada da loja, e mais uns 23 quilômetros dentro da loja, que, além de entupida de gente (e, claro, de filhotes de gente!) estava em reforma. O horror! O horror!

O lado positivo é que o Ben sabia bem o que queria, e o passeio todo durou apenas (!) uma hora, com direito à gordinha aqui sair de lá com um pacotinho de gravlax. Porque, né.

Mas, olha, IKEA novamente, só sob efeito de sedativos. Poutine no café da manhã, por outro lado, ainda estamos trabalhando...

vendredi 11 janvier 2013

Pas de sens

Esse post é solenemente dedicado a todos os tios-pavê do mundo.

Plena quinta-feira à noite. Noite invernal montrealesa agradável, ou seja: temperatura pouco abaixo de zero. AmigoSemTwitter e eu indo à McGill (sim, porque doutorando não tem nada a melhor a fazer numa noite congelante de quinta-feira). Esquina da Saint Laurent com a Ontario, conversa sobre picolé de limão enquanto esperávamos o sinal abrir para atravessarmos. Um outro moço parado a nossa frente, também esperando para atravessar.

Fito o sujeito, e sussurro para o AmigoSemTwitter: "cara de brasileiro".

Picolé de limão vai, picolé de limão vem, o sujeito vira e estende a mão para o AmigoSemTwitter:

Sujeito: "E aê, tudo bem?"
AmigoSemTwitter: "Er, oi...?"
Sujeito: "Tudo bem, cara?"
AmigoSemTwitter: "Tudo; e você?"
Eu: (que demônios está acontecendo? será que o cara é conhecido do AmigoSemTwitter?)
Sujeito: "Voceish são brasileiruish, né. Voceish são do Ciência Sem Fronteiraish também?"
Eu: ("também"? oi? essa conversa está acontecendo só dentro da sua cabeça? quem é você e por que você está falando em minha direção??) "--"
AmigoSemTwitter: "Não, não... Você é?"
Sujeito: "Sou, sim. Cheguei essesh diash. Tem muita gente do Ciência Sem Fronteiraish aqui. Já vi um monte de brasileiruish aqui em Montreal."
...etc.

O que sucedeu foi a conversa mais desconexa e surreal que eu tive (ou que presenciei, visto que estava em um choque de surrealismo muito grande para conseguir falar alguma coisa) em toda a minha estada no Canadá - e olha que eu conheço um monte de acadêmicos que deveriam estar institucionalizados, e tem um monte de usuários de heroína no meu bairro! Tentativa de transcrição:

AmigoSemTwitter: "Ah, legal. Quer dizer que você veio pra cá no Ciência Sem Fronteiras, então... E o que você estuda?"
Sujeito: "Ciência."
Eu: (cejura???)
AmigoSemTwitter: "Mas que tipo de ciência?"
Sujeito: "Medicina."
AmigoSemTwitter: "Então, você vai poder sair do Ciência Sem Fronteiras e ir para o Médicos Sem Fronteiras depois!!"
Eu: (tum-dum-tsss!! sérião??)
Sujeito: "Não, não... hehe"
AmigoSemTwitter: "Qual o seu nome?"
Sujeito: "Rzwmbshai"
Eu: (WUT???)
AmigoSemTwitter: "Ráinre?"
Eu: (como demônios você entendeu isso do nome do cara???)
AmigoSemTwitter: "Prazer. E você vem de onde?"
Eu: (mano, o cara fala "brasileiruish" e "frontêiraish" - sério que você acha necessário perguntar de onde o cara vem????)
Sujeito: "Do Riyu."
eu: (cejura???) ~tentando disfarçar rysos descontrolados~
AmigoSemTwitter: "Ah, mas de qual universidade?"
Sujeito: "Da UFRJ."
AmigoSemTwitter: "Ah, legal."
(silêncio aterrorizante...)
(mais silêncio aterrorizante)
Sujeito: "E voceish, moram aqui faish tempo?"
AmigoSemTwitter: "Cinco anos."
eu: "do-- mmmmrgh" (quer saber? foda-se essa conversa!)
Sujeito: "Ah, nossa. A vida aqui é muito boa, né não? Pôan, fiquei impressionado."
AmigoSemTwitter: "Meh. É, mas não é tão fácil, assim, não."
Sujeito: "Maish caraca, 5 anosh. Já se acoshtumou aqui tal. Agora tu num volta mais, né não? Voceish fazem o que aqui?"
AmigoSemTwitter: "Estudando também."
eu: "mmmrgh"
Sujeito: "Você estuda o quê?"
AmigoSemTwitter: "Filosofia. Nada a ver com essa ciência, aí."
Sujeito: "Pô, legal. Graduação meishmo?"
AmigoSemTwitter: "Não, doutorado..."
Sujeito: "Ó... doutorado! -- Ah, Sainte-Catherine... metrô. Ah, eu vou aqui pro metrô"
AmigoSemTwitter: "Ah. A gente vai subir aqui essa rua."
eu: (a gente vai? por que diabos a gente vai subir essa rua? a gente tem que ir pro outro lad-- ah, já entendi! a gente vai entrar aqui pra se livrar do suj--)
AmigoSemTwitter: "Boa sorte aí com seus estudos."
Sujeito: "Valeu. É, quem sabe a gente se cruza aí pelo campus... Falou!"

apenas que... WUT?

jeudi 3 janvier 2013

Pas de temps, pas d'argent

Como vocês sabem, eu sou doutoranda em filosofia. Como vocês sabem, isso quer dizer que eu faço bico de super-heroína nas horas vagas. Porque eu sou querida e overachiever as pessoas me contratam para fazer todos os tipos de trabalhos impossíveis. Tipo corrigir mais de 200 trabalhos (dissertações) de filosofia (de cinco matérias diferentes, com conteúdos bem diferentes) em 20 dias.

Matematicamente, pode não parecer tão mau. 200 trabalhos em 20 dias significa uma média de 10 trabalhos por dia. Noves fora (ressaca de Natal, ressaca de ano novo, preguiça de dia de tempestade de neve etc.), digamos uns 12 trabalhos por dia. 12 trabalhos por dia! "É pouquinho, Aline!"

Só que.



Só que: faça o seguinte cálculo, caro leitor/cara leitora. Suponhamos que cada trabalho tenha (como hão de ter!), em média, 12 páginas em espaço simples. Doze vezes doze. Decoraram suas potências quadráticas até o 20, como a "tia" mandou na 8a. série? Cento e quarenta e quatro páginas por dia. Agora, imagine que essas páginas são em francês. Imagine que francês é sua terceira língua. Agora, imagine que esses jumentos que se matricularam nos seus cursos escrevem com um nível de competência muito menor que o seu (ainda que o francês seja a prmeira língua deles e sua terceira) e muito menor que o daqueles macacos que há anos estão escravizados em frente a máquinas de escrever tentando recriar a obra de Shakespeare.

Quanto tempo você acha que levaria para ler essas 144 páginas diárias? E quanto tempo levaria para lê-las, decifrar o que está escrito nelas e fazer comentários "inteligentes-porém-nao-insultantes" (como me foi pedido, ipsis litteris, por uma das pessoas que me contratou)? Se o seu palpite foi "mais de 24 horas", parabéns! Você é o mais novo ganhador de um picolé de durião!

Graças a Zeus e às musas, isso acabará em breve. Enquanto isso, não tenho tempo de cozinhar em casa. E o Ben também tem trabalhado feito um burro de carga. Mas como tem a questão da minha persistente penúria (de falta de dinheiro), resta explorar os restaurantes de Chinatown, onde dá pra comer um dolsot bibimbap (popularmente conhecido dentro da minha cabeça como "mexidão") por 8 contos ou uma caralhada de dumplings por 11 contos. Chez Bong e Qing Hua fazendo a alegria dos pós-graduandos pobres beirando a desnutrição!

Vamos ver o que acaba primeiro: essas correções, o ano de 2012 (que, para mim, ainda não acabou), ou minha vida.

Mantê-los-ei informados.

mardi 1 janvier 2013

Pas encore

Eu não faço promessas que não posso cumprir. É por isso que, bem cedo, desisti de seguir carreira política. Mesmo motivo pelo qual eu não acredito em resoluções de ano novo.

Estou ressuscitando o blog (e vou recuperar o final de 2012 para a alegria de vocês, mas retrospectiva e sorrateiramente, porque eu sou assim mesmo) por motivos de: pulsões, tentar me manter longe do suicídio e alguma coisa que tem a ver com isso aqui.

Se eu comecei 2012 com uma festa de ano novo à la Buñuel, o ano não foi muito diferente do que as primeiras horas de janeiro anunciaram. Esse ano, a entrada de ano foi mais modesta na bebida (embora tenha me permitido dois excessos), mas o balde foi devidamente chutado com gravlax, magret de pato, cogumelos selvagens, foie gras, cervo, truta defumada e revellos da CRémy, que, desde que a Payard foi orkutizada, é a única doceria no mundo realmente capaz de me levar à falência (financeira e renal, por diabetes). Porque achei melhor começar o ano picking and choosing my battles ao invés de tentar descobrir (não consegui) se pato cisca pra trás. Aves dos infernos. Mas convenhamos que magret de pato não cisca, portanto...

De todo modo, a única coisa que eu quero muito para 2013 - mas que eu sei que não vai acontecer tão cedo - é que 2012 acabe.