dimanche 29 décembre 2013

2013

Retrospectiva das melhores coisas de 2013, em ordem aleatória:

1. Hipopótamo de chocolate;
2. Projeto de tese aprovado;
3. Portugal;
4. Bate-e-volta pro Vermont;
5. Começar o ano com magret de pato, cogumelos selvagens, gravlax, cervo, foie gras...;
6. Show do My Bloody Valentine;
7. Poutine week;
8. Nuit Blanche;
9. Almoçar e tomar um negroni em Florença;
10. Ramadã em Istambul;
11. Brunches no APDC;
12. IMAX;
13. Medo eterno do Bob, de Twin Peaks.


vendredi 6 décembre 2013

Syllogomanie

Tem aquele programa "Acumuladores", que as pessoas têm algum prazer mórbido em ver. A acumulação, esse distúrbio, que leva as pessoas a acumularem coisas a ponto de não conseguirem viver "normalmente", faz parte (até segunda ordem) do espectro do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). No mesmo espectro, estão versões graves de distúrbios de ansiedade.

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Ontem, alguém compartilhou isso aqui no Facebook: um desses memes da web. Dessas coisas que seriam engraçadas não fossem trágicas. O problema é exatamente esse: é trágico. E, portanto, não é engraçado.

As pessoas se dizem ansiosas a torto e a direito. As pessoas se dizem deprimidas a torto e a direito. As pessoas dizem coisas. As pessoas não sabem o que dizem.

É difícil explicar a natureza de um real distúrbio de ansiedade para que ele não seja mal-compreendido como uma mera idiossincrasia. Isso quer dizer só que meu organismo fica no modo "stress" o tempo todo? Significa que eu durmo mal? Que eu tenho insônia? Que eu me preocupo demais? Que eu sou hipocondríaca? Não. Um real distúrbio de ansiedade pode incluir, sim, todas essas coisas, mas é muito, muito maior que isso.

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Uma das explicações dadas à acumulação é que ela é um quadro em que, segundo a Wiki, por exemplo, a aparente importância do itens acumulados excede em muito o valor real deles.

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A ansiedade. Um dia, você acorda e não quer mexer em nada. Não quer tocar em nada à sua volta. Age com tanta cautela que sua cabeça dói, seu corpo dói. Você acha que, se fizer o cenário a seu redor congelar no tempo, as coisas voltarão a ser como eram. Você não quer trocar a roupa de cama, desdobrar o pijama guardado sobre o travesseiro com um laço, guardar as coisas que ficaram em cima da mesa de cabeceira, lavar a louça. Uma tentativa fútil, irracional. Irracional mas inevitável.

É esse mesmo tipo de impulso que faz com que muita gente demore algum tempo a conseguir doar/vender/jogar fora objetos e roupas que pertenceram a alguém que morreu. Tem gente que faz por negação; tem gente que faz por barganha. De todo modo, a motivação tem a ver com a maneira com a qual lidamos com tragédias. A idéia por trás disso é que, se deixarmos as coisas como elas estavam, tudo irá, automaticamente, manter a mesma estabilidade. É algum tipo de barganha com o universo, misturada com uma nostalgia que acalma.

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Acumuladores "podem perder a vontade de jogar fora itens indesejados devido a um sentimento de ligação com esses itens."

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Imagine a casa de uma dessas pessoas que aparece no programa "Acumuladores". O programa pode, para alguns, ter algum valor de entretenimento, mas imaginem, por um segundo, ter de lidar com isso: viver na casa em que essas pessoas vivem, andando por cima de amontoados de objetos, dormindo no espaço que sobrou entre as coisas que lhes dão a última esperança de segurança, de calma.

Agora, imagine que a cabeça de uma pessoa com distúrbio de ansiedade é como a casa de um acumulador. Exceto que não se tem nunca a opção de sair dela. Você tem de lidar com sua vida desviando de obstáculos mentais que você se impôs; você só dorme quando o cansaço vence - e, mesmo assim, com medo de que, ao dormir, alguma coisa se perca, alguma coisa interfira na estrutura das coisas quando você não estiver consciente. Isso não é um traço de personalidade, um estilo de vida, um estado de espírito. Não mais que a acumulação é qualquer uma dessas coisas.

Você vive em uma desordem cognitiva constante, num estado de barganha irracional e perene, sem a menor chance de saída. A cada dia, você adiciona um item, uma preocupação, uma memória ao amontoado. Seu cérebro transborda, assim como a casa dos acumuladores, em um determinado momento, já não comporta aquelas tralhas. Sua memória falha constantemente e você tenta, cada vez com mais força, se ater àquilo que sabe que vai perder num piscar de olhos. Memórias se tornam bens perecíveis preciosíssimos. Acumuladores acumulam mais ainda quando sentem a pressão de que podem perder objetos acumulados. A cabeça de uma pessoa com distúrbio de ansiedade faz o mesmo. Os dois distúrbios podem ser, qualitativamente, bastante diferentes, mas os pontos análogos podem ajudar a "desbanalizar".

A grande diferença entre os dois é que, em geral, as paredes de uma casa não cedem.



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dimanche 1 décembre 2013

Dimanche

Todo mundo torcendo para que novembro acabasse logo. E eu aqui, torcendo para que não acabasse nunca.

De dentro da minha cabeça, o mundo está bem estranho. Desde sexta-feira, me esqueci de olhar a caixa de correio. Hoje, saindo de casa (e tendo de colocar minha cabeça um pouco para fora da cabeça), abri a tampinha. E eis que tinha uma cartinha para mim. Se eu acreditasse em qualquer coisa, diria que era algum tipo de compensação cósmica.





Mas é claro que o universo é tão cheio de truques quanto uma tirinha do Cornellà. Foi só eu virar o cartão e:


Eu que o diga.

samedi 30 novembre 2013

C

Último dia do curso (from hell) de lingüística do francês. ["Eu não quero ir para a escola; eu ODEIO a escola!"]

Aprendi muito mais sobre a vida com Los Campesinos que indo à escola

File under: bowled_over


*posts retroativos a vir.

vendredi 29 novembre 2013

J'ose pas vous dire à quel point vous m'êtes chers

Teve uma dessas vezes que eu fui embora do Brasil estudar. Conheci meus colegas: um tanto de acadêmicos e pessoas com aspirações exóticas. Entre eles, um cara chato. O melhor da turma, mas meio mala, todo metido com seus anos de estudo de latim e outros poliglotismos.

Eu morava num lugar bem legal: o apartamento era bem decorado, embora não fosse no lugar mais legal da cidade à época. O problema, de início, é que eu sempre encontrava o baixinho chato do latim (porque ele morava relativamente perto da minha casa, in the grander scheme of things), e eu tinha de aturar o caminho de ida e/ou de volta com ele.

Depois de um tempo, a companhia dele foi ficando mais agradável. A cada vez que íamos à aula juntos acontecia uma coisa esdrúxula. Do tipo de coisa que, se você contasse para alguém, a pessoa não acreditaria. Mas éramos dois para ver e morrer de rir depois. E aí, foram surgindo as piadas internas. E os comentários inócuos sobre alguns colegas de classe - que depois viraram grandes tirações de sarro entre nós dois (principalmente às custas de um colega grego: uma das pesoas mais sem-noção que já conheci). Logo, estávamos gostando de nos encontrar acidentalmente e começamos a marcar para nos encontrarmos de propósito. Para voltarmos juntos para casa. Para passar num lugar baratinho para comer alguma coisa.

Sempre que marcávamos alguma coisa com o grupo, íamos juntos e servíamos de "buffer" um do outro. Quando a ~baladénha~ estava chata, a gente ia prum canto, sentava e passava a noite toda lá, fora da rodinha, conversando. Todo mundo jurava que tinha alguma coisa entre a gente. Vivíamos grudados. Ninguém entendia. Uma vez, voltando de uma dessas ~baladénhas~, estávamos do outro lado da cidade. Nos destraímos tanto conversando que acabamos voltando a pé para casa. Seis quilômetros. Às quatro da manhã. Aos finais de semana, rodamos a cidade toda. Comemos todos os tipos de comida barata. Quando deu, saímos da cidade. Passamos um dia lindo de verão fora do caos, longe dos turistas etc.

Chegada a época de ele ir embora, o contrato de aluguel que ele tinha acabava antes da data do vôo. Como meu apartamento era espaçoso, ofereci a ele de acampar comigo. No dia da partida, tomamos um café da manhã tranquilo: conversamos, planejamos trocar e-mails. Ajudei ele com as malas no transporte público (malas vs. transporte público: a batalha é sempre dura...) e nos despedimos. Voltei para casa (a volta é sempre longa) sem ter para quem contar minha aventura surreal do caminho de volta.

Corri para o e-mail e escrevi para meu amigo: coisa de gente desesperadamente solitária, mas teria um e-mail de "bom retorno" quando ele chegasse. Não parecia tão ruim. Me pareceu simpático. Algum tempo passou e nada de resposta. Fiquei chateada, mas sabia que era assim que as coisas eram. No dia seguinte, recebi um e-mail dele: ele me pedia desculpas por escrever tão cedo (ainda fazia pouco tempo que ele tinha partido), mas ele dizia estar sentindo falta das nossas conversas, das piadas internas, de jogar bilhar com bêbados aleatórios. Não entendi bem por que ele não mencionou o e-mail que eu tinha mandado e fui ver o e-mail que tinha mandado para ele no dia antes: mea culpa. Tinha enviado para o endereço de e-mail errado. Coração partido por nada. Fiquei mais tranquila. Respondi. Ele re-respondeu. Durante algumas semanas, trocamos pelo menos dois e-mails por dia. Depois, parcimônia: um e-mail a cada dois ou três dias, um e-mail a cada duas semanas, um presente de aniversário e um cartão de Natal, um e-mail por ano. Então, inevitavelmente: silêncio.

Isso aí foi há mais de oito anos. Hoje em dia, só tenho notícias dele pela esposa (ele se casou e teve três filhos), que é minha "amiga" no Facebook.

Acho que tem uma lição para se tirar dessa história, mas a lição que eu aprendi é que, estranhamente, o prato mais típico da comida grega parece se chamar alguma coisa que soa como "hambúrguer".

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Nesse verão que passou, a gripe espanhola veio bater à minha porta em Salamanca. Quando eu cheguei a Bologna, ainda estava na batalha final contra a morte. Lá, dividi um apartamento com outras três pessoas que nunca estavam em casa. Resultado: eu nunca interagia com ninguém em casa. Assim, nunca ficava em casa. Saía quase todas as noites com meus colegas de curso. Fiz uma amiga lituana. Também saiamos bastante, viajamos juntas etc. Também fiquei amiga da minha professora: fizemos algumas coisas juntas.

Mas é verdade que, todos os dias, eu acordava entre 7h30 e 8h30 e, quando eu chegava à aula, às 9h00, eu ainda não tinha falado com ninguém. Porque ainda estava com o resquício da peste, assim que eu começava a emitir as primeiras palavras do dia, me dava um ataque de tosse dos infernos, que durava mais ou menos uma hora, non-stop (sem exagero). Não queria ir ao médico, ter de lidar com antibióticos nem nada. Então, fui à farmácia buscar alguma variante de panacéia. Nada feito.

A tosse do demônio ainda demorou umas duas semanas para ir embora. Para evitar que o ataque de tosse continuasse atrapalhando minha aula (afinal,também tinha outras pessoas lá), adotei a estratégia de começar a falar assim que acordasse: falava um pouco sozinha pela casa (feito louca) e cantava B&S pelas ruas, no caminho para a universidade. Tudo isso para fazer que o ataque de tosse já tivesse passado quando eu chegasse à aula.

Fui estudar latim e virei mestre em falar sozinha. Morando uma casa em que outras três pessoas viviam. História da minha vida.

Acho que tem ma lição a se tirar dessa história, mas a lição que eu aprendi é que, às vezes, a gente realmente precisa de antibióticos.

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Há alguns meses, eu resolvi explorar o cinema québecois. O resultado dessa incrível aventura é que eu vi um monte de filme ruim. O pior deles, Café de Flore, é provavelmente um dos piores filmes que eu vi na vida.

Tenho certeza de que o diretor tinha uma lição a nos ensinar, mas ele fracassou enormemente e eu só retive uma cena, porque eu adoro quando as pessoas gritam na TV. 

Noooon! Nooon!

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No final das contas, as coisas importantes da vida a gente só aprende mesmo com o Joan Cornellà:



file under: ça_changera_pas_le_cours_des_rivières_pour_toi

vendredi 8 novembre 2013

Feuilleton

17 de setembro de 2011.

Nesse dia teve um show do Olivia Tremor Control, lá no Il Motore, que foi um show bem legal. Naquela época, eu sequer conhecia o Olivia Tremor Control. E eu não poderia nem passar perto de imaginar o que essa noite iria render.

Tinha combinado com um amigo (colega, stricto sensu) de nos encontrarmos antes, no metrô, para irmos ao local do show juntos. Quando virei a esquina de casa, ele me ligou, dizendo que ele e o amigo, que talvez fosse com a gente, ainda iam demorar a estar prontos, e que pretendiam ir para lá mais tarde. Perguntei, então, se eu deveria voltar pra casa e dar um tempo ou se deveria ir emcontrá-los na casa do amigo (onde eles estavam). Decidimos pela segunda opção. Eu nem tinha onde anotar o endereço, e tive de confiar na minha memória. Não sei bem como, mas até que deu certo.

Tomei a linha laranja e fui uma estação a mais ao norte de onde tínhamos originalmente combinado. Mais uma caminhada de uns 10 minutinhos ("que bairro curioso!", "que predinhos feios!") e, com alguma dificuldade, achei a casa.

Toquei a campainha, subi, entrei. Fui apresentada ao amigo. "Vocês já se conhecem, não? Estão fazendo um curso juntos..."

Estamos?

Sou péssima fisionomista. Me apresentei (!.... er...) e tive de lidar com aquela conversa de elevador. Detesto. Mas essa estranheza só durou uns 2 minutos.

Foi a interação menos estranha que eu tive com um desconhecido e com um "meramente conhecido". Foi legal. Me senti menos socialmente inepta. Ficamos lá um tempo, conversando e bebendo. Depois, fomos andando até o local do show, conversando já num tom de amigos de longa data.

O show foi bom. Foi muito bom. E estava meio vazio. Foi tranquilo. Foi o primeiro show a que eu fui em Montreal. Me deixou esperançosa para futuros eventos na cidade (principalmente porque, àquelas alturas, eu já tinha comprado meu ingresso para ir ver Portishead). De lá, voltamos para a casa do amigo-do-amigo, para beber mais e continuar a conversa. E assim a coisa foi. De 20h30 até umas 3h20, que foi a hora em que eu percebi que, se não fosse embora imediatamente, não iria nunca mais: seria sugada para um buraco negro de embriaguez e conforto.

O resumo do que aconteceu àquela noite foi proferido pelo amigo-do-amigo, quando ainda era passado pouco da meia-noite: "por que nós três não podemos simplesmente morar juntos? seria perfeito." Não fazia nem quatro horas que tínhamos começado a interagir a três. Mas os três concordaram. E é claro que essa ~idéia brilhante~ bêbada nunca foi realizada. Para o bem de todos.

Fato é que, depois disso, começou nossa lua-de-mel a três. Nos encontrávamos sempre, fazíamos trilhões de coisas juntos, trocávamos centenas de e-mails por dia, a ponto de ninguém mais conseguir fazer outra coisa além de passar o dia respondendo a e-mails. Nos tornamos pouco funcionais para o resto do mundo, sugados pelo buraco negro da empolgação, ao melhor estilo de paixonite adolescente.

E assim foi por algum tempo. Algo entre 2 e 4 meses, mas que me dão a sensação de um ou dois anos, considerando o fator intensidade.

E aí, como havia de ser, o mundo parou de girar ao nosso redor. O foco da lente abriu, abriu e, dali a virar novela, foi um pulo. Mas novela mexicana, mesmo. Daqueles dramalhões, em que tem tantas obviedades, tantos clichês e tantos plot twists que você acha impossível aquilo ser a vida real. Só que é. E é a sua vida real. A novela é longa, e os detalhes são, como sempre, outra história, para outra ocasião, mas uma maneira correta de resumir, seria: tudo o que poderia acontecer aconteceu. Exceto, talvez, uma ou duas coisas. (Pensem em Fellini meets Bertolucci meets Mike Nichols meets Aguinaldo Silva meets Glória Perez.)

A lua-de-mel, da mesma maneira que começou (do nada), acabou, no meio ou no fim do printemps érable -- é difícil saber ao certo. Também é difícil saber ao certo quando terminou o printemps érable, se é que terminou...


7 de novembro de 2013.

Show do My Bloody Valentine. Um dos shows que eu mais queria ver na vida. E o amigo também. E lá fomos.

Bilheteria, chapelaria e... e eis que encontramos com o amigo-do-amigo. É claro que ele estaria naquele show. E também estava claro, para ele, que nós estaríamos lá. Contudo, ninguém tentou entrar em contato, combinar alguma coisa. Nos encontramos por acaso, como se aquilo fosse um posfácio óbvio e impertinente de alguma coisa maior.

Assistimos ao show juntos, aproveitando o intervalo entre a banda de abertura e o MBV para conversarmos sobre amenidades. Desconforto generalizado durante o show. Para ir embora, idem.

Por conta dos rumos novelísticos que as coisas tomaram, acho que nós três sabíamos de uma coisa: aquela foi, muito provavelmente, a última vez que nós três nos encontraríamos (os três juntos, ao mesmo tempo, quero dizer). Estranho que, depois de uma interação tão à la love at first sight dois anos antes, esse encontro gerasse um mal-estar tão grande. Era quase o oposto daquela sensação de buraco negro de conforto.

Um primeiro encontro num show. Um possível último encontro num show. Talvez algum ciclo de alguma coisa tenha se completado aí, mas, se fosse o capítulo final de uma novela, teria sido um grande fracasso. Exceto pela trilha sonora.

lundi 14 octobre 2013

Obsédant


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- Yeah. I know... Life is all sorts of awkward.
- That's what makes it a bit enjoyable at times.

Filed under: very_important_life_lessons

samedi 12 octobre 2013

J'irai peut-être au Paradis

Não há nada no mundo como os outonos da costa leste da América do Norte.




Transforma até casamentos em ocasiões agradáveis.

mercredi 9 octobre 2013

Orange rouge

Eu não reclamo nem um pouco de morar perto da Chinatown.


Reclamo menos ainda de o Aaron Langille ter resolvido abrir seu novo restaurante (depois de ele ter saído do Café Sardine) bem ali.


mardi 8 octobre 2013

Rouge soleil

Enquanto isso, em alguma cozinha (dica: a minha) do bairro gay de Montreal num dia ensolarado de outono...


... a criançada se diverte vivendo à altura de estereótipos.

lundi 7 octobre 2013

La lumière jaillira

Uma manhã nublada. Uma tarde fria e chuvosa. Por volta das 18h., o mundo vem dar bom dia. A cidade não entendeu nada. Tudo parou. As pessoas tomaram as ruas. O Facebook se encheu de fotos de arcos-íris (?). O caos se instaurou. Como se começasse a nevar no Rio de Janeiro. Ficção borgeana. Montreal só entende sol e cores entre maio e agosto.



samedi 5 octobre 2013

La metamorphose

"Vai dar bicho."

Coisas que a gente aprende quando vive em um país tropical abençoado por deus e bonito por natureza: como evitar verminoses (mesmo as mais esdrúxulas) e que não pode deixar nenhum pacote de comida porque vai dar bicho.

"Vai dar barata."

Aqueles dias de verão em que você sabe que, se deixar aquele pedaço de pudim em cima da bancada da cozinha, vai voltar para ter de disputá-lo com um punhado de insetos.

"Vai dar formiga."

Guardar açúcar na geladeira para não dar aquelas formiguinhas irritantes, pragas de apartamento.

Tem até aqueles lugares em que a gente tem de cuidar para não ter de disputar frutas com morcegos, tal.

Mas nos lugares em que o verão dura 2 meses, as pessoas não cultivam esse hábitos que, para nós, são segunda natureza e borderline higiene básica.

Depois que as hóspedes do Ben se foram (depois de uma estada de 4 meses; ufa!), voltei a tomar posse da minha casa. Primeiro passo: re-rechear a cozinha para poder voltar a cozinhar tranquilamente em casa. Abro o armário maior, onde guardamos as comidas e: MARIPOSAS (também conhecidas como "traças from hell"). Por quê? De onde vieram essas porras de bichos nojentos? Vieram de pacotes guardados abertos no armários, de pessoas que nuca foram ameaçadas com um "vai dar barata", "vai dar formiga", "vai dar bicho".

Vejam: Eu mato barata. Com Baygon ou a pisão. Já fui chamada a matar um rato com uma vassoura. Já coloquei ratoeiras (daquelas roots mesmo) nas casas das pessoas e voltei depois pra verificar se tinha rato esmagado. Não tenho tanta frescura assim, em geral. Mas traça é foda. Traça é onde a gente demarca o limite da sanidade (tenho um trauma de infância com traças, me deixem!).

Tinha casulos dessas porras de traças-mariposas por toda a parte. Tinha uma saco de lentilhas que se mexia inteiro por dentro! O dia que eu tirei para limpar o armário parecia um filme de terror em que eu fiquei presa em loop eterno. Limpei tudo, joguei montes de comida (que, a essas alturas, já tinha virado só ração de mariposa) no lixo.

No dia seguinte, abri o armário (já meio-vazio) e: MARIPOSAS.

Aspirador de pó, vinagre branco, folhas de louro e QUILOS de comida no lixo. Arroz, milho, castanhas, grãos, mix de bolo mix de panqueca, biscoito, marshmellow, macarrão, açúcar... Meus armários estão vazios. Só salvei (porque meu coração nãoconseguiria lidar com a perda) o mix para pão de queijo e os pacotes de mix de aligot. Ah, sobraram também as latas (que foram todas lavadas, para evitar que sobrassem ovinhos nelas) de feijão, palmito, pasta de tomate e (paulistanos, me invejem!) foie gras.

Esse processo de tirar comida do armário, jogar no lixo, limpar etc. foi repetido, até agora, umas 3 ou 4 vezes. Se já consegui me livrar de todas as traças-mariposas, ainda não sei (meu palpite é: não).

O problema maior é conseguir convencer o Ben a, a partir de agora, nunca mais deixar chocolate, pacote de biscoito, aveia etc. abertos no armário. A ver.

Se eu conseguir essa proeza, depois tento explicar a ele como evitar o botulismo não deixando na geladeira por semanas alimentos na latas em que vieram. Depois disso vem a conversa sobre a esquistossomose, tênia etc. Mas uma coisa de cada vez.

Por enquanto, é internalizar, em um cérebro que já passou dos 30, a clássica ameaça que representa a tal "ordem" que acompanha o progresso estampados na bandeira do Brasil, e que qualquer criança de 3 anos conhece de cor e salteado: "vai dar bicho".

dimanche 29 septembre 2013

Popote

É verdade que teve Pop Montréal e tal. E também é verdade que eu estou velha e já não conheço as bandas que vêm tocar (sdds 2011 Stephen Malkmus & the Jicks, Peter Peter, Girls etc.).

Com muita preguiça e um pouco de pesquisa, consegui fazer uma lista de umas 4 coisas que eu queria ver. Mas só consegui ter ânimo para ver 2: Wannabe - Spice Girls Tribute (não me julguem) e Michael Rault.

Ficam para uma próxima Miou: CTZNSHP e Buddy McNeil & the Magic Mirrors.

Não tenho mais pique pra isso...


Contar pra vocês que, no show da banda cover das Spice Girls, até me senti bem de início: vi que tinha um pessoal da minha idade. Pensei: um pessoal da minha idade, com senso de humor para ir a esse shows, e algumas pessoas esteticamente agradáveis. Comecei a vislumbrar um futuro onde eu não precisaria ser a velha dos gatos. Na saída do show, vou descendo as escadas logo atrás de umas meninas bem novinhas, que não deviam sequer ter nascido na época em que as Spice Girls começaram a fazer sucesso. Desisti de emendar o segundo show da noite e fui pro Nouveau Palais comer um hambúrguer com fritas antes de voltar para casa.

No dia seguinte, saí para ir ao show do Michael Rault, que era das 10h30 às 11h20, mais ou menos. Saí de lá e fui descansar um pouco antes de ir para o segundo show planejado da noite, que começava à 1h30 da manhã. Obviamente, como sou velha, não tive energias (nem à base de RedBull) para sair para o segundo show. Aí fiquei pensando naquelas pessoinhas jovens, aproveitando a vida na baladénha etc. É: elas têm pique, elas agüentam beber um monte e ficar acordadas, ficam de salto alto até o final do show, etc. Mas será, mesmo, que elas estão fazendo sexo e essas coisas que contam?

Fui dormir sabendo que, apesar de não fazer mais parte do sub23, eu ainda estou alguns pontos à frente nesse campeonato.

dimanche 22 septembre 2013

Réserve

Do H2L pro H4C: brioche com pasta de avelã (aka "nutella") caseira, para compensar o brunch do Réservoir, que já não é. Mas Dany Bolduc continua caro demais para minha carteira.


samedi 21 septembre 2013

vendredi 20 septembre 2013

Charbon

Na sacada de casa, eu tenho uma churrasqueira. Ela é a coisa mais próxima que existe por aqui, perto do Círculo Ártico, de uma churrasqueira brasileira. Apesar de ela funcionar com um botijão de gás, ela tem umas "pedras" (tipo umas pedras pomes - algum geólogo que me corrija), que são uma versão de carvão e cumprem essa mesma função: dão aquele gostinho de churrasco às coisas.

E eis que, dia desses, o Ben veio me dizer que vai jogar as tais pedras fora, porque elas já estão velhas e apresentariam algum risco à saúde por conta disso. O problema é que essas "pedras de carvão" não são mais vendidas por aqui. Então, quando as jogarmos fora, não teremos mais carvão. Ponto. E, portanto, não teremos mais churrasqueira, nesse sentido brasileiro do termo. Sem o carvão, minha churrasqueira a gás é apenas uma versão antiprática e espaçosa de um fogão a gás normal.

Vejam: eu sequer sabia fazer churrasco antes de vir para Montreal. Na verdade, eu sequer gostava de churrasco. Por não gostar muito de carne, eu sempre fui bastante conservadora com minhas proteínas animais. Filé mignon bem passado e nada mais.

E aí, no meio de 2011, quando me mudei para esse apartamento, tinha essa tal churrasqueira. E as pessoas aqui gostam disso - dessa coisa de fazer churrasco. E eu aprendi a gostar.

Logo depois de me mudar para o apartamento, fiz um churrasco com uns amigos (conhecidos?) e uns semi-conhecidos -- primeiro churrasco combinado e (meio que) coordenado por mim. O impulso de convidar esses amigos e semi-conhecidos para vir à minha casa não teria acontecido se eu não tivesse uma churrasqueira em um belo final de semana de outono. Meu carvão fazia amigos.

Desde então, várias aventuras começaram na churrasqueira. E elas não se limitaram à carne de vaca (tum-dum-tss). Teve peixe, teve legume, teve lingüiça. Lembro que até teve essa época em que se cogitou que minha churrasqueira fosse usada como defumador. O carvão me dava mais vontade de (pelo menos especular essas) aventuras.

No inverno que se seguiu àquele outono, a churrasqueira ainda foi usada (foi um inverno curto e gentil) algumas vezes. Era aquela alegria de poder abrir a porta em um dia de frio com sol e ter a sensação de que o mundo aqui na tundra não era sempre cinza e horrível. Tinha aventuras com hambúrgueres, kaftas, pimentas, folhas de banana, envelopes de papel manteiga. O carvão deixava tudo mais quentinho.

Ao final daquele inverno, comemorei o último ano dos meus 20 com uma das melhores festas que já tive. Preparei tudo quase exatamente como queria. Pessoas queridas vieram. Foi a primeira vez, aqui em Montreal, que eu estive convencida de que eu tinha uma vida de verdade aqui: enquanto as pessoas sem calças comiam hambúrgueres e kaftas assados em minha churrasqueira em um fim de tarde de calor do início de junho. O carvão ajudava a criar essa aura de pertencimento.

O botijão de gás que dá vida à churrasqueira já foi trocado algumas vezes (e com um esforço considerável), mas, esse tempo todo, o carvão permaneceu o mesmo.

É verdade que nem tudo o que foi feito na churrasqueira deu certo. Umas carnes assaram demais; outras, de menos. Uns peixes ficaram bons para ir para o lixo. Também teve aquelas vezes em que as pessoas, sem saber muito bem como acender a churrasqueira, quase se queimaram -- ou quase morreram carbonizadas, em casos mais extremos. Teve dessas coisas de que a gente acaba rindo, em retrospecto. O carvão guardou todos esses erros e acertos e risadas.

Na verdade, porque sou estabanada e um desastre com carnes, raramente era eu a encarregada de operar a churrasqueira. Eu tinha medo de mexer nela e me queimar, ou -- pior ainda -- quebrar a coisa, então, delegava. Delegava e dava palpite, porque é isso que eu faço. O carvão não aceita palpite.

E aí, eu saio de férias e perco o verão de Montreal, o pouco tempo do ano em que realmente se pode relaxar ao ar livre, o tempo de churrasco. Quando eu volto, ainda teimo em fazer o verão durar: recuso a guardar minhas sandálias e espadrilles. Continuo saindo de mangas curtas, mesmo passando frio. Uso sapatos brancos depois do Dia do Trabalho. Mas aí chega aquele dia inevitável em que o primeiro vento do ártico bate, em que todas as maçãs do vizinho de frente vão parar no chão, em que eu tenho de fazer a rotação no meu armário, colocando as sandálias e vestidos no fundo, trazendo suéteres para a frente e indo para a aula, pela primeira vez no mês de setembro, usando botas.

E aí, o Ben chega e diz que vai jogar o carvão fora. E eu me dou conta de que, de fato, não ia ter a churrasqueira, o carvão, para sempre. Que um dia eu iria, inevitavelmente, me mudar daqui, ou que a churrasqueira iria parar de funcionar e teria de ser substituída por uma nova (dos modelos novos, sem carvão), ou alguma variação disso. Mas não foi isso o que aconteceu. O que aconteceu é que eu fui informada, de repente, que não teríamos mais carvão. Simples assim.

Assim, cada dia em que acordo, vou até a sacada e vejo que o Ben esqueceu do que tinha me dito e o carvão ainda está lá, é um dia de brinde que eu ganho. Um dia que eu uso para eu mesma, pela primeira vez, acender a churrasqueira. Um dia a mais que eu barganho com o outono que já chegou junto com as decoraçãoes de Halloween das lojas do bairro. Um dia a mais de aventuras.

E voltamos, assim, aos dias corriqueiros do meu bairro. Dos dias que eu passo resistindo à chegada do outono, porque essa é a melhor maneira de resistir à chegada do inverno. E, enquanto isso, de verdade mesmo, nada acontece. Apenas que não haverá carvão.

Eu poderia escrever sobre minha vida. Mas eu escolhi escrever sobre o carvão.

jeudi 19 septembre 2013

Au milieu

No meu bairro (na verdade, praticamente na esquina da minha casa) tem um coletivo, uma cooperativa, enfim, uma dessas coisas meio ~hippey~ meio ~hispter~ que estão na moda agora. E eles, vez ou outra, tem uns eventos interessantes lá. Esses dias, fui convidada para ir lá participar de um escambo de roupas e acessórios.

Como tinha esses dois pares de botas encostados aqui (e porque queria sair de casa um pouco), me aventurei. Fui lá dar uma volta, socializar com o pessoal alternex do bairro e fazer meus escambos.

A bem da verdade, não estava procurando nada, nem fazia questão de sair de lá com nada. Fui mais para ver a ~vibe~ do lugar. Me pareceu interessante. Bem misto, com anglófonas e francófonas - mas quase só mulheres. Mas isso, talvez, porque o tema do dia era essa coisa de troca de roupas. Talvez nos outros dias seja mais misto. Talvez eu volte.


Mas certamente não para os workshops de tricô ou compostagem.

mardi 17 septembre 2013

Jean Boeuf


Você consegue, com mais de um mês e meio de antecedência, uma reserva para um restaurante que está no Top 3 da cidade (você já sabe que, dos outros 2, um é excelente, e o outro, um fracasso). Você vai.

Você chega lá, e vê que o lugar é cafona. É escuro, é barulhento, é mal decorado, frequentado por pessoas zoadas. O cardápio parece bom, até.

Você pede as entradas: muto boas, apesar de demonstrarem alguma falta de capricho.

Você pede o prato principal, que é descrito como um corte suculento de cervo acompanhado de uma espécie de risoto gratinado. O que chega à mesa é um naco seco de um bicho que poderia ser um cervo, mas bem poderia ser um boi, acompanhado de um mac 'n' cheese bem marromêno.

O problema maior é que até o prato vazio dói aos olhos. E de um mau gosto fenomenal (pense um Duralex genérico com motivos de frutas) e a faquinha de serra tinha cabo de plástico. Iso, deixe-me lembrá-los, a uma conta que sai,no mínimo, 70 Stephen Harpers por cabeça.

A refeição já está toda cagada, você sabe que não vai querer sobremesa. Só quer que eles te tirem aquilo que sobrou da comida da sua frente para você pagar e ir embora. Mas, como o lugar fica meio longe da sua casa, você vai ao banheiro, fazer aquele xixi básico antes de tomar rumo na vida.

Abre a porta do banheiro do restaurante e... DÁ DE CARA COM UMA PORRA DE UM TOURO BÚFALO (whatev).

Sim. UM BÚFALO. Ao lado da porra do vaso sanitário. JURO.



Desnecessário dizer que tentei ir fazer xixi bem tranks para não dar vontade no caminho pra casa e quase me mijei toda quando dei de cara com essa porra. Francamente...

Apaputaquopariu. Ainda sou muito mais o Au Pied de Cochon, onde no banheiro só tem TV e, nos dias de jogo dos Habs, ainda tem (no banheiro mesmo) cerveja grátis. Ah, sim: e a comida é boa. Tem mais essa.

Joe Beef, vocês estão fazendo isso errado. MUITO errado.

jeudi 12 septembre 2013

Charte

As coisas a que a gente é obrigada...

Da nação onde eles mergulham racismo e preconceito social no mel e nos enfiam goela abaixo.


lundi 9 septembre 2013

Cauchemar en rouge

Foi assim:

Eu acordei e passei uma boa meia hora no telefone com o Banco do Brasil. Depois de a atendente ver o tamanho da merda que estava meu cadastro, o comentário que ela fez, em um sotaque carioca daqueles bem de pornochanchada foi "Noooossa, moça! Mas que loucura isso, hein!". Surreal.

Aí eu saí correndo, fui tomar um banho e saí correndo novamente para ir a uma aula na Concordia. Era a primeira aula do trimestre (aula que eu ia fazer como ouvinte) e eu estava atrasada. Vou andando bem rápido para o metrô, tropeço, vôo por uns cinco metros e caio, DE CARA NO CHÃO. Foi tão feio que eu consegui até ouvir o barulho da queda.

Um mocinho veio verificar se eu não estava morta. Quando eu respondi, ele só perguntou se eu estava com pressa (WTF) e, quando eu respondi que sim, ele me disse para eu tomar cuidado e foi embora. Com algum esforço (e muita dor), levantei e vi que eu tinha rasgado completamente o joelho direito da minha calça nova (era a segunda vez que eu a vestia). Desse joelho, esguichava sangue. Sim, esguichava. A sorte (?) é que o sangue ficou estancado pelos fiapos da calça, que se misturaram com a ferida, o sangue etc. Acho que já deu pra ter a imagem. Enquanto isso, o joelho esquerdo da calça ficou todo esfolado (assim como meu joelho por baixo da calça). Minhas mãos (que tentaram deter a queda) também ficaram esfoladas. Meu pescoço também ficou todo fodido por conta das coisas que eu estava carregando na mochila (ah, é: não tinha dito que estava com meu COMPUTADOR na mochila que vôou por cima das minhas costas e ficou presa só pelo meu pescoço!).

Fui andando naquele passo de ponto-e-vírgula pelos 50 metros que faltavam para eu chegar ao metrô. Quando vou entrar na estação, a polícia me barra. "O metrô está fechado entre aqui e a estação final a leste. Você vai em que direção?" "Oeste." "Ah, então, você pode andar mais uns 800m. até a próxima estação e pegar o metrô em direção oeste lá."

Lembram quando eu disse que estava atrasada? A essas alturas, atrasada já era pouco. Tinha mais 800m. a andar, três lances de escadas a descer... Mancando. Com sangue escorrendo do joelho.

Ponto-e-vírgula, ponto-e-vírgula, ponto-e-vírgula...

Chego à próxima estação (Berri-UQAM) e lá dentro está o caos. Não tem metrôs partindo na direção leste e a polícia está contendo os passageiros. Na direção oeste, para onde eu ia, não vinha metrô, mas a gente podia, ao menos, esperar na plataforma.



O metrô demorou uns bons 7 ou 8 minutos a chegar (lembram que eu estava atrasada?). Pelo menos, já que ele veio vazio, tinha um lugar para eu sentar. Ufa!

Na próxima estação, o metrô vai enchendo. E eu lá, sentada, tranquila, escolhendo uma música no meu telefone e me preocupando com o atraso. Ao meu lado, em pé, um mendigo que não para de sacudir o braço. Dá um tempo aê, colega.

E sacode e braço. E sacode. Aí, vejo voar um tufo de cabelos em direção ao chão. Acompanho a trajetória do tufo e, da minha visão periférica de míope-astigmata, vejo alguma coisa estranha no chão do metrô. umas coisas brancas. Meus olhos demoraram um pouco a focar, mas, finalmente, viram: LARVAS. Não, calma, né, Aline. Não pode ser. É a miopia te enganando. Não. Mas o chão do metrô (que normalmente é preto) está meio bege - e SE MEXENDO. Larvas. VERMES. Em quantidade absurda, tomando todo o chão do vagão de metrô onde eu estou.

E o mendigo ao meu lado, chacolhando o braço (era um tênis na mão dele?) e fazendo voar mais larvas para o chão. Bem ao MEU LADO. E aqueles bichos rastejando por todo o vagão. As pessoas todas olhando, sem saber o que fazer, paralisadas com horror. Demorei uns bons 2 minutos para sair do meu estado catatônico e ir sentar do outro lado do vagão, aonde os vermes ainda não tinham chegado. As pessoas continuavam aterrorizadas. Minha vontade era vomitar.

Cheguei à aula com uns bons 15 minutos de atraso, mas o atraso certamente não tinha sido a pior parte do meu dia.

Eu fiquei esperando, desesperadamente, a hora em que me daria vontade de fazer xixi e eu acordaria. A hora em que o despertador tocaria. Ou que algum barulho da rua iria acabar me despertando e me tirando desse pesadelo terrível. Mas não. Porque nem meus piores pesadelos são tão ruins quanto alguns dos meus momentos de vigília. Sim, isso tudo aconteceu de verdade. E ainda fiquei com medo de ir dormir depois e ter terrores noturnos com as imagens desse dia dos infernos. Porque, para mim, a vida se repete como pesadelo.

samedi 7 septembre 2013

Tête de fromage

Pleno 7 de setembro, pessoal no ~Braza~ reclamando que o feriado caiu num sábado e eu aqui, planejando altas aventuras. Carro alugado, 2 horas e meia na estrada (com direito àquela passada tensa através da fronteira estadunidense) para ir passar o dia no Vermont.

O Vermont é um desses estados mágicos dos Estados Unidos, porque tem montes de semelhanças com o Québec (a notória exceção sendo os motoristas mal-educados): tem uns rangos super bons e gordinhos de um jeito saudável, tem umas paisagens bonitas e outono etc.

Daí que rolou um turismo gordinho por lá. O objetivo era fazer uma parte desse cheese trail e provar o máximo de coisas (queijos, manteigas, leites, cremes, iogurtes etc.), principalmente os queijos locais premiados. O caminho de ouro dos queijos.

O que teve, então:

Farmer's market de Burlington, onde abasteci minha sacola de compras com queijos e kefir locais.

Almoço delicioso (incluindo o melhor hambúrguer da vida) no Prohibition Pig, em Waterbury.





Visita à fábrica da melhor cerveja artesanal do mundo (Heady Topper), The Alchemist, em Waterbury.








Visita a uma fazenda onde eles criam cabras e fazem excelentes queijos de cabra, Sage Farm, em Stowe, onde eu comprei mais queijo.




Visita à "loja de fábrica" da Cabot Creamery, em Waterbury, onde eu comprei mais queijo e manteiga.



Parada na Cork, em Waterbury, para descolar um 4-pack da Heady Topper, que estava esgotada na fábrica. Eles, em teoria, não tinham o 4-pack para vender, mas acho que a dona ficou com pena das carinhas de triste que viu ao lado do carro com a placa de outro país e nos cedeu um 4-pack com um precinho camarada que deveria estar regulando com o preço do ouro.




Laticínios devidamente estocados e... bora atravessar a fronteira de volta para a tundra (com queijos escondidos em todos os compartimentos semi-secretos do Mazda 5 que aluguei). Na dúvida sobre a permissão alfandegária escondi tudo.

Cruzando a fronteira canadense, um agente gentil perguntou se eu tinha comprado alguma coisa. "Um pôster e um 4-pack de cerveja."

"Olha... só se pode trazer álcool para dentro do país se você passar mais de 48 horas fora. E você só foi passar o dia."

:(

"Mas, tudo bem, desa vez eu vou deixar vocês passarem. Mas, da próxima lembrem: 48 horas."

~dancinha da vitória~

Não tem como não amar a gentileza canadense.

samedi 31 août 2013

Cochonaille

Vaga de última hora para ir comer na Cabane do Au Pied de Cochon. Quem recusa?

Carro alugado de véspera (na casa do cacete, lá no metrô Honoré-Beaugrand) pra percorrer os 50Km (chute da distância, não tenho a menor idéia da distância real) para ir até lá.  Reservei um carro pequeno. Chegando à locadora, me deram um sub-caminhão. Ia ser bom para pegar a estrada de terra no sábado. Mas e para estacionar na cidade, #comofas?



Já que tem carro, pode ter comida indiana dos suburbs de Montréal (a única comida indiana aceitável por aqui). A aventura gorda (de véspera) da vez foi no Bombay Choupati. Melhor até que o Chef Akbar, que mora no meu coração.

Mas, sim: sábado no "brunch" teve Au Pied de Cochon em versão no meio do mato. O que teve foi o de sempre: montes de porco, creme, foie gras etc.















A vantagem de não ir a esses lugares em um grupo de 5 pessoas esfomeadas (como das 2 vezes anteriores) é poder controlar melhor a quantidade de comida ingerida, para não sair de lá a ponto de vomitar. Dito isso, é verdade que saí de lá bem cheia assim mesmo. E com comida de sobra para me alimentar por mais uns 2 dias.