lundi 31 octobre 2011

Tergiverse

Bom, hoje é dia 31. Halloween e tal. Mas foda-se. Não trabalhamos abelhas-piriguetes nem M&Ms. O que importa é que o mês finalmente vai acabar. Juro que à meia-noite vou dar uma festinha (mentira!), só pra comemorar o início de novembro. Porque, outubro, seu hellion, você teve finais de semana demais. Você foi daquelas pessoas que overstayed their welcome, mas aí foi lá e me deu mousse de chocolate e me deixou na dúvida. Aquelas pessoas que te pedem uma carona e moram muito mais longe que você imaginava - e já é tarde e você está com sono e está dirigindo na casa do caralho. Mas aí, nesse detour de 12Km toca sua música preferida no rádio. E é uma música que nunca toca no rádio. E aí você agradece o detour. É, outubro: bjomeligaMUITO. Ou aquelas pessoas que te acolhem em momentos de crise existencial e depois te apunhalam pelas costas, no maior estilo... bem deixa pra lá. Pensando bem, outubro: bjonãomeliga.

Tudo começou quando, mesmo com mais de 40GB de música no meu computador, não estava com vontade de ouvir NADA. Pedi pra vocês me enviarem mixtapes. Vocês não enviaram. E é aí que as coisas começaram a ficar difíceis. Porque eu baixei algumas músicas que tinha curiosidade de ouvir (a nova do Orbital, por exemplo). Alguns álbuns que queria ter baixado há tempos mas nunca lembrava etc (Brandon Flowers, Camera Obscura, Hot Chip). E nada me deixou satisfeita. Aí, porque a ironia é a presidente do meu mundo, vem o Lou Reed e lança um álbum com o Metallica. Todas chora. Esse eu nem baixei, porque, né. Mas fui doente curiosa o suficiente pra ouvir no YouTube e genéricos. Escondam as navalhas, porque juro que vou cortar meus pulsos e sangrar até a morte ouvindo "The View".

Resumindo: a única coisa que fiquei com vontade de ouvir esse mês eram todas as coisas erradas do mundo, tipo Daniel Baremboim tocando a Appassionata, que me faz lembrar um filme ótimo (vão dar um Google, seus preguiçosos!) mas que é o perfeito moodsetter para meus momentos TOC, ou um certo EP do Belle & Sebastian, que me causa angústia existencial profunda, ou... Pulp. Muito Pulp. O problema de ouvir Pulp, que eu não ouvia freneticamente desde 2008 (acho) é que Pulp é trilha sonora de 2005 (tá, Pulp é bem mais velho que isso, temos conhecimento, mas falo subjetivamente, conformem-se). E em 2005 eu tinha 22 anos e era apropriadamente idiota, e havia Berlim, e havia muito mais alma (e cretinice, for that matter) dentro de mim.

Mas, depois de o que me pareceu ser uma série de 17 finais de semana, chegamos ao último final de semana de outubro (ufa!). E daí que, nessa mesma vibe, a pessoa foi pra festinha de Halloween fantasiada de 2005. E, pra melhorar, confundi Halloween com 1o. de abril e fui mórmon, amish, antropóloga etc. Até aí, tudo bem. Tudo muito bem, porque, se não tivese sido assim, teria desmaiado de tédio. E aí teve domingo, que foi um dia meio longo demais, meio pela metade (no maior estilo tudojuntoemisturado), e aí acabou. Mas ainda há coisas precisando de explicação:

- Como é que eu adquiri esse roxo na altura do meu osso zigomático? (pode ou não ter sido causado, durante uma conversa animada, por interlocutor israelense - a descobrir) Tá doendo.
- Como é que esse tubo de cola estourou na minha bolsa? E: de onde veio esse tudo de cola (cola branca, escolar), e o que ele estava fazendo na minha bolsa?
- Por que a bateria do meu celular não dura mais tempo, ou não tem um modo GPS de emergência?
- Por que eu ainda uso esses sapatos marrons da Miss Sixty? (bolhas malditas)
- Por que o sol é tão excessivamente brilhante nas manhãs de domingo?
- O que é essa dor nas costas, meldels?!
- Em que ano estamos, mesmo?
- Virei super-heroína?
- Como consegui fazer feijoada no domingo?

Isso mesmo, amiginhos. Fizemos feijoada ontem (ou qualquer coisa que se aproximasse vagamente disso), com direito a carne seca, costelinha, bacon e linguiça errada (não tinha paio). Olha, até que ficou decente. Acho que faltou tempero (e sal, para o meu gosto, obviamente). Estava comestível e deu pra quebrar um galho, mas não era o feijão da mamãe. Era pra ter rolado pudim de tapioca, mas não tive condições de reunir forças para fazer nada além de 1,5kg de feijoada, arroz e farofa. E não teve couve, porque não tem couve na tundra. Ou talvez até tenha, mas os planos de ir até lá em cimão no Plateau pra procurar couve no domingo de manhã também foram pro ralo. Mas teve laranja (cortesia de L., aka amigosemtwitter) e cervejas (não bebi, porque, né, sábado foi festa de Halloween e isso já deve dizer tudo. Se você quiser full disclosure como forma de entretenimento, veio ao lugar errado; vá assistir a algum reality show com as Kardashians) e torta de cereja com chocolate (yum!), cortesia de J. e J., que também trouxeram o pequeno rebento, que é uma dessas poucas crianças fofas e não ranhetas que há no mundo.

E agora tem feijoada aqui em casa para alimentar umas 3 famílias por pelos menos 2 meses.

Porque meus M.O. continuam sendo os mesmos. O M.O. alimentar: já que é pra ir pra cozinha, é pra alimentar o mundo! E o M.O. pra vida: tá com um problema? Vai e resolve, mas resolve logo.

Como bem me disse Juju outro dia, quando estávamos nos falando ao telefone, o filme 127 Horas, se tivesse sido protagonizado por mim, teria se chamado 3 Minutos. Estilo: "Por que diabos o cara teve que pensar tanto antes de cortar o braço? Mete logo a serra nessa porra!" Ponderar as coisas? Não trabalhamos.

O único problema que não consegui resolver logo foi, de fato, o que me pareceu um prolongamento desnecessário do mês de outubro. Já vai tarde.

Ao menos já achei algo razoável pra ouvir pelos próximos dias: Keren Ann.

Mas o mês se vai e fica a lição para a vida, crianças: things go better with a little bit of razzmatazz. Bjomemandemmixtapes.

dimanche 30 octobre 2011

Tu vas au bal?

E aí a pessoa é feminista, mudérna, independente, filha única que deu certo (ou errado, dependendo do ponto de vista), globetrotter, auto-suficiente.  Praticamente uma Eleanor Roosevelt do século XXI. Praticamente uma planta fazendo fotossíntese.

Até que.

Até que a pessoa tem que ir a uma festinha. Pega o vestido. Veste. E esse zíper de 60 cm nas costas? Bom, com flexibilidade (física e moral) tudo se resolve. Puxo, puxo... Ok, estamos quase lá. Só faltam os 10 cm finais, já chegando no alto da coluna cervical. E... não. De novo... não. Mais uma vez. E... &*%#, meu ombro!! Distensão muscular básica. Pra começar bem o sábado à noite.

Bom, mas não tenho outro vestido pra ir a essa festa (não um que não tenha zíper nas costas). Respectivo está a 4000Km de distância, Ben estava no bar. Não tenho amigas meninas (não que morem a menos de 6500Km daqui).

Solução? Bem, já que está frio mesmo, bora pôr o casaquinho por cima, o manteau e ir pra vida. Só que obviamente em algum momento, quando chegasse no local da festa e me desse conta de que estava 24 graus, ia ter que tirar os casacos. E aí, ia ficar com o zíper pela metade, tipo velha-louca-do-Central-Park?

Não, não dá, né. Mas aí o plano para ir à festa era encontrar um amigo na casa dele e irmos. Bem, alguém ia ter que lidar com a pateticidade da situação.

Chego lá e já tem um outro amigo nosso lá também. Já fui vendo que a coisa estava melhorando. Por que passar vergonha na frente de UMA pessoa se você pode passar vergonha na frente de DUAS? Mas é isso ou aparecer com o vestido meio-zipado na frente de umas 15 pessoas, das quais eu conheço... 3, talvez?

Aí, a pessoa tem que chegar e pedir que zipem seu vestido. Mas que exemplo de mulher independente e phyna, né não?

A TV faz a gente crer que existe um elemento sexy nessa coisa de abotoar pessoas. Zíperes de vestidos, gravatas, colares, tal. Mas não. Essas situações só revelam o quão patéticos e incapazes somos sempre às vezes. Está na mesma categoria de gente que acha sexy acender um monte de velas pela casa - mas a cortina inevitavelmente pega fogo.

E, olha, esse lance do zíper até poderia ser aquele sexy estabanado, à la Zooey Deschanel. Mas não é. Nem tente fingir, porque não é. É só patético. E ponto. A não ser, talvez, que você seja a Zooey Deschanel. Mas nesse caso, você proavelmente é sempre sexy. E sempre de um jeito estabanado.

Enfim. Devidamente zipada, peguei o que restou da minha dignidade, meu par de asinhas pretas e a auréola preta de pelúcia e fui à festa. Porque era final de semana de Halloween.

O que me consola é que a pessoa que me zipou lê isso aqui e tem noção da falta de dignidade que rola solta na minha vida (motivo pelo qual ele em breve receberá ex-agentes da KGB em sua casa, agora que eu descobri onde ele mora), e a outra única testemunha do ocorrido precisou da minha ajuda para passar lápis preto no olho.

Então, no final das contas, está tudo certo, acho.

vendredi 28 octobre 2011

Petit pédé

Gente, acho que sou guei!

Tá, não sou, mas e aí o Segundo Grande Jornal de São Paulo vai e publica isso no blógue:

#apontaestudo (piada pronta ligou e pediu suas crias de volta!)

E minha casa é o QG dos guei de Montreal. Guei quer fazer um jantar? Vem aqui pra casa, porque a cozinha é grande. Guei quer tomar uns bons drink? Guei vem aqui pra casa porque sempre tem cerveja, vinho, whiskey, rum, tequila... Guei brigou com o/a namorado/a? Vem dormir aqui no futon da sala. Guei quer jogar video game? Vem que aqui tem Wii.

E daí que eu fui fazer as contas. Atualmente, tenho 578 amigos no facebook (não, não sou popular sou praticante vítima de stalking seguido de bullying - ou vice-versa). Bom, 4,5% de 578 é 26,01. Ou seja, basta que eu tenha 26 amigues guei no facebook para que eu seja guei, aponta estudo. E daí que eu fui contar, né - mas, assim, por cima, porque eu não sou blogueira de moda não tenho tanto tempo livre. Fácil, fácil (e só pensando na galera que tá fora do armário - aos outros, o benefício da dúvida) bateu nos 25. Ou seja, se eu for ver direitinho, deve chegar lá pelos 30. Conclusão: MELDELS, descobri que sou guei! Solução: deletar os amigos guei ou, a partir de agora, só adicionar a galëre hardcore hétero. Deixar de ser guei nunca foi tão fácil! E alguns evangélicos loucos-do-cu da homofobia aí, tendo o maior trabalho em exorcizar as bee...

Mas minha Nossa Senhora da Vergonha Alheia, hein, Estadão? Convenhamos... Uma coisa é galëre fazer esses estudos toscos, mas publicar eese tipo de atrocidade leva a má qualidade da notícia para todo um novo nível de LSD na veia de demencinha!

E é isso ai. Mas, olha, vou contar pra vocês que aquela história dos guei bonitos não é conversa, não. Tem dias que eu chego em casa e tá aquele festival de looks Vogue: os guei gato estão partout! E não são só os homens, não. Porque as guei também tão tudo gata.

E aí que meu roommate se liga em design e cosméticos. Aí, a gente vai na La Baie e ele enche o carrinho de produtos Biotherm. E ganha um brinde: um penhoár (peignoir) rosa (!) ou uma malinha de academia, azul piscina (não sei se é azul piscina o nome da cor; é aquele verde-azul da Biotherm). Ele escolhe a malinha de academia, mas acha a cor muito gay e me dá a malinha! Além disso, a mocinha da loja deu umas amostrinhas pra ele e umas pra mim. Muito amor!

Pra melhorar, sempre que temos visitas que vem passar a noite aqui em casa (i.e. SEMPRE, porque, como eu acabei de dizer, aqui é o Q.G. guei - mas também hétero - do mundo), as pessoas deixam presentes de design. Meus pais deram esse joguinho lindo de marcadores de taças de vinho e o joguinho de garfinhos para aperitivos que faz conjunto.

Depois, uns amigos do irmão do Ben vieram da França e passaram uma noite aqui em casa. Como agradecimento, ganhamos... um jogo de grip cups da Bodum, lindas. 2 xícaras pretas e 2 vermelhas, combinando com nossa cozinha!

Tô reclamando da vida? Tô nada! E não é só pelos presentes. É porque o Ben é o melhor roommate do mundo. O completo oposto da roommate from hell que eu tive em NY.

E o Estadão preocupado com quantos amigos guei eu tenho no facebook? Ah, vá.

Tô mudééérna, tô 4,5%, tô rainha do deserto.

jeudi 20 octobre 2011

It is not because you are

Viver em interlíngua tem sido mais complicado que o que eu supunha. Quando a coisa era só inglês-português, até ia bem, salvo um relapso ("visinho", sic) ou outro. Mas agora, oficialmente vivendo em inglês, francês, português e frenglish/franglais, a coisa saiu de controle. O inglês ainda vai relativamente bem, apesar de um "me, I like..." ou outro. O francês sempre foi meio caipira, mesmo. Agora, só disfarço com franglais e vou em frente, phyna. Mas o português... coitado! Tem sofrido muito. Tempos verbais e concordâncias (verbal e nominal) deixaram de existir faz tempo. Mas a regência continua firme e forte por enquanto (ao menos isso). Ainda sei o que é crase, e como usar os quatro porquês, então o bonde não degringolou completamente.

O novo fato, no entanto, é que eu aparentemente desaprendi a pronunciar algumas palavras em português (ou nunca soube, vai saber...). A vítima da vez foi "incesto". Tô confundindo com inglês e falando tudo atravessado. Virei a Luciana Gimenez. Jesus, me salva!

Lembro que outra palavra que sempre me deixava na dúvida (mas isso há anos) era "alcova". Gente, que que são essas vogais em português, que a gente nunca sabe se são abertas ou fechadas? Ou posso pronunciar todas as vogais abertas e justificar que tenho pronúncia paulistana/nordestina (paulistano fala "éxtra", né... uó!)?

Acho que vou começar a floodar o e-mail do Athos com dúvidas de ortoépia. Porque a gramática eu até sei na teoria, o problema é que na prática ela enrola com a minha dicção de vítima de derrame (AVC). Mas a ortoépia constitui muitos megabytes a mais para esse meu HD tão reduzido.

Em tempo: Prosódia ligou e mandou beijos. Ainda pronuncio "ruim" e "rubrica" do jeito certo. Mas choquei ao descobrir que o acento prosódico é oscilante em Oceania (var.: Oceânia - cejura???).

Por outro lado, tô vendo aqui que deve-se pronunciar "ileso" e "obeso" com o /e/ aberto, e "cerda" e "algoz", com /e/ e /o/  fechados, respectivamente. PAS-MEI.

Desisto. Não quero mais brincar disso. Amor eterno ao Marcos Bagno nesse momento.

E tem mais: se eu passei minha vida toda pronunciando "obeso" errado, ceis tão mesmo achando que eu vou me aventurar a aprender a diferença entre o som vogal em "vin" e "pain". Tô amando viver em Interlíngua. Tô Luciana Gimenez, tô amante do Mick Jagger, tô modelo/atriz/apresentadora. Professor Pasquale, te dedico!

La petite vague qui avait le mal de mer

E daí que ninguém vai se importar, mas acho que hoje terminei minha evolução Digimon. Depois de mais de 10 anos de Academia (= escola, seus burrão; não academia de ginástica), consegui me tornar uma daquelas pessoas que eu desprezava. Acho que isso acontece com todo mundo. Acontece aos vinte-e-poucos anos, quando percebemos que estamos nos tornando nossos pais; acontece com a maioria dos adolescentes marxistas, que vão estudar ADM no Mackenzie e se tornam economistas de extrema-direita e afins.

Então, enfim, passei de happy-go-lucky husserliana a filósofa analítica cretina. Porque os Estados Unidos não conseguiram fazer isso comigo (eles tentaram, mas eu fui forte!), mas aí veio o Canadá, todo contente e simpático, me oferecendo oportunidades de pesquisa, me dando espaço para ser feliz e ... BAM! Tomou posse do meu espírito e me transformou em um zumbi (metafísico?) analítico. A transformação foi concluída hoje à noite, durante um inflamado discurso de uns 10 minutos sobre a inutilidade da história da filosofia pura e simples.

Como disse um amigo, isso foi apenas "a journey through self-discovery" (será?). Mas ainda estou em crise. E vou precisar de um pós-doc bem legal e com bastante verba, para poder pagar os anos de terapia. Coincidentemente (eu pensei em dizer "serendipidade", mas aí minha cabeça ia começar a girar até explodir), quando eu cheguei em casa em modo "crise existencial full blast", um amigo meu de NY pópa no GoogleChat. Depois daquela conversa básica, aproveito para tentar expurgar meus pecados e me redimir um pouquinho (principalmente porque esse meu amigo é continental nato):


 me:  now, i gotta tell you i just had a very depressing moment just a few minutes ago:
 M.:  yah?
 me:  yeah. i think i`ve become an analytic philosopher!!!
 M.:  haha
just a few mins ago?
 me:  they`ve turned me!!! they did it!!
YES!!!
(or at least that`s when I realized they had me)
and there was no way back 
M.: sleep on it 


Adorei a resposta cândida. Verdade. Melhor ir dormir e ver o que acontece daqui para frente. Mas eu tenho medo de que esse tenha sido um caminho sem volta.


Para quem, mesmo com toda a introdução acima, não sacou qual é o ponto de desespero existencial, a equivalência é mais ou menos essa:


hippie que vira CEO de multinacional
guei que vira seguidor do Bolsonaro
fascista que vira filantropo
amante do bacon e frequentador  de churrascarias que vira vegan
continental que vira analítico


Deus aponta e ri.


P.S.: Não que em algum momento eu tenha sido realmente continental. Achava comfortante viver uma filosofia meio tucanada, lendo Husserl e Frege, Ricoeur e Chalmers...
P.P.S.: Ainda não sei se é bom ou ruim que eu tenha me tornado analítica. A ver.
P.P.P.S.: Não sei se a conversão é permanente. A ver (2).
P.P.P.P.S.: Também não sei por que a fonte do post está toda cagada da metade para o fim, e estou com preguiça de ir mexer no HTML mas tenho latim a traduzir e não posso ficar brigando com o HTML.

mardi 18 octobre 2011

Sentimentale mon cul!

Pouca preparação psicológica pra viagem pra Boston. Alguns dias sem dormir, trabalho atrasado. Joguei umas roupas numa mala (joguei mesmo - me esqueci de levar CALÇAS!), fui pra faculdade e, de lá, direto para a rodoviária, para encarar mais de 7 horas no ônibus. A viagem em si foi razoavelmente tranquila (mesmo a parte de cruzar a fronteira e tal). O ônibus estava vazio, então deu para eu me espalhar. O problema de viajar durante o dia, no entanto, é que, pra pessoas com deficiência labiríntica, como eu, as viagens parecem durar para todo o sempre. É mais ou menos o seguinte: se eu estou num ônibus e tento ler, segue vômito. Usar a internet? Vômito. Escrever? Vômito. Às vezes, mesmo fazendo nada rola um "bom dia, Raul". Enfim, acho que já deu pra entender o nível da coisa.

Foram 7 horas e meia de iPod, então. E só.

Quando cheguei em Boston, exausta, o Respectivo e os pais já estavam me esperando na South Station. Entro no carro, conversinha básica e já deixo logo a primeira f-bomb (I'm so starving I could eat two whole fucking chickens). É. Acho que acabei esquecendo a noção em Montreal, junto com as calças. Previsão de um final de semana promissor. Se bem que, depois de quase 8 horas num ônibus, acho bem compreensível que eu estivesse com um humor pouco aprumado. Não fui feita pra andar de ônibus, gente do meu Brazíu varonil (lembrando que da última vez que tentei andar de metrô em São Paulo cheguei em casa e comecei a desenvolver sintomas da peste negra. Metabolismo aristocrata).

Fomos para um Bed&Breakfast fofíssimo em Peabody (pronunciando-se "PÍ-bari", porque a fonética de Massachussets não faz o menor sentido. O Deus WASP qui assim - reclamem com ele!).

Apaguei.

Sexta-feira. Manhã de compras (sucesso: casaco preto para substituir o velho devidamente comprado), tarde de casório. Casamento, gente... Casamento me deprime. Tenho ataques de pânico. E olha que foi o terceiro esse ano. Mas no primeiro, fui madrinha, então, estava mais preocupada em estar lindona e não tropeçar no meu Oscar dress que com o resto das coisas rolando em volta (sim, egolatria rolando solta). No segundo, o Evento do Ano, ainda estava preocupada com o vestido. E com a vida de Caras. E com bafões, em geral.

Nesse casamento, minhas preocupações foram bem diferentes. Em primeiro lugar, o casamento foi num celeiro. Dispensa comentário. Chover no molhado, tal. Falando em chuva... Estava chovendo. Torrencialmente. Eu, toda Morticia-Adams-veste-Calvin-Klein num celeiro debaixo de chuva. Vai vêno. Vocês estão rindo, eu sei. Pior que isso só ficaria se entrassem uns mímicos e tal. Ou talvez ficasse melhor. Ainda a decidir.

Mas, como faço doações a ONGs e Jesus me ama, ele me deu Guinness e Manhattans em troca. Sim, estava rolando um bar bem decente na festa, com Guinness e Manhattans (com whiskey). Muito amor para os irlandeses!

Não vou dar mais detalhes do casamento, porque casamento é um troço chato. E esse foi bem chato: à tarde, ninguém conhecido, os malas de sempre vindo falar comigo sobre o Brasil e todas as pessoas morenas e nuas que habitam minha querida Bananaland, e como - impressionante! - eu não sou "assim tão morena" e uso roupas! Me livrei de mais vergonha alheia com algumas respostas mal-educadas a comentários estúpidos. Em tempo: o rango estava muito, muito bom. A alma obesa que mora em mim curtiu.

A boa notícia é que a patacoada começou cedo, mas acabou cedo. Às 21h30 já estava dando pra ser feliz novamente e ir dormir. Aí, era só curtir o final de semana de outono na Nova Inglaterra.

A vantagem de estar perto do Boston nessa época do ano é que é tudo lindo. As folhas estão mudando de cor. Faz um frio suportável com bastante sol. Toda uma poesia. Um mundo claricelispectorado.

Só que eu tenho uma relação estranha com Boston. Tinha estado lá outras duas vezes, em estados psicológicos meio de suspensão-de-qualquer-coisa (tô bonita, tô complexa!). Sério, Boston me causa catarses estranhas, não sei bem por quê.

Fomos a Salem caçar bruxas. Pensar em Monty Python sempre faz bem à alma ("Burn the witch!"). Salem é um lugar bonito, desses em que dá muita vontade de pegar um barco e ir pro mundo (fui adolescente quando passava Dawson's Creek na TV, me julguem!). Mas aí vem as hordas de turistas e você se lembra de que aquilo ali só é uma versão Wicca da Disneylândia. E quer morrer vestindo roupas nantucket red.

O final da históra é que, a bem da verdade, eu fui para os EUA com um objetivo: comprar pipoca kettle corn, que, por pacto do governo canadense com o demônio algum motivo, não existe por aqui. Não encontrei a pipoca, e ainda voltei pro Canadá em uma DR eterna comigo mesma.

O Goommer já foi logo estranhando, achando que eu estava emotiva demais. Pode ser, amigues, pode ser. Mas prometo que isso passa. E meu coração de pedra volta lindo e radiante para alegrar suas tardes de domingo.

Pensando bem, acho que eu estou é em denial, sofrendo pela falta de pipoca boa. Alguém, porfa, me mande uma caixa de kettle corn urgentemente. Se não, juro que vou começar o próximo post citando Deepak Chopra!

jeudi 13 octobre 2011

Jonathan

Hoje foi o lançamento do livro da fofíssima Élise Desaulniers, na Galerie Nowhere, grudado aqui em casa, na Amherst. É amor de mais e bioética de menos rolando no meu coraçãozinho nesse momento.

Conheci a Élise por acaso, na semana passada. Ela é amiga do Dr. M. R., de quem sou assistente esse semestre. Depois da aula, na semana passada, todos saímos para tomar uma cerveja e bater um papo, e ela comentou que o lançamento oficial do livro dela seria essa semana. Perguntei sobre o que era o livro, tal. Quando ela me respondeu "ética alimentar", eu, com meus olhinhos brilhantes, quis saber mais detalhes. E por aí foi.

Fui lá ao lançamento, e ainda, de brinde, conheci os pais fofíssimos dela. Pra deixar tudo mais uncórnio cor-de-rosa de lindo, quando olho para a parede, onde tinha um cartaz com o nome das pessoas a quem ela estava agradecendo, vejo o nome do Jonathan Safran Foer, esse lindo que escreveu Eating Animals, um desses livros que eu comprei em pre-order, na versão capa dura, porque não poderia esperar para tê-lo um dia a mais que as outras pessoas.

Óbvio que agora estou morrendo de vontade de passar a noite lendo o livro, mas tem a Suma de Lógica do Ockham me dando cotoveladas aqui do lado. Vou ter que guardar a curiosidade para amanhã à noite...

Bom, a quem interessar possa (i.e. ninguém, provavelmente), o livro da Élise é esse aqui. Chama-se "Je mange avec ma tête: les conséquences de nos choix alimentaires". Eu sei que é em francês e meio que custa os olhos da cara (30 dinheiros canadenses) - mas quem mandou vocês serem pobres e não falarem francês? Que comam brioches, ora!

Brinks, mas quem sabe rola uma edição brasileira em breve... "Estaremos no aguardo."

Agora, vai ter que voltar a rolar uma vergonha na cara mais forte na hora de comprar comida no mercado. Porque a culpa e a demagogia acabaram de me ligar e mandaram beijos.

mardi 11 octobre 2011

Où c'est qu'j'ai mis mon flingue

Eu até poderia fazer um resumo de como vai minha vida. De como cortei meu cabelo numa oficina de bicicletas, torrei o dinheiro do mercado em roupas da Lululemon, ou de como, depois de algumas rodadas de bebidas bons drink, acordei numa segunda-feira de manhã e servi café da manhã pros dois caras que estavam na minha cama. Poderia contar também sobre minha queda na aula de aeróbica, e de como meio que tenho meu primeiro video-game desde o Atari. Poderia também compartilhar umas receitas. Ou contar que eu estou trabalhando de uma forma semi-digna (ainda que num esquema quase vietnamita) pela primeira vez em anos. Ou ainda sobre os 3000Km que eu vou percorrer nos próximos 15 dias. Sobre o Hagrid, do Harry Potter. Poderia até brincar de egolatria, vejam só!

Mas, sinceramente, do jeito que a coisa vai, estou só esperando para ver o que vai acabar primeiro: o mês de outubro ou eu.

21 days to go.

#Bjonãomeliga

vendredi 7 octobre 2011

Mimi l'ennui

Da última vez em que cortei o cabelo aqui em Montreal, já havia ficado naquela dúvida entre um dos melhores salões e uma das melhores cabelereiras da cidade. Por motivos circunstanciais, acabei indo ao tal melhor salão, o Queen of the World. Me fizeram um corte de que eu gostei bastante. Super voltaria lá. Mas sou curiosa. E (pseudo-)pobre. E preguiçosa.

Então, queria experimentar outros salões. E gastar menos do que a última vez (pensando bem, foi uma pequena fortuna - só mais barato que o tal melhor salão de NY). E um dos maiores problemas em relação à preguiça é que o Queen of the World fica lá pros lados do Jean Talon, que é meio que do outro lado da cidade pra mim.

Bom, bora experimentar essa tal cabelereira dos "cortes lésbicos" (novidades e diversidade: você vê MUITO por aqui). Vantagens óbvias:
1. É um "salão" novo: sou meio hair whore assumida. Gosto de experimentar cabelereiros novos. Sei lá. Não questionem. "Salão" (assim, entre aspas), porque o lugar na verdade é uma oficina de bicicletas. Genial, né? Agora dá pra começar a entender por que eu queria ir cortar o cabelo lá...
2. Os cortes não tem preço fixo. Você paga o quanto quiser, entre $15 e $50.
3. O salão/oficina fica na esquina da minha casa.

Bom, ceis sabem que eu moro no bairro gay. E a oficina de bikes/salão se chama Bikurious. Acho fofo. Mas também já sabia meio que o que esperar. Meio que.

Aqui em Montreal, galëre super curte cortes edgy, assimétricos, tal. Acho tudo isso muito lindo, muito anos 80-90, mas a verdade é que eu sequer tenho disciplina para pentear o cabelo todos os dias (vide incidentes como esse), então obviamente não conseguiria lidar com um cabelo que requer uma manutenção diária de mais de 20 segundos. Então, já cheguei com um desafio bem chato pra cabelereira (JJ, que também é artista!): manter a maior parte do comprimento (longa história) e me fazer um corte que não dê trabalho (mas que ao mesmo tempo tenha movimento).

Sentada na cadeira que fica num canto, perto dos capacetes, luzes noturnas e outros pequenos acessórios ciclísticos, JJ apenas borrifou meu cabelo com água (não tem aqueles lugares de lavar o cabelo, né - é uma oficina de bicicletas, sacaram?) e saiu cortando. Tesoura. Navalha. Muita navalha por toda parte.

Olhei o corte no espelho e achei ok, meio bobo, meio sem movimento, mas ok. O lance era chegar em casa, lavar e ver como tinha ficado.

Feito.

E o cabelo ficou... ca-ga-do.

O problema não foi o corte lésbico. Não foi que ficou muito aternativo. Não foi que ficou muito curto.

Ficou meio que uma mistura de assassina Courtney Love com Chitãozinho (anos 80). Tragédia, amigos. Orai.

Tem essa franja, repicada e curta que não abaixa nem por decreto (daí o Chitão), e um repicado meio estranho, com uma vibe meio cabelo de junkie que está perdendo a pelúcia por causa do crack (daí a Courtney). Mas meio capacete ao mesmo tempo. Sério, gente. Se arrependimento matasse...

Em geral, super não ligo pra cortes ruins de cabelo (tá, eu ligo, mas não tenho CRISES). Não sou dessas pessoas que choram por conta de um corte feio ou coisas assim (acho que a última vez foi na minha adolescência, porque, né, bom dia, hormônios!). Cabelo cresce de volta, sem stress.

Mas juro que dessa vez não deu pra controlar. Chorei, me descabelei (mais) e chorei as pitangas (e as madeixas) pra AC e pra Cassy, que, fofas, me deram várias dicas de como tentar domar o Chitão. Mas o cabelo ficou MUITO cagado. Naipe eu não saber o que fazer pra poder sair com esse cabelo na rua. A única alternativa viável me pareceu andar com um saco de papel na cabeça. Mas aí, pensando bem, vi que não era tão viável assim.

Maldita personalidade hair whore e acomodada!!

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Corta pra dois (três? quatro?) dias depois, entenda-se, quando eu parei o mimimi - ai, gente, hormônios - e resolvi tentar fazer alguma coisa pra dar um jeito na pelúcia. Me muni de materiais, preparando pra encarnar a hairstylist e sair ahazando. Secador de cabelo, prancha, escova normal, escova redonda e produtos para o cabelo (sério, não manjo nada - um deles era pomada o resto, um monte de coisas líquidas pra supostamente deixar seu cabelo lindo, brilhante, sedoso, exalando feromônios, enfim, promessas de felicidade em potinhos bem pequenos custando os olhos da cara).

Fui lá, toda atrapalhada, tentando usar aquela parafernalha toda. Vamos começar com o secador (esse e a escova normal eu uso com uma frequência relativamente adequada, então já rola uma quase-intimidade)... e, antes dos produtos, vamos ver qual é a da prancha e se vai rolar. E... rolou. Gente, meu cabelo passou de cagado geral a uma coisa meio assim, PJ Harvey depois da guerra (o que já tá de bom tamanho) em UM minuto. Tô gata, tô rocker. E isso antes mesmo de passar os tais produtos (coisa que, aliás, deixei pra lá - navalha de Ockham, amiguinhos).

Acho que finalmente entendi o corte e vou ter que me conformar com o fato de que eu vou ter que dedicar algo em torno de um minuto e meio à pelúcia antes de sair de casa (contra os 20 segundos originais), mas, se é pra evitar a vibe No Rancho Fundo, estou super topando!

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Tá, vamos agora voltar para um mundo onde as coisas fazem sentido e os hormônios não dominam a relação que eu tenho com essa vegetação que nasce no meu couro capilar: não está tão cagado quando eu imaginei à primeira vista, nem tão glamour quanto minha comparação com a PJ Harvey faz parecer. Mas está decente. Está dando pra sair na rua sem saco de papel na cabeça. E não está me dando tanto trabalho.

Noves fora, eu diria que saí no lucro. Acho que vou me acomodar e adotar J.J. como minha cabelereira pra vida. Tá, não. Vou voltar ao Queen of the World.  Mentira, da próxima vez vou ao Helmet. Hm. A ver, a ver.

Mas a Bikurious vai continuar sendo minha loja de bike (mesmo eu não tendo bike - ainda - aqui), porque, né, fica BEM aqui do lado...