vendredi 30 mars 2012

On tient l'coup

Dia desses umas amigas da RoommateFromFrance passaram aqui em casa para encontrar com ela antes de elas saírem para alguma baladénha. A AmigaImaginária e uma outra. Estava no meu quarto cuidando da vida, mas não dava muito pra evitar escutar a conversa delas, na sala. Conversa de menina, essas coisas aí.

A AmigaImaginária, entretanto, apesar de até bem simpática, tem um sotaque horroroso. Eu sou meio accent whore então reparo bastante nessas coisas, mesmo sem querer. Não sabia de onde era o sotaque da menina, mas fiquei bem intrigada. Depois de um tempo, escutei ela falando da Alsácia.

Pronto! Estava explicado por que as sílabas que ela cuspia me faziam doer a cabeça.

Vejam: não é preconceito; é questão de gosto. E alguns dos meus gostos são bem idiossincráticos. Gosto de sotaques québecois, uruguaio, brasiliense, nova-iorquino (apesar de tudo...), austríaco, anglo-canadense etc., mas odeio sotaque mineiro, bostoniano, neo-zelandês, suíço etc. O alsaciano entrou pra essa última lista.

Mas nenhum ódio fica impune. Acho que foi o Buda que chamou isso de karma. Ou foi (algum) Brahma. Tem isso? Enfim, algum nêgo lá longe disse que isso aí era ruim e tals. Aparentemente, eu devia ter escutado...

Corta pra hoje.

Eu voltando pra casa tranks, depois de entregar o primeiro rascunho do meu projeto ao meu orientador (aleluia, irmãos!) e também mor-ren-do de vontade de fazer xixi. Chego em casa: porta aberta.

Até aí, normal (não perguntem...).

Vou correndo jogar minhas coisas no quarto pra poder ir ao banheiro e dou de cara com dois caras - dois encanadores - que vieram (finalmente!) consertar meus vazamentos. Desnecessário dizer que eles tinham desmontado metade do banheiro e estavam trabalhando lá.

Aqui, talvez seja útil, para o benefício do meu querido leitor, eu acrescentar que meu apartamento só tem um banheiro. Ou seja, minha dúvida era: faço xixi nas calças ou tiro as calças e faço xixi no chão? (mentira; eu estava de vestido, não de calças)

Obv, também: o processo no banheiro demorou para todo o sempre. Num break entre uma chave de fenda e outra, entrei lá rapidinho e resolvi o problema. Pra esclarecer: não precisei fazer xixi nas calças (nem no vestido), nem no chão.

Depois fiquei lá, conversando com os encanadores e com o proprietário do apartamento, que chegou logo depois. Falei com ele um tempinho e, num determinado momento, ele me interrompe:

- Mas você... Você tem um sotaque diferente. Você não é daqui, não. Deixa eu adivinhar... Francesa! Da Alsácia!


Aline 0 x 2947238 Hindus, Budistas, Sikhs e Jainas

mardi 27 mars 2012

Le plombier

Da série "lost in translation":

No dia em que fui ao disco bowling com a RoommateFromFrance, estávamos conversando sobre boliche (de modo geral), no metrô. Acrescente-se ao barulho do metrô e das pessoas a nossa volta minha falta de capacidade de pronunciar alguns (vários) fonemas franceses. A conversa que rola é mais ou menos essa:

eu: Ah, então, já que você gosta de boliche, um dia desses a gente também tem que jogar boliche no Wii. Não sei se você já jogou...
ela: Não, não. Assim, não.
eu: ...
ela: ...
eu: Na verdade, eu nem gosto de video game. Acabo até esquecendo que tem aquele video game lá na sala e que a gente pode jogar de vez em quando, tal...
ela: Ah! O Wii! Boliche no Wii! Foi isso o que você disse, então?
eu: Foi--
ela: Ah, você disse "Wii", mas eu entendi "weed". Achei que você quisesse jogar boliche "on weed" e não "on the Wii".
eu: !?!? HAHAHA

Corta pra, sei lá, um mês depois. Meu apartamento é lindo e espaçoso e aconchegante e, apesar de o meu quarto ser escuro de dia e claro à noite, eu não tenho grandes reclamações. Só que o apartamento é meio antigo. O encanamento é antigo. E daí que tem aqueles problemas. Tipo as torneiras (da cozinha e do banheiro) que estão com vazamento. O encanador veio aqui há mais ou menos dois meses e meio e disse que o encamento precisa ser trocado por completo, o que só dá para fazer no verão.

De lá para cá, a torneira da pia do banheiro, que pingava um pouco, passou a correr constantemente. Ou seja: por mais que a gente aperte na hora de fechar, a água não para de escorrer. E não são só uns pingos, não. É um filete constante de água que corre, mesmo com a torneira fechada. Por sorte (?) minha - e azar do meio-ambiente - quem paga a conta de água é o proprietário do apartamento, então, se ele quiser demorar para consertar esse demônio dessa torneira, o prejuízo financeiro é dele, e não meu.

De todo modo, para acabar com essa enrolação e evitar ter que esperar até o verão (a primavera mal começou, MELDELS!), liguei pro homem ontem para avisar que a torneira está em estado crítico. Só que hoje ele retornou minha ligação para pedir detalhes sobre o que há de errado com a torneira.

Por sorte (e graças a meus pais, esses incansáveis empreiteiros-wannabe que me fizeram passar a vida inteira frequentando lojas de materiais de construção para manter o estado "em reforma" do apartamento deles em SP), eu até conheço bem o vocabulário de engenharia hidráulica básica (i.e. "for dummies"), então até sou capaz de mais ou menos explicar isso aí em português (aliás, quem quiser um tutorial bem for dummies, basta olhar isso aqui). Mas e em francês, como fica, Bóris?

Acho que por ter sido escrava professora de idiomas por quase dez anos, eu talvez tenha adquirido essa capacidade bizarra de expressar coisas usando descrições improváveis e interjeições e conseguir me fazer entender (Tentem ensinar português para uma húngara que só fala húngaro e veja como você, também, pode desenvolver essa incrível capacidade - super recomendo!).

Falei do negocinho que a gente roda com a mão para fazer a água abrir e fechar, do cano que junta o cano principal na torneira... Enfim. A mensagem foi transmitida e o encanador deve aparecer aqui qualquer dia desses. Como o proprietário do apartamento me perguntou a marca da torneira, imagino que o encanador vá aparecer aqui com as peças para substituir. Ou com novas torneiras. Só estou torcendo pro cara não ter entendido tudo errado e me mandar o encanador me aparecer aqui com, sei lá, uma nova válvula de descarga (se bem que essa também seria bem vinda - outra história para outra ocasião...).

Pessoas normais pegariam essa listinha de palavras aí de cima, olhariam no dicionário (ou jogariam no GoogleTranslate) e aprenderiam a comunicar o próximo problema hidráulico de maneira mais eficiente. Apesar de achar essa uma alternativa até válida (mas, na verdade, pouco razoável), estou super pensando em fazer um curso de hidráulica e encanamento. Mais fácil que ter que ter essas conversas por telefone...

Metáfora para a vida acabou de me mandar uma carta de amor. Vou ali lidar com isso e já volto.

dimanche 25 mars 2012

40ème jour de grève

Ainda em greve (há 40 dias). A grande manifestação do dia 22 ainda não deu resultados. Ou seja: eu continuo sendo paga sem trabalhar, já que são os estudantes (i.e. meus alunos) que estão em greve.

Por enquanto, não tenho muito do que reclamar, mas a coisa não está parecendo ir numa boa direção. A ver...

vendredi 23 mars 2012

Libérez-nous des libéraux

Nem sei quantas vezes já reclamei da greve aqui no blógue. E o problema nem é a greve em si (que é justificada/justificável), mas essa coisa de minha programação para o trimestre ter ficado toda esculhambada por conta dela. 

Mas a história completa é que os estudantes no Québec estão em greve para protestar contra um aumento de 75% nos custos da educação superior, proposto pelo governo. (Se quiserem mais detalhes, deem um Google ou perguntem a um québecois, porque a política daqui ainda me escapa enormemente, e não vou ficar proselitizando inverdades.)

A minha Universidade foi líder do levante. Estamos em greve (geral e ilimitada) há mais de um mês - desde o dia 14 de fevereiro. Algumas universidades aderiram à greve logo depois. Outras demoraram mais tempo. E houve inúmeras manifestações e protestos desde que a greve começou. 

A manifestação de ontem marcou o início do movimento que apelidaram de "Printemps Érable" (referência ao/trocadalho com "printemps arabe", a primavera árabe, de 2011): alunos de todas as universidades da província (sim, porque tinha galëre da UQTR e da Université Laval, entre outras) fizeram uma passeata pelo centro de Montreal, terminando no Vieux Port

Foi a maior manifestação da história da cidade, com números oficiais de 200.000 participantes (a maior manifestação que havia acontecido na cidade até então tinha sido durante uma outra greve de estudantes, em 2005, quando 100.000 saíram em passeata), mas alguns jornais chegaram a estimar 300.000 pessoas.

O detalhe é que a cidade de Montreal (sem considerar a área metropolitana) não chega a ter 1.700.000 habitantes. Ou seja: o número de manifestantes era algo como 10 a 18% da população (dependendo da fonte).

Pouca coisa não.

E eu estava lá no meio, a partir de um determinado momento. A passeata começou às 14h., na Place du Canada, mas eu só me juntei a ela lá pelas 16h., aqui perto de casa (depois que ela já tinha atravessado a parte oeste da cidade - e passado pela Concordia e pela McGill). 

O timing foi perfeito, porque eu consegui evitar a chuva: durante a tempestade eu ainda estava esperando meu amigos chegarem, e fiquei bonitinha embaixo de um toldo da rodoviária. Que phyna!

Aqui pertinho de casa, onde eu me juntei aos outros 199.999 estudantes

Na plaquinha ali à esquerda está escrito que o aumento das mensalidades está sendo patrocinado pelo miojo

A manifestação acabou por volta das 17h. lá na praça Jacques Cartier, inclusive com vários velhinhos acenando de suas janelas, com bandeirinhas vermelhas, o símbolo da luta dos estudantes.



Fim de noite com sanduíche de 3 dinheiros separatistas e cerveja igualmente barata (e ruim). Porque a gente pode não aderir completamente ao movimento estudantil, mas já abraçou o estilo de vida pseudo-pobre faz tempo...

vendredi 16 mars 2012

Rentre à pied

Cariocas são bairristas, paulistanos são bairristas, nova-iorquinos são bairristas. Em todos os lugares em que morei, as pessoas pareciam ser bem bairristas (até berlinenses são bairristas, embora talvez eu não possa considerar minha estada em Berlim como "ter morado lá" mas enfim) - e em Montreal não havia de ser diferente.

Eu contribuo com a minha parte, adorando meu bairro, que é bem servido pelo metrô, relativamente perto de tudo (vou a pé para a Universidade, a pé para o Plateau, a pé para o porto, para restaurantes etc.), e tem um número razoável de coisas (cafés e diners, principalmente) que ficam abertos de madrugada, apesar de os mercados fecharem cedo demais para o meu gosto.

Mas uma das minhas coisas favoritas de morar aqui é que, quando eu resolvo sair à noite, eu estou a dois quarteirões da balada. Literalmente.

É claro que, para dizer isso, eu também tenho que explicar que "a balada" a que eu estou me referindo é um dos cabarés drag queen mais famosos da cidade - e não um dos clubinhos da St.-Laurent.

O Mado.

Nas últimas, sei lá, 5 ou 6 semanas, simplesmente calhou de eu ir 3 vezes ao Mado. A primeira dessas na despedida do Ben. A segunda, na semana passada, quando uns amigos comentaram que talvez fossem, e acabou que eu animei mais um grupo de pessoas (incluindo minhas novas amiguinhas, C. e G., que tinham organizado o Disco Bowling na semana anterior) a ir.

Na terça-feira, C. me avisa que está combinando cm G. de voltar ao Mado na quinta-feira, porque uma colega nossa faria uma apresentação de dança lá. (Olha eu aqui, fazendo amigos e influenciando pessoas!) Confesso que até me deu um pouco de preguiça, mas aí eu pensei nos dois quareirões. Dois quarteirões, gente.

Resolvi ir. Mas tinha que buscar os ingressos com A., nossa colega dançarina, com antecedência. A. sugeriu um ponto de encontro. Perguntou se era de fácil acesso para mim. O ponto de encontro que ela sugeriu ficava a três quarteirões da minha casa. Também literalmente - mas em outra direção. Eu amo meu bairro.

Chegada a noite da baladénha, encontro C. e G. Assistimos à A. dançar com as drags depois de um ranguinho rápido no Resto du Village (que, obviamente, também fica praticamente na esquina de casa e não fecha nunca). Mas, sim, a baladénha. Não dançamos, porque dia bom para dançar é mesmo terça-feira. Não bebi porque continuo fingindo que estou em fase de contenção de despesas. Me arrependi, porque água é quase tão cara quanto cerveja no Mado.


Bref. Antes das duas da manhã, fomos embora. C. e G., cada uma para seu carro. Eu, para casa, a pé, em 3 minutos. Para 3 minutos, não preciso sequer do meu iPod.

jeudi 15 mars 2012

Le blues d'la vie

Ou: como se sentir vulnerável em B menor

ǁ: ₵ Evite. Por alguns dias, vários meses ou tantos anos. Não fale. Se ou quando as pessoas perguntarem, mude de assunto. Ou minta. No começo, minta. Depois, mude de assunto. Depois, seja esquivo. Com o tempo, você ficará melhor nisso. Respostas vagas virão mais naturalmente. Você irá quase se esquecer da verdade.

Não fale. Nunca. Invente outras histórias.

Não conheça pessoas novas. Evite ao máximo conhecer pessoas novas. Pessoas novas tem interesse em saber coisas. Pessoas novas fazem perguntas.

Fale demais: mantenha-se no controle da conversa para que seja você a conduzi-la para onde quiser. Seja um bom ouvinte: as pessoas falarão tanto que não farão questão de ouvir.

Falhe. Coloque-se em uma situação onde você terá que lidar com isso. Coloque-se em uma situação em que você terá que falar. Relute. Mude de assunto. //

Falhe novamente. Sinta-se pressionado. Sinta-se capaz de falar. Comece a falar. Sinta-se começar a história inventada quando você deveria contar a verdadeira. Pare. Comece a mudar de assunto. Seja trazido de volta ao assunto. //

Comece a falar a verdade. Não saiba por onde começar. Comece a falar e desvie o olhar de seu interlocutor.

Olhe para o chão. Olhe para os lados, em agonia, como que pedindo ajuda para alguém que não está lá. Não saiba o que fazer com as mãos. Coloque-as nos bolsos, se você tiver bolsos, e deixe-as lá, inquietas, por alguns segundos antes de colocá-las nervosamente sobre outra superfície próxima. Estale os dedos, roa as unhas, dedilhe algum objeto; dê vazão a qualquer mania.

Deixe-se escorregar em seu assento. Sinta seu corpo derreter em direção ao chão, como se a gravidade fosse ficando exponencialmente mais forte, como se você pudesse ir pingando e escorrer para longe, encontrar uma passagem secreta em um ralo.

Prossiga na história como se você pudesse se observar de cima, narrando-a. Sinta-se em terceira pessoa consigo mesmo. Perceba que aquela história já não é real, mas não saiba explicar por quê. Deixe sua voz falhar. Olhe para seu interlocutor e procure conforto; não encontre. Sinta sua voz falhando, ficando rouca, sua garganta arranhando. Tussa. Ganhe tempo. Respire. Sinta suas mãos e seus pés gelados. Sinta seus pés se impacientando, suas mãos tremendo. Mantenha o olhar baixo. Engula a seco. Pense em desistir na metade. Note que é tarde demais.

Pare de sentir seus pés e suas mãos. Sinta a cabeça ficando mais leve e, ao mesmo tempo, mais pesada, quente. O calor sobe do pescoço e atinge as têmporas, pressionando-as. Imagine-se corando muito mais que o normal. As mãos e os pés dormentes. Sinta muito calor no rosto e o resto do corpo gelado, cadavérico. Sinta um princípio de vertigem. Saiba que isso é medo. Não saiba de quê. Saiba que isso é pânico. Não saiba como fazê-lo parar. Feche seus ombros por cima de seu esterno. Engula a seco. Prossiga. Com os olhos, busque a ajuda ausente. Não pisque, para que as possíveis lágrimas não transbordem para fora dos olhos. Tussa novamente. Coce os olhos. Esfregue as mãos nas coxas. Engasgue. Conclua a história. Sinta seus batimentos cardíacos no seu globo ocular. Ouça seus batimentos cardíacos cada vez mais fortes, estourando pelos ouvidos.

Receba como resposta um silêncio sepulcral. Busque os olhos de seu interlocutor. Encontre-os vazios. Não saiba se é falta de reação ou excesso de. Perceba que aquilo foi mais difícil que você tinha imaginado - e você não tinha imaginado que seria fácil. Saiba que você não falou tudo o que tinha a falar. Arrependa-se de ter falado pouco. Arrependa-se de ter falado demais. De ter falado. Ponto. Tenha a certeza de que foi mal interpretado. Tenha raiva do esboço de sorriso de compaixão e do aceno de seu interlocutor.

Futuramente, veja uma insinuação de compreensão no olhar do seu interlocutor. Imagine que ele te interpretará, daqui em diante, se remetendo sempre a isso. E saiba que, na verdade, ele não entendeu.  E que ele nunca vai entender. :ǁ


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lundi 12 mars 2012

Enfin réunis

Mesmo depois de o Ben ter ido embora, continuo me encontrando com uma certa frequência com os amigos dele - agora também meus amigos.

Encontrei com alguns para tomar "café", cerveja, bater papo. Dia desses eles vieram aqui pra casa. Etc.

O programa dessa semana era ir a uma cabane à sucre. Dessas coisas que se tem de fazer ao menos uma vez na vida no Canadá, tal.

A ideia original que surgiu há alguns meses era ir à cabane à sucre do Au Pied de Cochon. Quando fui olhar para fazer reservas, no início de dezembro, eles já estavam com a lotação esgotada. O detalhe é que a temporada é geralmente de final de janeiro a final de abril. Com essa decepção, tinha deixado os planos de me entupir de sirop d'érable (aka maple syrup, aka xarope de bordo) em suspenso até segunda ordem.

A vida não deu reviravoltas e não fomos à cabane à sucre do Au Pied de Cochon. Mas o pessoal organizou para irmos à Érablière À La Feuille d'Érable, que fica próxima ao monte St-Gregoire, há menos de uma hora de Montreal.

Éramos um grupo grande: 12 pessoas (fomos em 3 carros - na ida, fui de carona com K. e M., e voltei com J.P. e M.). Eu estava bem pessimista quanto à possibilidade de chegarmos lá e conseguirmos sentar e comer logo, o que, surpreendentemente, aconteceu!

O único problema é que a comida não era muito boa.

Entradinhas: pão, picles de beterraba, cretons (ver: patê de porco)

A refeição de verdade começou com uma sopa de ervilhas (que, geralmente deveria ter bacon e sirop d'érable, mas que não parecia ter nenhum dos dois - e nem sabor algum, for that matter). A sopa que M#2 fez quando fomos pescar estava muito, muito melhor.

O prato principal tinha ovos, presunto (ver: tender), batatas, fèves au lard (ver: feijão doce) e oreilles de crisse (ver: torresmo). Meh.

A esperança era a sobremesa! Bolinhos, beignets (ver: donuts) e afins. Coisas com muito(a) sirop d'érable. Tudo gostoso? Sim, no mundo das ideias. Na prática, os doces estavam tão bons quanto o resto da refeição: meh.

O que salvou foi a tire d'érable, que é um troço que deve ser igual meio que em todo lugar.

A visita valeu para sair um pouquinho de Montreal - e em um dia bonito! -, para ver que as cabanes à sucre são armadilhas para turistas montrealenses (elas estão para o montrealenses assim como as micro-cervejarias e chocolaterias de Campos do Jordão estão para os paulistanos, i.e. puro engodo), com sua demonstração de fauna da fazenda (com alpaca! WTFF?!), charretinha e todos esses tipos de embuste, para socializar um pouquinho vendo todo esse pessoal de uma vez só e, claro, para fazer a token brasileira no meio dos québecois e deixar o AmigoSemTwitter morrendo de vergonha e raiva enquanto o "erableiro" tentava ser simpático conosco cantando músicas em espanhol (...).

Custo total da aventura: 18 dinheiros separatistas duramente estampando o rosto da rainha da Inglaterra
Satisfação com a comida: muito pouca
Fazer galëre passar vergonha: fucking priceless


(Fotos da aventura: em breve)

mercredi 7 mars 2012

Coup de coeur

Porque eu tenho toda uma aversão a prometer coisas a torto e a direito, mas, quando eu prometo, eu meio que cumpro. Tá certo que não foi promessa; foi compromisso público (diferença a ser esclarecida em outra ocasião...) mas, voilà, olha eu aqui cumprindo.

Desde aquela vez que fui ao cinema ver "Extremely Loud & Incredibly Close" já consegui ir ao cinema mais 3 vezes. Assisti a "A Dangerous Method" logo depois. Recentemente, fui ver "Monsieur Lazhar" e "L'Artiste" - os dois com a RoommateFromFrance.

Como de costume, não interessa muito o que eu achei ou deixei de achar sobre os filmes porque zzzZZZ. Alguns comentários aleatórios, entretanto:

1. Não foi tão ruim quanto eu imaginei ver um filme québecois sem legendas. Na verdade, acho que não perdi nenhuma fala do "Monsieur Lazhar". Fase "superando medos" reloaded. PWNED!

2. Um erro crasso de continuismo no início do filme me distraiu bastante. Assim como o som da sala de cinema, de maneira geral, que estava BEM alto. O som alto, contrariando a maioria das expectativas, me incomoda absurdamente. Quem já assitiu a TV ao meu lado sabe bem que eu prefiro assisir à TV no modo "surdo" (i.e. no "mudo" e com closed caption). Quando estou tentando ser gentil e me adaptar a situações sociais, até cedo e aceito colocar o volume até o 4. Para além disso, começo a entrar no modo AVC. Não sei explicar, mas não som de maneira geral, mas diálogos em volume alto me deixam completamente atordoada (daí eu odiar gente que grita). Vá entender.

3. Falando em "superar medos" (ver item 1 acima), não morri de tédio assitindo a "L'Artiste". Filme mudo, preto-e-branczzZZ. Mas não. Gostei mais do que eu achei que fosse gostar - a ponto de discordar de Branchouille, amigo da RoommateFromFrance, que achou o filme simplesmente "ok".

4. A logística de ir ver esse filmes aí foi bem complicada (como havia de ser). O cinema fica a 8 minutos (a pé) da minha casa e, às terças-feiras (sempre fomos às terças), o ingresso é bem mais barato. Parece a combinação ideal. Sim, exceto que... Exceto que ela é ideal para outras oitenta e três mil pessoas. A entrada da bilheteria do cinema é pequena e mal organizada, o que torna a compra do ingressos um grande evento, particularmente porque há uma divisão de bilheterias em algumas que só aceitam pagamento em dinheiro e outras que aceitam débito e crédito - coisa que a gente meio que só descobre quando chega lá e pede o ingresso. Superado esse primeiro momento de caos completo, é óbvio que se chega à sala de cinema e só tem lugares pra sentar lá nas primeiras fileiras. Resolvo encarnar um certo amigo ultra-cinéfilo que dizia que gostava de sentar na frente porque a imagem chegava mais rápido para ele que pras outras pessoas lá do fundo, e me acomodar na quinta fileira. Novamente, míope com lentes que sou, quase tenho um AVC. Mas depois de alguns minutos a vertigem passa (ela passa mais rápido quando eu me lembro de que paguei $6.50 - e não $12.75 - para assistir ao filme).

5. Na segunda ida ao cinema (para  assitir a "L'Artiste"), conheci uns amigos franceses incluindo o supracitado Branchouille) da RoommateFromFrance e, logo depois fiquei pensando... Apesar de todas as minhas ressalvas em relação aos franceses (aos que conheci na Europa, ao menos), confesso que todos os franceses que eu conheci desde que eu mudei para Montreal foram super simpáticos e incrivelmente gentis. Considerando a amostragem recente de brasileiros com quem eu tive de lidar recentemente, fico bem surpresa, mas tenho que confessar que o Brasil está perdendo feio para a França na medalha de honra ao mérito de simpatia oferecida pelo meu coraçãozinho.

6. Agora eu talvez devesse fazer como uma certa senhorita que eu conheci aqui e explorar todo o resto do cinema québecois (aquele que existem além de "Invasões Bárbaras", "O Declínio do Império Americano", "C.R.A.Z.Y." e tal), mas essa é uma fase do projeto "superando medos" em que eu ainda vou ter de trabalhar, porque algo me diz que não vai ser fácil. Gente bonita que quiser recomendar filmes québecois: o link "comments" abaixo está aí pra isso.

mardi 6 mars 2012

Trois matelots

Ou: uma lição de meias palavras

Enquanto muita coisa acontece por aqui e pouca coisa acontece no mundo (ou vice versa?), vai uma breve lista dos meus "feitos" (as if...) do mês de março. Porque, sim, o mês mal começou, e eu já estou aqui, fazendo coisas (e fazendo nada, ao mesmo tempo). Olha eu, toda hegeliana - beijos!

Bom, a grande ironia da vida é que a universidade está em greve já faz quase um mês e sabe-se lá o que vai acontecer com minha vida quando a greve terminar. Sabe-se lá tampouco o que vai acontecer com minhas supostas férias de verão e meus supostos planos de viagem, o que me irrita bastante. Mas não é bem aí que está a ironia. A ironia está em eu ter evitado estudar em instituições públicas (ver: USP) por conta dessa bagunça de greve e ter tido problemas bem grandes na vida com: (a) a invasão da reitoria da PUC-SP em 2004 e (b) a greve, aqui em Montreal, de todos os sindicatos de que eu faço parte, desde fevereiro. É a vida dançando na cova da gente, sempre (porque o Carnaval acabou, mas o Purim tá aí: preparem-se!)

Enquanto isso, continuo trabalhando. Mascomoassim???

Bonitona aqui já terminou os créditos do doutorado, mas tem que elaborar projeto, ler, pesquisar, escrever uma tese... Enfim, a parte "light" do doutorado.

Mas, sim, mês mal começou e eu já fiz mil coisas: já recebi visitas em casa, já comi horrores, já joguei boliche, fui a festinha de aniversário, visitei pessoas...

Porque são coisas que não fazem parte da rotina, n.b.:

Visitas #1: recebi um casal de couchsurfers do Brasil, de onde se seguiu uma série de desculpas para eu justificar comer além do que deveria, incluindo poutine no La Banquise, bagels do St. Viateur e...



Uma cabeça de porco (sim, servida com uma lagosta na boca!) no Au Pied de Cochon. Óbvio que o partner in crime desse absurdo gastronômico foi o AmigoSemTwitter. Para os descrentes, pasmai: comi bochecha, língua, orelha, focinho, cérebro... Só estabeleci um limite (arbitrário, eu sei) no olho. Esse não deu. Mas pasmai ainda mais, irmãos: até comi (um teco da) lagosta! Junto a isso, cromesquis, um vinho amigo e, obv, sobremesa (tarte au sucre com sorvete de baunilha). Obv também que cheguei em casa passando mal (mas não muito literalmente) de tanto comer. Estou precisando rever aquele capítulo sobre moderação...

Ah, e não falei sobre o casal, né. Como sou accent whore desse jeito mesmo, o comentário que tenho a fazer é que o sotaque da metade XY do casal tornou a estada deles bem mais agradável. De resto, como deve estar claro, só digo que não trabalho mesmo com gente que não gosta de comida. Fim.

Boliche: olha eu, toda socializando, fazendo amigos e influenciando pessoas... E mais: fazendo amigAs. Meninas. Mamãe ficaria orgulhosa (e acho que o Respectivo também). Umas meninas da academia (MELDELS, vejam: estou fazendo amigAs e na academia, além de tudo - que comecem a soar as trombetas do apocalipse! É 2012, irmãos!) resolvem organizar um disco bowling lá perto do metrô Beaubien. PB (que achou, finalmente, que disco bowling seria bem mais divertido que cirurgia bucal) e RoommateFromFrance foram comigo. No final, só foram duas meninas da academia, mas eram as mais legais, e as com quem eu converso mais, então não foi tão chato quanto poderia ter sido (e quanto eu previa). Mas fica a pergunta: que diabos é disco bowling? - É um boliche meio que normal, mas, depois de um determinado horário, eles diminuem as luzes, ligam uma luz negra e tocam músicas de baladénha. Mas o boliche era engraçado: os pinos e as bolas eram tamanho 75% real, i.e. meio mini. Menor que um boliche normal, mas não tamanho infantil. Não entendi muito bem por que e não sabia bem como lidar com aquilo. A resposta óbvia é: cerveja. Ligando o botão hipster e lidando com isso com ironia, a diversão é garantida. Ironia e o fato de eu ter ganhado uma partida (uma de três), e de o programa da noite ter custado pouco. Socializei, fiz amigos, influenciei pessoas. Me deem um prêmio de social butterfly.

Festinha de aniversário: Dessas obrigações sociais. A palavra ideal (e à propos, como bem estabelecido durante um café no sábado à tarde) para descrever minha interação com a pessoa que me convidou para essa festa de aniversário é: flaky. E lá fui eu, pagar dívida moral. Para resumir o ocorrido, basta dizer que é bem difícil ter que compartilhar um recinto com pessoas que tem menos habilidades sociais que eu, mas confesso que as comidas que um casal simpático levou me mantiveram na festinha por mais tempo que eu teria aguentado normalmente. E isso é tudo o que há a ser dito. Tirem as conclusões que quiserem.

Visitas #2: Falando em obrigações sociais (embora em sentidos diferentes), já estava mais que na hora de AmigoSemTwitter e eu visitarmos nosso querido amigo W#2. Tem gente que chama isso de crisis management, tem gente que chama isso de alguma série de TV do início dos anos 90. Eu chamo isso de vida. Cerveja comprada, metrô tomado, visita feita. 'Bora viver, que ainda tem 26 dias sobrando no mês.

jeudi 1 mars 2012

Intermission

Andando na rua com você, distraída. De repente, você me escapa. Não entendo bem o que acontece, mas, de repente, silêncio. Termino minha caminhada sozinha. Frustrada, desapontada.

Te busco, olho para você, grito, chacoalho. Em vão. É o frio que te faz assim? Não sei. Nunca sei. Só sei que, de repente, você se vai. O brilho se vai. Escuro. Silêncio.

Em casa, te aqueço. Tento cuidar de você. Te conectar com o mundo. Te ressuscitar. Ressuscitar a luz que já não vejo em você. Te tirar do silêncio. Do I know how to push your buttons?

Tento por dias e dias e nada. Nenhuma resposta. Nenhum sinal de que você vá me responder. Penso em sair de casa, buscar nova companhia para te substituir, mas nunca levo isso adiante.

Tento não pensar em você. Te deixar alí no cantinho, quieto. Te dar tempo. O tempo de que você precisar - e só então tentar de novo. Que você me traga uma maçã e me tire desse silêncio. É só isso o que eu quero. Mas sei que não pode ser simplesmente quando eu quero.

Tento não pensar em você, mas a cada vez que eu pego meu telefone, é inevitável. Não é a mesma coisa.

Cada vez que ouço aquelas músicas penso em você e começo a odiar mais e mais seu silêncio. Nosso silêncio?

Quando te encontrei, perdido, silencioso, sem brilho, como que esquecido em um canto qualquer, não dei bola para você. Te deixei ali, de lado, esperando por algum tempo antes de te dar atenção. Antes de te ver acender e encher meu mundo de música. A melhor companhia para meus momentos de solidão.

Depois, você me acompanhou por aí, pela cidade, pelo mundo. Por algumas de minhas corridas, até. Nem sempre gostava de sua companhia quando eu corria, para falar a verdade. Mas sua companhia, embora me irritasse às vezes, era melhor que o silêncio.

Dessa última vez que você me deixou, mal tínhamos saído de casa. Eu tinha passado a manhã cuidando de você: me certificando de que tudo ficaria bem, que ainda teríamos muito tempo juntos. Na metade das escadas, você se foi, de repente. Me deixou, novamente, sozinha e no silêncio. Peguei meu telefone, mas resisti à tentação. Não valia a pena. Não naquele momento. Eu iria ter que lidar com o silêncio.

Achei que essa vez fosse a última. Que você não fosse mais voltar. Tentei me preparar para lidar com sua ausência permanente. Reclamei com as pessoas. Me disseram que eu deveria ter esperado isso. Que eu deveria saber que isso aconteceria. Que eu não deveria ter te dado bola, nunca. Que vocês são todos iguais. Gente que diz que você não tem conserto. E, na verdade, eu sei que você não tem, mas finjo que não sei - e que comigo vai ser diferente.

Me lembrei de todas as vezes em que você me abandonou no meio de viagens. Fiquei com raiva. Uma raiva que passa logo e me faz pensar que você é insubstituível, embora eu saiba bem que você não é.

Novamente, cheguei em casa e contemplei te deixar lá, tentar depois. Tentar não pensar em você e na falta que você me faria. Não resisti e tentei. Uma vez, uma última vez (sempre é). Bastava que você me desse um sinal. Bastava que você me desse uma maçã.

Tentei. Nada. Tentei de novo, nada. Uma última vez (sempre é) e... voilà.

Mais uma vez (a última?), você voltou. Me fez companhia, me fez lembrar de nossas músicas. Tantas! Acabou-se o silêncio. Mais uma vez. Resta saber por quanto tempo.

Relationship status: it's complicated with my iPod.


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N.B.: Não, isso não é metáfora para a vida. Meu iPod realmente funciona intermitentemente. Está aberta a temporada de vaquinha para comprar um novo iPod para essa que vos escreve.