samedi 31 décembre 2011

Savoir

Um ano de poucas coisas concretas listáveis, em listas à la kaballah, mas desordenadas e sem critério particular:

I. Shows:
1. Olivia Tremor Control
2. Stephen Malkmus & the Jicks
3. Holger
4. Peter Peter
5. Portishead
6. The Airborne Toxic Event
7. Clap Your Hands Say Yeah
(menção honrosa para o finalzinho e o bis do Arcade Fire)

II. Livros (ficção):
1. Tree of Codes, Jonathan Safran Foer
2. Diário da Queda, Michel Laub
3. White Tiger, Aravind Adiga
4. La Invención de Morel, Adolfo Bioy Casares
5. Os Verbos Auxiliares do Coração, Peter Esterházy
6. Crónicas de Bustos Domecq, Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares
7. The Marriage Plot, Jeffrey Eugenides

III. Viagens:
1. Québec
2. Chicago
3. Buenos Aires
4. Santiago
5. Valparaíso
6. Toronto
7. Paraty

IV. Restaurantes:
1. DNA, Montreal
2. Au Pied de Cochon, Montreal
3. The Bedford, Chicago
4. D.O.M., São Paulo
5. Aqui Esta Coco, Santiago
6. Bluestem, Kansas City
7. Rëd Resto & Lounge, Buenos Aires

V. Universidades:
1. UQAM, Montreal
2. McGill, Montreal
3. UQTR, Trois-Rivières
4. Dominican University College, Ottawa
5. Université Laval, Québec
6. Fordham University, NY
7. PUC-SP, São Paulo

VI. Álbuns:
1. LCD Soundsystem, This Is Happening
2. The Airborne Toxic Event, The Airborne Toxic Event
3. Pulp, Different Class
4. Coeur de Pirate, Coeur de Pirate
5. Peter Peter, Peter Peter
6. Camera Obscura, Let's Get Out of This Country
7. The Magnetic Fields, 69 Love Songs

VII. TV (na TV, em DVD ou via web):
1. It's Always Sunny in Philadelphia
2. A Bit of Fry & Laurie
3. In Treatment
4. Curb Your Enthusiasm
5. En Audition avec Simon
6. The Great Food Truck Race
7. Top Chef Masters

Bye, babes! Até 2012! Bjomeliga.

Le compteur

A Cassy provavelmente me diria que isso tem a ver com retorno de Saturno, ou qualquer-coisa-de-Mercúrio, ou alguma dessas coisas em que eu talvez até acreditasse, se não tivesse que parar pra pensar a cada vez que alguém me pergunta qual é meu signo. É que o meu balanço de 2011 (e também não acredito em pessoas que fazem balanço, mas é o zeitgeist da última semana de dezembro, fazer o quê?) é um balanço relativo a 2010 e 2009, também conhecidos como anos do demônio. Porque 2011 foi um ano em que eu:

- enchi um caminhão de coisas e atravessei a fronteira;
- mudei fazendo a Carlota Joaquina;
- morei em 4 apartamentos: em 2 mais que nos outros 2;
- não tive pensamentos suicidas;
- levantei da cama todos os dias;
- sorri todos os dias (embora em uns mais que em outros);
- tive gatos;
- vivi o mês de março de maneira razoavelmente saudável;
- concordei em conhecer gente nova;
- corri muito (no sentido literal);
- me desafiei psicologicamente;
- voltei a comer (comer de verdade);
- voltei a beber (também de verdade, e às vezes demais);
- viajei sem planos detalhadamente calculados em planilhas Excel;
- viajei freestyle, e com companhias diferentes a cada vez;
- aprendi a andar de bicicleta;
- comprei uma bicicleta (...);
- salvo por uma gripe, não fiquei doente;
- curti endorfinas mil;
- aproveitei o inverno;
- disse "não";
- disse tudo o que eu tinha a dizer;
- passei muito, muito tempo em aeroportos, em estações de trem e no carro, para ver as pessoas que eu amo;
- não telefonei para quem não deveria, na hora em que não deveria;
- vi menos TV;
- comprei menos;
- julguei mais;
- fui a shows;
- trabalhei em coisas que faziam sentido;
- consegui manter a auto-ironia;
- fiz tudo fora de horário;
- fui uma boa amiga para algumas pessoas;
- tive tempo;
- dormi;
- deixei de dormir pelos motivos certos;
- conspirei mais;
- briguei menos;
- deixei os analgésicos na gaveta de remédios;
- conversei com as pessoas até não ter mais assunto;
- abandonei algumas obsessões;
- não usei protetor solar.

lundi 26 décembre 2011

Le Père-Noël noir

Natal ao sul do Equador. Ou seja, óbvio que eu a reclamar de quase tudo: de ter que viajar mil horas e ter que lidar com aeroportos superlotados, de, depois, ter que pegar estrada por mais 6 horas, de ter que lidar com a serra fluminense...


Ter que lidar com o calor de um bilhão de graus, com quantidades exorbitantes de comida - e com o preparo dessa comida toda em um calor de um bilhão de graus, parentes chatos e inconvenientes, insetos, cachorros e outros animais não-racionais (alguns familiares incluídos).

Tudo isso sem o menor sentido. Não trabalho Papai Noel, nem menino Jesus (aliás, aqui em casa tem um presépio esquizofrênico com DOIS meninos Jesus! - WHAT??). E a família, a essas alturas já está reduzida àquele mínimo, que já não tem sentido reunir. Mas aqui vou eu, para o programa de índio do século.

Momentos mais belos e aconchegantes desse último Natal, em flashes rápidos:

- Minha mãe, na parada da Dutra, perguntando se tinha água tônica diet;
- Picolé de milho verde;
- Minha mãe, na vendinha da esquina, peguntando qual a marca do queijo prato;
- Eu chilicando porque queria ovos caipiras no bacalhau;
- Meus tios, muito amor, que compraram Bohemia e Stella Artois para mim, e vez de qualquer outro xixi em lata.
- Titia, que ainda emendou uma garrafa de sauvignon blanc;
- Minha prima querida, que me trouxe bolo de laranja da Pavelka;
- Eu não ajudando na cozinha porque tinha provas a corrigir;
- Eu dando o braço a torcer, ajudando na cozinha e me entupindo de rabanada quente;
- Eu não comendo os ovos que estavam na comida porque não eram caipiras;
- Eu ganhando a bola suíça que queria faz tempo de amigo oculto;
- Eu literalmente vomitando de tanto comer (esse, fato inédito e, provavelmente, meu grande feito do ano);
- Gente que acha que eu não tenho espelho em casa me dizendo que eu engordei;
- Galëre rezando (Ave Maria?) e eu me recusando a (desbaratinando e indo pra cozinha tomar água);
- Galëre indo ao cemitério e eu me recusando a;
- Eu dando chilique, dizendo que um certo indivíduo pelo qual as pessoas da família nutrem algum carinho é um criminoso e que deveria estar na cadeia;
- Galëre falando de CQC e Pânico, enquanto eu e meu primo falávamos de bandas indie, calendário maia e dilema do prisioneiro;
- Eu, com fumacinha saindo pela cabeça, no carro, voltando pra SP, me prometendo que eu nunca mais volto pro Natal nesse esquema.

Ou seja, os anos passam, mas, fora meu acidente gástrico, absolutamente nada muda.

Happy Festivus for the rest of us!

jeudi 22 décembre 2011

Les charognards

E daí que eu amo chegar em SP, apesar das quase 24 horas em trânsito, e de ter gastado todo o meu pobre dinheiro fazendo minhas compras de Natal no aeroporto, já que não tive tempo de fazer isso decentemente em Montreal. Amo porque meus amigos aqui são todos dementes.

Ano passado, mal desembarquei no aeroporto e galëre já estava passando aqui em casa pra me levar pro show do Latino. É muito amor! Você está lá, querendo ficar numa boa, curtindo em casa, colocando o sono em dia, mas pessoalzinho insiste no pé-na-jaca trash. E quanto mais trash melhor, obv (show do Latino sendo o ponto alto da vida!)

Esse ano, não teve mega-evento. Mas, como eu cheguei na quarta-feira e perdi a tradicional Guinness de segunda, fui intimada a comparecer no churrasco de quarta-feira na Casa da Barbie (casa do TOk). Tudo teria ido super bem, num esquema super light, não fosse pela demência dos envolvidos.

Já desisti de me ofender com o "bacon", e, a essas alturas, o "50 kilos" é elogio...
E o autocorrect do iPhone do Goommer é uma merda, aliás.

Bom, o vinho aí da mensagem estava lá como prometido. Quatro garrafas de Pinot Grigio rosé (e o Goommer sempre sabe escolher os melhores rosés). Acompanhados por dois barrizinhos (barrilzinhos?) de Heineken, de 5 litros cada, um 6-pack de Bohemia, algumas latinhas avulsas de Heineken e uma garrafa de Cuervo añejo. Que fique claro que eu não trabalho Heineken nem Cuervo, mas meus amigos praticam bullying desse jeito.

A quantidade de bebida teria sido super ok, se houvesse umas 15, 20 pessoas no churrasco. O problema é que éramos 5...

Bullying em forma de garrafa e copo.

Todos os graus do mundo sendo marcados no termômetro. Bebidas geladas (exceto, obv, a tequila). Isso não tinha como acabar bem. Fiquei surpresa que, dessa vez, ninguém queimou a largada. Mas eu, heroína, fui a última pessoa a ir embora da casa de TOk.

Nesse ritmo, já dá pra ver que a festa de ano novo vai ser longa. Isso se a gente sobreviver até lá. 

Ultimate playground mode: on.

mercredi 21 décembre 2011

Leonard's song

Contrariando (ou seria parafraseando?) o Jason Pierce, digo que, afrontando todo mundo, que quer ser e ter Leonard, "all I want in life is a Mitchell Grammaticus". Se vira com essa, Papai Noel.


(Sim, eu praticamente inventei períodos longos e excessivamente subordinados.)
(Crianças: mais Jeffrey Eugenides, menos DFW.)

mercredi 14 décembre 2011

Laisse béton

Tempo livre a gente não está trabalhando. Mas está tudo bem. Galëre está meio preocupada com o teor dos últimos posts, mas eu não estou tendo tempo de escrever sobre algumas das loucuras engraçadas que tem acontecido, então, ficam só os posts ultra-reflexivos. Mas sem pânico. Estou me divertindo (na medida do possível e extrapolando um pouco os limites desse), comendo (o que é importante, mas que às vezes esqueço de fazer), e o albergue espanhol onde eu moro continua o de sempre, então tem jantares e quase-festinhas aqui 3 vezes por semana. O sono está meio defasado, mas isso a gente cuida quando chegar na Terra do Pecado.

Enquanto isso, a única coisa que tenho a dizer é que meu relógio parou (= a bateria morreu) tem quase uma semana. E meus dois relógios reserva (sim, eu sei...) estão igualmente sem bateria. Em circunstâncias normais (bom, normais para mim), eu teria parado minha vida pra ir trocar a bateria do relógio. Ou minha cabeça já teria explodido. Mad como não tive tempo nem paciênca para ir procurar um lugar pra trocar a bateria do relógio, estou andando sem ele. Acho que uso relógio impreterivelmente todos os dias desde os 5 anos e confesso que, nas primeira horas sem, fiquei à beira de um ataque de nervos. Depois que consegui superar a ansiedade inicial, contudo, acabei me dando conta de que não usar relógio tem sido um das experiências mais libertadoras da minha vida (aí vocês se dão conta da complexidade em que vivo).

Eu sei que hoje em dia as pessoas tem substituído relógios por celulares. Mas ODEIO usar o celular como um equivalente de um relógio de bolso (embora ultimamente isso se tenha feito necessário algumas vezes).

Minha rejeição é tão grande, que eu meio que tenho me conformado em chegar atrasada aos lugares.

Tipo hoje. Acho que só cheguei na hora para almoçar (e mesmo assim isso não deu muito certo - outra história, para outra ocasião), porque comida é prioridade, sempre, mas me atrasei para minha reunião do meio da tarde, me atrasei para pegar as provas que tinha a corrigir, deixar um caderno de uma aluna com a secretária do departamento e, finalmente, para o jantar que estava rolando aqui em casa.

Quem está prevendo que a epítome disso será eu perdendo meu voo para SP na semana que vem e fazendo repeteco de 2001 põe o dedo aqui...

Oublie pas

Parte I - That killed me.

Fui almoçar com uns colegas da faculdade. Nesse grupo, tem até umas pessoas legais, mas eu tenho dificuldades em lidar com pessoas que: não sabem que é Stephen Hawking, tentam me ensinar sobre vegetarianismo/veganismo (oi?, eu era a única pessoa na mesa não comendo carne - get a clue!), falam sobre memes de 5 anos atrás, acham bonito esse revival da importância do casamento, e acham sopa vietnamita a coisa mais gostosa do mundo.

Hoje, finalmente, algumas meninas desse grupo entenderam que eu não era québecoise (depois que eu disse que ia passar o final de ano com meus pais no Brasil). Dado o meu sotaque e minha clara dificuldade em pronunciar algumas palavras, não sei por que elas ficaram tão chocadas ao saber que eu era estrangeira. Fiquei me perguntando se elas achavam que eu tinha aprendido a falar com surdos.

Em todo caso...

Depois do almoço, passei em uma das minhas lojas favoritas no Vieux-Port para comprar alguns presentes. Fiquei contente por ter achado alguns presentes que provavelmente vão ser perfeitos.

Mas é óbvio que, como sempre acaba acontecendo, eu acabei comprando várias coisas para pessoas para quem eu não necessariamente teria que ter comprado nada, e esqueci/não tive a menor inspiração/paciência para comprar presentes para as pessoas para quem eu DEVERIA impreterivelmente comprar presentes (a saber: meu amigo secreto, meus pais, o Ben etc.).

E, sendo que amanhã começa a corrida infernal contra o tempo, para eu terminar todo meu trabalho e preencher toda a papelada antes de viajar, não vou ter tempo sequer de pensar em sair para fazer compras nos próximos dias.

Estou vendo que o Duty Free do avião (não trabalho com o do aeroporto) vai salvar minha vida.

ODEIO fazer compras de Natal. Odeio ter que comprar presentes por obrigação para poder celebrar uma coisa na qual eu sequer acredito! Mas vou deixar para questionar os costumes ocidentais em outra vida. Nessa vida, é provável que eu vá, plenamente resignada, sair correndo pela Ste.-Catherine na segunda-feira à noite, procurando presentes de última hora.

(#H.C.mode: on - full blast)


---------------------------------------------------------------------------
Parte II - Aqueles tempos em que:

A gente pegava táxis às 3 da manhã, e eu sempre caía do táxi na porta de casa, rasgava minha meia-calça bem no joelho, e ainda quase perdia meus sapatos. Você passava na minha casa no meio da tarde, só para me entregar um 12-pack de Guinness, que você conseguiu impossivelmente achar na loja no final da rua. Ou você passava sem motivo aparente (e sem Guinness), e sem querer me acordava, porque eu tinha acabado de pegar no sono acidentalmente enquanto lia Hegel. A gente sempre ia ao cinema, mas era quase sempre eu quem escolhia os filmes, porque eu nunca confiei em você para isso. E você vinha para minha casa assistir a outros filmes comigo, e eu te assustei logo de cara com Haneke, Bergman, von Trier, Vinterberg e Fellini. Eu fazia ioga. Eu te encontrava depois da ioga e te acompanhava até sua casa. A gente ia ao Jardim Botânico e tinha um banco nosso, na sombra. Você nunca me dizia o que fazia aos sábados à tarde, quando você desaparecia. Depois, eu nunca te dizia o que fazia às sextas-feiras à noitinha, quando nunca estava em casa, e meu celular estava sempre desligado. Eu te levei para ver a Nona do Beethoven. A gente sempre pegava o trem e as luzes daquele loft no Harlem ainda nos lembravam dos Thundercats. Você sempre respondia que sim quando eu perguntava se você queria entrar. Mas você sempre ia embora depois. Ir para Westchester era sempre uma possibilidade. O tempo sempre estava frio ou quente demais para o meu gosto. Eu não reclamava de ter que andar pelo Village. Você não reclamava de ter que ir até o Village. Você me perguntava por que eu tinha escrito as coisas que escrevi nas fotos na minha parede. Eu não te respondia a verdade quando não gostava das perguntas. Eu nunca te perguntava nada. Você não sabia quais eram minhas flores favoritas, mas eu te disse que os cravos eram as novas rosas. O meu telefone tocava o tempo todo, e eu nunca atendia. Você tentava me ajudar a arrumar um emprego. Eu tentava cozinhar. Você me mandava mensagens de texto. Eu não reclamava de ter que falar ao telefone. A gente se encontrava na lavanderia e assistia à neve equanto esperava a roupa lavar. Eu cumpria as minhas promessas. Você não odiava surpresas. Eu adorava deitar na grama no Central Park. Você morava a três quarteirões da minha casa. E eu sabia exatamente o que comprar para você no Natal.

lundi 12 décembre 2011

Si t'es mon pote

ou: como fazer amigos em 12 meses e 12 passos.


1. Se conheçam em uma situação corriqueira, que pareça altamente intelectual para o resto do mundo (ver: um grupo de estudos de uma língua morta - demais participantes doravante denominados "Grupo1").
2. Tentem conversar. Não se entendam. Fracassem. Meio que.
3. Se encontrem esporádica e socialmente com as pessoas do Grupo1. Solidarizem-se tacitamente.
4. Se encontrem socialmente sem a companhia das pessoas do Grupo1. Finalmente conversem. Conversem abertamente sobre os problemas do Grupo1.
5. Vão a shows. Vários shows.
6. Conheça os amigos e conhecidos da pessoa, doravante denominados "Grupo2".
7. Tenha interações corriqueiras e absurdas com Grupo2 (possibilidades de interação incluem: convites para confraternizações na sua casa, destruição de propriedade, ofensas em vários níveis, e sexo; homicídio não é recomendável) como forma de entretenimento mútuo.
8. Conversem sobre um número extremamente limitado de assuntos (ver: quatro, incluindo Grupo1 e Grupo2), repetidamente, a cada encontro.
9. Comam. Comam muito. Façam refeições que se transformam em passeios gastronômicos de 36 horas e algumas dezenas de quilômetros. Subsequente cooptação de umbigos: opcional.
10. Não usem meios normais de comunição (telefone, e-mail). Decidam que a campainha é o meio de comunicação mais apropriado.
11. Morem a menos de 20 minutos a pé um do outro, mas estabeleçam que é aceitável que um durma na casa do outro meio que sempre, como se tivessem 15 anos a menos que realmente tem.
12. Passem a tarde juntos. Passem o dia juntos. Passem a tarde e a noite juntos. 24 horas. 36 horas. 48 horas. Ok, comprem metadona.

vendredi 9 décembre 2011

Chanson dégueulasse

Estava lá, quinta-feira à noite, como sempre, trabalhando na faculdade, na aula em que sou auxiliar de ensino. De repente, recebo uma mensagem do Ben, pedindo para eu ligar para ele assim que pudesse.

Geralmente, o Ben só me liga e me manda mensagens meio que do nada à noite quando é pra me convidar para alguma festinha ou jantar de última hora. Achei estranha aquela mensagem com senso de urgência e liguei logo de volta.

Ele queria saber se eu estaria em casa hoje durante o dia porque...

Um dia eu chamei esse lugar de banheiro

Bom, porque o cano de água quente do banheiro estourou, o que só descobrimos quando a viinha de baixo veio reclamar que estava chovendo no banheiro dela. O proprietário do apartamento tinha ficado de passar aqui hoje, em algum horário, com um encanador para trocar o cano.

A cordinha também foi bem pensada para direcionar o vazamento

Enquanto isso... nada de água quente! Ainda bem que só está -2 graus lá fora. Para poder tomar banho, a gente improvisou um remendo do cano (e, na pior das hipóteses, eu também poderia ir tomar banho na academia), mas e a pilha de louça pra lavar na pia da cozinha???

Lavar louça com água gelada ia ser uma delícia! Mas, é, pra isso não teve jeito. Quando a sensibilidade da ponta dos meus dedos voltar, eu aviso. Estou digitando isso aqui sem sequer sentir o teclado.

Delícia, amigues. Só espero que os consertos aqui rolem mais rápido que no Bronx (onde eu fiquei umas 2 semanas com uma água quente capenga, uma vez, e dois dias com o cano da cozinha estourado). Mas algo me di que há muito mais amor por aqui do que jamais houve no Bronx. Espero que a ironia nao apareça pra me dar um tapa na cara. Oremos.

mercredi 7 décembre 2011

Un nouveau jour est pour demain

Tenho algumas crises de misantropia de vez em quando (e, como sou humana, elas também são auto-referentes), em que eu fico alheia do mundo por um tempo. Alheia estilo: não telefono. Não retorno ligações. Não respondo a e-mails. Não atendo a campainha. Não abro a correspondência. Quem passou pela minha vida em 2009 meio sabe disso. Quem estava lá nos primeiros 5 meses de 2010 sabe disso como ninguém (ou não sabe muito bem, mas, enfim).

Recentemente (i.e. nos últimos 12 meses), no entanto, à exceção de um dia ou outro, tenho estado numa vibe muito simpática. Fato é que eu consegui me conformar com o fato de que eu consigo desenvolver um mínimo de empatia com as pessoas. Eu sou relatable às vezes, vejam só! Estou ursinhos-carinhosos. Uma fofura maior do mundo!

E aí eu não sei bem o quê disso aí é causa e o que é consequência das conversas quase diárias que eu venho tenho com a Juju.

A Juju é uma das pessoas mais queridas do mundo. E é louca de pedra, óbvio. De precisar de camisa-de-força, tal. E não, ela não é uma amiga imaginária. Ela é de carne osso e vai ler isso aqui e me dar razão.

Eu não sei muito bem quando nos conhecemos, mas deve ter uns oito anos. Aliás, acho que ela tem a imagem de quando nos conhecemos bem mais clara na cabeça do que eu. Eu lembro que um dia tinha essa menina toda fofinha, com um visual Vandinha-Addams-do-bem na aula, e é meio que isso. Fim. A versão dela é melhor (vamos ver se eu vou conseguir lembrar de todos os detalhes): ela adentra a fatídica aula de epistemologia que iríamos fazer juntas e, segundo ela, dá de cara com um furacão loiro (no caso, eu), com o sapato de salto alto (sim, sou paulistana, amiguinhos!) combinando com a bolsa de mão, combinando com a bolsa de livros, combinando com a calça, combinando com a blusa, combinando com relógio, combinando com brinco etc. (me pergunto se nessa época eu ainda usava óculos e se eles também combinavam), toda cheia de tititi tentando organizar a venda dos livros que seriam usados para o curso (a saber, o livro recém-publicado de professor que ministraria o curso, que era meu orientador na época). Até hoje eu ainda não entendi se ela achou aquilo engraçado, trágico ou surreal (estou apostando no terceiro), mas fiquei encantada ao descobrir, há poucos meses(!), que a pessoa se referia a mim como o "furacão loiro". É muito amor, né.

(Também não sei que é essa coisa de as pessoas me acharem loira. Vivo desmistificando isso no twitter, por exemplo. Geral acha que eu sou loira - será que falo tanta besteira assim? Mas pessoalzinho na República das Bananas vive me chamando de loira. Tá, eu concedo que eu não seja morena-cor-do-pecado, mas meu cabelo é castanho, galëre. Menos, né.)

Bom, considerando que a pessoa se referia a mim usando termos derrogatórios (ela diz que não tinha juízo de valor, era pura constatação dos fatos, mas, convenhamos, hein), é desnecessário dizer que não viramos BFF naquele instante. Nem sei ao certo quando começamos a nos falar. Vou precisar da confirmação dela, mas imagino que tenha sido quando ela começou a ficar amiga de uma outra das pessoas mais queridas do mundo para mim, doravante denominado Finado. Ou teria eu apresentado Juju ao Finado e eles ficaram amigos depois? Hum, agora não sei. E Juju bem sabe que a memória sempre me falha...

Mas acho que começamos a ficar mais próximas mesmo quando eu já estava em NY, quando Juju entrou para a comissão de organização do Encontro dos Infernos, e, o que foi meio simultâneo, quando ela assumiu meu cargo de assistente logístico-existencial para garantir a coesão e a harmonia entre os membros da Seita Filosófica da qual eu fazia parte (e da qual eu fugi). Aí, a gente começou a trocar mais e-mails a acabamos nos encontrando mais pessoalmente também, a cada vez que eu ia para SP.

Mas o processo não foi tão simples. Se, na vida real, eu tendo a ser uma pessoa um pouco intolerante e grossa áspera, por e-mail meu tom é quase sempre... brusco. Lembro que um dia, eu um thread de e-mails do Encontro dos Infernos, depois de ter minha paciência esgotada por 3749 mensagens especulativas quando o que se fazia necessário era alguém levantar a bunda da cadeira e agir, eu mandei um e-mail-resposta à última mensagem, que tinha sido justamente da Juju, dizendo basicamente isso (mas em outras palavras, não sei se mais ou menos rudes). Juju me manda um e-mail todo coração-partido, achando que eu estava ultra-rodando-a-baiana. Ela não sabia até então que esse é meu estado normal para questões organizacionais. Aí mandei um e-mail me explicando, pedindo desculpas... porque coitadinha. E aí, fizemos as pazes e viramos BFF???

Não, né. Porque isso aqui não é filme da Nickelodeon.

A coisa da gentileza durou pouco. Porque aí ela viu que eu era assim, essa pessoa delicadinha que eu sou (só que ao contrário). E ela percebeu que poderia ser igualmente escancarada nas coisas que ela me fala. E é por isso que, hoje em dia, ela faz as vezes do meu superego: é ela que me manda dormir quando eu estou há 3 dias sem pregar os olhos, que me manda ir à depilação quando eu justifico a preguiça com feminismo, que me manda tomar ENO quando estou passando mal do estômago...

Mas, como ela não é perfeita, também é ela que me manda séries de e-mails desesperados e alarmistas, que quase me fazem morrer do coração, que entra numas pirações maiores do mundo por causa da Seita Filosófica, e que só sai de casa na sexta à noite se eu telefonar vinte mil vezes, der bronca e fizer ela prometer que vai pôr uma roupa nova bonita e tentar aproveitar a vida. Mas ela nunca me escuta. Ela me ignora e faz montes de coisas estúpidas, tipo comprar um cachorro (comprar um cachorro não é algo tão objetivamente estúpido, mas dadas as circunstâncias nas quais ela fez isso, estúpido é até eufemismo).

Ela não é perfeita, mas ela é minha Barbie tamanho-real (aliás, real mesmo, já que ela não é miniatura, que nem eu, mas sim uma pessoa de tamanho real, com bem mais de 1,70 de altura - 1,75? 1,78? Nunca lembro...). Brinquei de Barbie com Juju em julho, nos preparativos para o Evento do Ano. Fomos comprar roupa, sapato, fazer as unhas... E acho que o Projeto Juju foi aprovado, não? Eu fui a Fada Madrinha mais orgulhosa do mundo!

Agora vai começar a parte 2 do projeto. Mas antes disso (e entrando na fase preparatória), ficam aqui todos os bons desejos do mundo à Juju, e o principal deles: menos Susanita, mais furacão moreno (não fica loira, porque você é linda morena-Vandinha Addams).

Desenchantée

**alerta de jabá**

A Joyce, irmã fofa da Juju, é uma das pessoas mais queridas que lê meu blógue. E agora, ela tem seu próprio blog (olha eu, fazendo amigos e influenciando pessoas!).

A Joyce é uma lindinha, quase dez anos mais nova que eu (!), e está escrevendo sobre maturidade, e o que ela significa. Nesse caso, eu definitivamente não sou uma boa influência, mas enfim. Vão lá e LEIÃO!

samedi 3 décembre 2011

Toute seule à une table

Sábado de sol. Um frio de fazer xixi em cubinhos, mas um dia lindo, céu azul e sol. Resolvi dar uma de @vitorfasano (uau, que 2008!) e "me curtir". Isso logicamente foi muito mais fácil porque ontem (dia feio, de chuva), como tive que ir ao meu escritório, me arrastei um pouco mais até a livraria e comprei o livro novo do Jeffrey Eugenides. Pronto! Já tinha companhia para o final de semana. E o plano era ficar trancada em casa, lendo. Mas o dia estava bonito demais hoje.

Coloquei o Eugenides na bolsa e saí, meio que sem destino. Estava frio demais para ir ler no parque (desde o início de novembro tem estado frio demais para ir ler no parque, aliás), então, fui procurar um café ou um restaurante. Pensei em alguns aqui perto, na Amherst, mas depois me animei a subir até o Plateau (e aproveitar para já comprar suprimentos para o jantar de terça-feira).

Parei no Le Passé Composé para um brunch.

Tem muita gente que me fala que não entende como eu tenho coragem/disposição para sair para comer ou ir ao cinema sozinha. Mas juro que às vezes a máxima do "antes só que mal acompanhada" se aplica. Duas coisas que eu odeio muito na vida: gente dando palpite no que eu estou comendo/bebendo e gente que quer comentar o filme enquanto o filme está passando ou logo depois de subirem os créditos. Eu preciso de tempo para apreciar minha comida e digerir meus filmes (só discuto filmes depois de, no mínimo, 18 horas).

Eu me lembro de um date que tive uma vez. Deve ter sido o pior do mundo, pensando bem (eu deveria ter notado ali que a coisa ia dar muito errado, mas na época eu era burra e deixei rolar). Faz um tempão, uns 6 anos, por aí. Fui assistir a um Dogma qualquer ou coisa que o valha na Sala Cinemateca (Brothers, talvez? Dear Wendy? É, acho que era Dear Wendy. Não... enfim.) com esse sujeito. Antes, fomos "tomar um café" (eu-não-tomo-café-vou-tomar-um-chá). Peço um earl grey. A mocinha me entrega a xícara com a água quente, o saquinho de Twinings e... "Açúcar ou adoçante?" "Não, não, obrigada. Só isso mesmo." Ao que o sujeito intervem, "Mas é earl grey. Você não vai por nem açúcar nem adoçante?" "Não." "Mas não se toma earl grey sem açúcar!" "Eu tomo." Whatthehell, né. A pessoa de repente é a Scotland Yard do earl grey. Só faltou enfiar uma rodela de limão siciliano na minha xícara à força. Tomei, enfim, o raio do meu chá, puro, como queria. E a pessoa espantada.

Vamos para o filme. A pessoa não para de falar allthefuckingtime. Tipo, amigo, vamos fazer um acordo, tá. O filme tá rolando. O filme é do Vinterberg/Susanne Bier/sei-lá-eu e eu estou querendo curtir (vulgo: entender). Dá pra fechar o bico?

Vontade de estapear a pessoa. Qualquer boa alma que já tenha passado por algo similar sabe o quanto é bom sair sozinha, às vezes. E, bem, não estava sozinha. Estava com meu Eugenides. E minha xícara de earl grey, sem açúcar, nem adoçante.



O brunch estava ok. Comi algo como ovos benedict com foie gras. Estava até bem gostoso, mas chegou meio frio (outro pet peeve monstro meu). De lá, segui dando umas voltinhas, até chegar na lojinha portuguesa onde eu fui comprar os suprimentos.

No caminho, fiquei pensando em quanto tempo faz que eu não vou ao cinema (3 meses), e como eu nunca fui ao cinema aqui em Montreal (e meio que não pretendo). E que o filme Virgens Suicidas, baseado no primeiro livro do Eugenides é bem ruim. E o livro é tão bom. Aliás, os filmes da Sofia Coppola são todos bem ruins. É, o cinema é a menor das artes. Algum amigo meu vivia dizendo isso. Quem era? (não lembro, mas concordo) O Middlesex é um dos melhores livros que eu já li. E o que aconteceu com o meu My Mistress's Sparrow Is Dead? Será que está em SP? Será que eu dei para alguém? Tem um conto nesse livro que é um dos contos mais bonitos do mundo. "Tonka", do Robert Musil. Todo mundo gosta de falar do "The Dead", do Joyce, que entrou nessa coletânea também, mas o conto do Musil é tão, mas tão mais violento para a alma! E Joyce é hiperestimado, de qualquer forma. Por que o Eugenides não escreve mais livros, com mais frequência? Hm, talvez seja por ele não ser tão rápido que ele seja tão bom. E ele ganhou o Pulitzer, né. Se eu ganhasse o Pulitzer eu também ia curtir, deixar meus capítulos maturarem antes de mandar pra editora, afin--

Esse foi mais ou menos o fluxo de consciência que aconteceu dentro da minha cabeça entre pagar minhas compras no caixa, sair da loja e esbarrar com o Max ("Oi!! Tudo bom?" "Tudo bom! O que você está fazendo por aqui?" "Compras..."), na esquina da Duluth com a Saint Hubert. Só porque outro dia mesmo reclamei dessa falta de esbarrar com pessoas acidentalmente por aqui.

Dias de sol e frio são, por definição, cheios de ironia.

vendredi 2 décembre 2011

Y'a t'il quelqu'un ici?

ou: "Not until something happens and you laugh when you were supposed to cry"

Tenho estado (virei?) estóica ultimamente. (Estoica? Perdi o fio das palavras que perderam o acento com a reforma ortográfica...) De um jeito quase assustador. Claro, eu tenho crises constantes e reclamo de praticamente tudo na vida allthefuckingtime. Mas, falando de coisas que realmente importam. As grandes coisas da vida. Pra essas, acho que perdi a sensibilidade ultimamente. Não de propósito, eu acho. Mas perdi.  E não encontrei mais.

E não é por falta de tentar. Tentei. Tentei mesmo. Coloquei músicas de cortar os pulsos. Tentei escrever sobre todas as coisas realmente complicadas. Tentei reler pela vigésima-nona vez o livro que é minha bíblia da redenção. Nada funcionou. Continuei inabalada numa vibe meio psicopata. Me deu um pouco de medo de mim mesma. Até que.

Até que na noite de terça para quarta-feira, meio que sem motivo aparente, eu passei muito, muito mal do estômago, coisa que raramente acontece comigo. Ao contrário da maioria das pessoas à minha volta, tenho um estômago de avestruz. (Mas uma vez por ano, inevitavelmente, passo mal - acho que a vez foi essa, para o meu azar, porque tinha um monte de coisas pra fazer na quarta-feira.)

A única explicação possível para essa convergência de fatos (epifania?), está em algum lugar desse texto, uma das coisas mais interessantes e bonitas que li nos últimos tempos.

A outra única explicação possível é que eu tenha sido atropelada por um caminhão chamado karma. Mas eu gosto mais da primeira alternativa, que é lírica de um jeito menos clichê.

A cura para meu estoicismo eu até sei qual é, e envolve um deslocamento até a livraria. Vou resolver isso dentro de algumas horas e começar a regurgitar sentimentos. Mas para mim mesma, porque esse blógue não é lugar para tantas divagações existenciais (não as de verdade).

Por outro lado (paradoxalmente? consequentemente?), em todo meu estoicismo, até que eu tenho sido razoavelmente simpática e tolerante com as pessoas (vide: terça-feira à noite). Estranho, mas meu estoicismo pode estar me levando a desenvolver virtudes que eu jamais imaginei que pudesse ter, nem mesmo em potência. Orgulho aristotélico define.

Mais sobre isso quando eu tiver me recuperado completamente dessa coisa que incapacitou meu estômago e, possivelmente, meu cérebro. Até lá, recomendo que vocês desenvolvam a virtude mais mal-estimada (às vezes hiper, às vezes sub) de todas: a paciência.

(Tá, na verdade esse post foi só uma desculpa pra eu linkar esse texto do Thought Catalog aí e amenizar a vibe ursinhos-carinhosos que vai rolar solta nos próximos dias. Porque às vezes eu sei que eu devo ser grossa com algumas pessoas, mas smplesmente não consigo. Paradoxo do estoicismo de banca de jornal? Mas não mudem de canal. Prometo que a programação vai dar uma guinada mais interessante em algum momento. Em breve. Quem sabe até faço um post inspirado no "Você Decide", para animar o pessoal...)

lundi 28 novembre 2011

La Java sans joie

Agora que uma quantidade de tempo suficiente passou, posso escrever esse post de maneira menos angustiante. Então, vamos.

Tinha uma pilha enorme de provas e trabalhos pra corrigir. Enorme MESMO. Foram 98, no total (31 provas - estilo redação - de até 5000 palavras cada, e o restante, trabalhos de, em média 15 páginas com espaço simples). Tinha muita coisa muito ruim. E pouca coisa boa, óbvio. Mas não faz o menor sentido eu reproduzir algumas das besteiras que alguns alunos escreveram, porque, sério.

E isso só representa 2/3 do que eu tinha a corrigir


Mas se faz necessário dizer que tem alguns alunos que abusam do direito de fazer coisas estúpidas com o layout do trabalho,

tipo entregar um trabalho
com o texto inteiro centralizado
disposto da maneira mais esdrúxula possível 
na página, com
magens que não faziam o menor sentido.



Ou um outro aluno, que faltou às aulas introdutórias de Word e, não sabendo configurar

As linhas para espaço duplo, pulou as linhas manualmente, o que fez com que o Word

Automaticamente colocasse em maiúscula a primeira palavra de *todas* as linhas do

Raio do trabalho, mesmo que elas não começassem uma nova frase. Uma delícia de

Ler. Parecia um poema construtivista meio esquizofrênico. Juro que me deu dor de

Cabeça.




Teve uma outra fofura que teve coragem de fazer isso:

Sim, isso (o de cima) é um trabalho impresso em fonte Comic Sans

Como assim, meldels? COMO ASSIM? Você odeia TANTO seu professor assim? Não é possível. Como alguém disse, me entregar um trabalho em Comic Sans seria plenamente aceitável se eu tivesse matado seus pais. Do contrário, Times New Roman, Arial ou Calibri são o suficiente para fazer meu coração encher de alegria.

Parece não haver redenção no mundo.

Por outro lado, tive uma aluna que, em uma nota de rodapé, deu um exemplo citado a Mafalda (sim, aquela do Quino), com um comentário de que ela esperava que aquilo fizesse o corretor da prova sorrir. Talvez a ficha não tivesse caído para a maioria das pessoas (não sei o quanto a Mafalda é popular no Canadá), mas fez total sentido para mim. Desses momentos que compensam todos os Comic Sans do mundo.

É bom ter mais gente citando Mafalda daqui pra frente. Porque no mês de dezembro mais provas e trabalhos virão. Alerta de momentos ~TENSOS~ pela frente.

dimanche 27 novembre 2011

Arrêter la clope!

Pra não dizer que meu superego está morto (nem em coma), mas que ele se encontra em um estado de tetraplegia temporária (bom, eu espero que seja temporária, se não...), a única coisa que eu tenho a dizer a meu favor é que, apesar de tudo (e olha que o "tudo" está ficando cada vez maior), tem uma coisa em que ainda me mantenho invicta, algo a que eu ainda me mantenho true to heart e do qual posso, até certo ponto, me orgulhar: não fumei nenhum cigarro que seja! (Nas últimas semanas, no último ano, ou ever, for that matter).

Nas atuais circunstâncias, achei por bem comemorar as pequenas vitórias da vida.

O contexto dessa pequena vitória é que, apesar de eu odiar cigarro, estou rodeada de fumantes. É: moro com um francês, que tem um monte de amigos franceses que estão sempre aqui em casa. E franceses, por definição, fumam muito. E os québecois também fumam muito, não se enganem.

E, tá, eu odeio cigarro, mas depois de muitos anos como fumante passiva, tem horas que a minha vida parece que vai implodir e fico achando (deslumbradamente) que se eu fumasse um cigarro e poderia ficar mais calma. Não sei se confere esse mito de que cigarro diminui a ansiedade, e eu não estou muito pagando pra ver, não. A morte por heroína me parece mais rápida e bem mais divertida. Mas guardo essa para quando eu  estiver precisando de verdade (não quero pensar em perder os dentes, ou ter que lidar com metadona, tal).

Dito isso, outra pequena vitória foi conviver com muitos chain-smokers durante esses últimos 3 meses e não ter feito quase nenhum discurso anti-tabagista fervoroso. Eu sei que muitos de vocês devem estar achando difícil acreditar nessa última parte, mas eu juro que tenho me comportado. Mas, de todo modo, não custa deixar o lembrete: parem de fumar, por favor. Ou não (re)comecem. O que melhor se aplicar.

Porque é justamente por conta dos cigarros que o Natal de vocês vai ser bem mais feliz e terá muito mais gente em volta da mesa do que o meu.

Outra pequena vitória da vida foi ter conseguido ficar sem pensar nisso durante algum tempo. Até semanas inteiras. Até que não deu mais. Nunca dá.

vendredi 25 novembre 2011

Ma chanson leur a pas plu (suite)

Não entendo muito bem de onde surge toda a louça pra lavar na minha casa (#mimimi dona-de-casa). Porque eu sequer tenho cozinhado, mas sempre tem uma pilha enorme de louças pra lavar. Acho que o apocalipse zumbi está vindo, e está vindo na forma de panelas sujas. O lado bom é que, bom, já que eu tenho Ockham pra ler (sim, caso vocês estejam achando absurdo, é isso mesmo: há mais de 3 meses tenho tido Ockham pra ler), a louça a lavar serve de procrastinação (já que eu não tenho dinheiro para ir fazer compras ou para gastar com qualquer outra forma de entretenimento, e já está cheio de neve lá fora). Sem falar que fiquei 5 dias sem TV a cabo (outra história, outra ocasião). Não que eu assista a muita TV, mas e as reprises de Sex & the City?? E Iron Chef??

Meh. Pelo menos consegui fazer uma nova mixtape legal, que eu vou compartilhar com vocês, caso vocês tenham louça pra lavar, ou caso queiram me julgar por minhas escolhas (não tento ser o Álvaro Pereira Júnior, então...). Quase todas essas músicas foram roubadas nos últimos dias de pessoas queridas que eu conheço, mas de quem eu gosto com variação bem grande de grau e modo. Porque agora que o frenesi de corrigir provas passou, deu pra entrar em contato com/stalkear pessoas novamente. Ah, e uma das músicas é jabá, mesmo. Mas é um jabá de coração. <3

1. The Magnetic Fields. I Think I Need a New Heart
2. Foals. Balloons
3. Gotye. Somebody That I Used to Know
4. St. Vincent. Marry Me
5. Soundbullet. When It Goes Wrong
6. Dale Earnhardt Jr. Jr. Nothing But Our Love
7. Clap Your Hands Say Yeah. Same Mistake
8. Tom Waits. You Can Never Hold Back Spring
9. Elliott Smith. Angeles
10. Superchunk. Cursed Mirror

Plano para os próximos dias: estudar freneticamente (e, o mais importante: escrever freneticamente). Ou seja: só Beethoven rolando por aqui, amiguinhos, porque Pavlov me treinou direitinho. Ah, e não esperem muita coisa de mim até o Natal. Se alguém quiser me recepcionar em Bagulhos, já vou avisando: prepare-se para me ver chegando em frangalhos.

Cancelem as mixtapes e os estimulantes. Me mandem amor. Ou bacon.

jeudi 24 novembre 2011

Depuis toujours

Ou: carta (-resposta) aberta ao meu contrato velado mais longo. (**alerta de post existencial, not for the faint of heart**)

Querido,

Gosto do nosso contrato. Não mudaria nada nele. E que bom que estamos de acordo quanto a ele. Só não sei se ele é tão velado assim, afinal, em todas as idas e vindas etc. que você descreveu, acho que que as cláusulas foram ficando mais e mais claras. Rousseau tem muito o que aprender comigo. E você chegou perto na matemática. A gente está, sim, ficando velho, mas não tanto ainda. Não nos conhecemos há 15 ou 16 anos, mas sim há 14. Que é bastante assim mesmo. Metade da minha vida (uau!).

O suficiente para que, veja só, nós já nos conhecêssemos da primeira vez que eu vim a Montreal, de férias. A segunda vez, quando eu passei mais de um mês por aqui, você acompanhou mais de perto, apesar do fato de que, na época, e-mail e internet eram coisas um pouco fora do comum. Naqueles dias, eu lembro que ia checar meus e-mails, uma ou duas vezes por semana, na McGill, que tinha um lugar que tinha um café e uns computadores com acesso público. E eu ia lá pra responder aos seus e-mails (e aos de poucas outras pessoas). E foi aí que me apaixonei pela McGill.

Foi também quando eu aprendi a fazer geléia de framboesa. Hoje em dia, geléia nem tem mais acento. Então, eu faço geleia de framboesa. Mas juro que o gosto é o quase mesmo.

E também já te conhecia da terceira vez em que eu vim pra cá, passar mais um tempinho. E aí eu já não precisava mais ir à McGill ver meus e-mails (a internet já tinha virado um pouco mais mainstream). Mas me lembro de andar para cima e para baixo na Rue St.-Denis nessa época, caçando discos (nem me lembro quantos LPs eu comprei) e livros de filosofia (puxa, eu já estudava filosofia nessa época!). Fui embora com uma mala de livros. E me apaixonei pelo Quartier Latin (apesar de todos os senões) e pela UQAM, onde eu sempre tomava o metrô. A UQAM sempre me lembrou um pouco a PUC, e eu sempre gostei um pouco disso.

E hoje em dia, eu divido meu tempo entre as aulas na McGill e as aulas na UQAM, justamente. Na época, eu pensava nisso, eu queria isso, mas não achava que aconteceria. E eis que.

E eu lembro que eu via aqueles alunos da UQAM, que tinham um jeito de ser muito legais (os da McGill sempre me pareceram meio geeks demais), e eu tinha vontade de ficar amiga de todos eles. Nunca tive coragem de ir falar com nenhum, mas, olhando pra trás, penso que deveria ter tentado. Mas fato é que hoje em dia, estou aqui, passando horas corrigindo os trabalhos desse alunos. E indo para o meu escritório solucionar as dúvidas deles. E, olha, até que eu não estava errada, eu acho.

E aí, quando você me fala que está pensando na carreira acadêmica, isso me surpreende um pouco, porque jamais conseguiria te imaginar fazendo parte dessa instituição que você sempre odiou tanto. Mas, até aí, eu acabei de fazer aí acima toda uma lista de acontecimentos improváveis e um tanto insólitos. Porque não faria sentido eu ser diplomata e estar em Montreal. A menos que... eu não fosse ser diplomata. Mas isso na época não era uma opção que passasse pela minha cabeça. E eis que.

Quando eu mudei para cá bem no comecinho de janeiro, tinha só umas 4 ou 5 horas de sol por dia. Eu morava perto do parque, mas o parque estava debaixo de uma camada de um metro de neve. Eu reclamei bastante disso. Passei umas 3 semanas reclamando sem parar. Até que um dia resolvi ir até lá e patinar no gelo. Ficou um pouco melhor. Continuava odiando a falta de luz solar e o fato de que a rua parecia um frigorífico, mas ao menos eu estava lá, prestes a quebrar a bacia patinando (ou caindo, no caso) no gelo.

Tudo isso para dizer que, para ser sincera, não acredito que as coisas ficam bem ou ficam melhores de verdade (afinal, vivo com uma quantidade de dinheiro que está bem próxima da linha de pobreza, e não vivo no glamour da diplomacia). Às vezes não ficam, e é horrível mesmo. Mas é bem mais interessante quando a gente consegue notar essas ironias, e como a vida joga as coisas na nossa cara (oi, eu passei 4 meses morando com 2 GATOS!!). E é mais divertido assim.

Porque, por exemplo, nunca entendi o que eu estava fazendo em NY. Como e por que eu fui parar ali, qual o propósito daquilo. Aqueles quase-4 anos me ensinaram muito pouco. Mas lembra quando eu queria trabalhar na ONU? Pois é. E aí, em NY eu trabalhei na ONU (meio que). Talvez minha estada lá, se nada mais, tenha servido para isso. Que já é grande coisa, e você deve entender o quão grande é isso para mim. Mas aquilo simplesmente não fazia o menor sentido a longo prazo.

Mas nunca me questionei sobre o que eu estou fazendo em Montreal. Minha vinda para cá foi muito mais orgânica (mas muito mais assustadora, paradoxalmente). E aí as coisas foram acontecendo e, não vou dizer que eu estou 100% satisfeita em estar aqui. Sempre tem uns momentos horríveis, quando está tudo dando errado. Mas eu vim aqui para errar, na verdade. Para errar muito. E até que tenho acertado.

Porque 14 anos atrás, eu queria muito trabalhar na ONU, conhecer primeiros-ministros e embaixadores, conhecer os formadores de opinião do mundo, bater um papo com o Moby, viajar para lugares bem longe com as despesas pagas. Fiz tudo isso e mais (não bem como eu imaginava e queria, mas fiz). E te digo uma coisa: sou bem mais feliz dividindo meu tempo entre a McGill e a UQAM.

Isso não só para falar de mim, mas metáfora para a vida, se você me permitir. E a inércia é o melhor contrato velado que a gente tem consigo mesmo. Porém, na hora em que a gente se força a parar completamente (ou que alguma coisa pára a gente), a gente vê que o mundo ainda está girando. E uma hora a coisa certa nos alcança. Até que isso aconteça, entretanto, a gente tem que se prender aos contratos. E ver se/quais pessoas estão dispostos a aceitá-los, desde a carona para o shopping até o "passa lá em casa pra tomar um whisky". E aí a gente toma um café (ou um chá, uma cerveja) com as pessoas que entendem isso, e estabelece as cláusulas.

É isso.

O meu dilema filosófico (não sei bem de qual você estava falando) você vai poder entender quando meu livro for publicado (*saco de risadas*). Ou quando finalmente sair aquela entrevista para a Playboy. ;)

Até lá, mudo meu motto para "I want, I can, mais le monde va de soi même." Repita como mantra, and carry on. De verdade.

Yours truly, madly, deeply,

A.

mercredi 23 novembre 2011

Fatigante

É engraçado perceber como meios de transporte definem uma cidade.

Em São Paulo, a maioria das pessoas (tá, a maioria das pessoas do meu mundo de 300 pessoas) dirige, e o discurso social gira em torno de que carro você tem/está vendendo/quer comprar e do trânsito que pegou para ir a/voltar de tal e tal lugar. Mencionam-se as avenidas em que você perde a maior parte de seu dia, e os nomes dessas avenidas fazem amigos. Estados Unidos não combina com Salim Farah Maluf. Nove de Julho combina com Berrini. Giovanni Gronchi não combina com quase nada. Paulista combina com qualquer coisa. E assim a gente vai construindo nosso círculo social. Das pessoas que moram a mais de 12Km (ou seja, duas horas e meia, em paulistanês) da nossa casa a gente tem que gostar muito, mas muito mesmo. Se não, a amizade "inviabiliza".

Em NY, são os táxis e as linhas de metrô. A pessoa pode compartilhar um táxi com você para voltar pra casa? Melhor amiga! A pessoa acabou de roubar o seu táxi às 15h. em dia de chuva? Inimiga número um.
As linhas de metrô servem como uma orientação básica sobre a possibilidade de sobrevivência de um relacionamento de qualquer tipo. Quando eu morava no Bronx, no Bedford Park, meus horizontes de perspectivas de sociabilidade já haviam se expandido consideravelmente desde quando eu morava na Little Italy do Bronx (que era mais longe do metrô), mas mesmo assim, ficava impossível ter amigos que morassem em regiões como: bom, qualquer lugar do Queens (incluindo Astoria e Long Island City), Tribeca, East Village, Washington Heights, Fort Greene, Greenpoint.

A minha impressão é que Montreal tem muito menos dessas fronteiras geográfico-sociais. Acho que parte do motivo é que Montreal não tem apenas um tipo de transporte a que se reduzir. No verão, as pessoas andam de bicicleta. No inverno, de metrô ou ônibus. No outono (nos dias frios demais para andar de bicicleta), elas andam a pé. E a primavera não existe. Então, acho que a coisa do transporte é muito mais fluida. Se as fronteiras geográfico-sociais existem, é de maneira muito mais arbitrária e artificial. Eu, por exemplo, me recuso a ir a qualquer lugar que fique na linha azul do metrô.

Montreal tem, basicamente quatro linhas de metrô: eu moro justamente ao lado da intersecção das linhas amarela, laranja e verde. Ou seja, tenho acesso muito fácil a 4/5 da cidade (não questionem minha matemática - ela é compensatória, porque a linha laranja é a maior delas, e a verde também é bem maior que a azul). Se tenho que fazer algo que fica na linha azul, simplesmente desisto.

Aliás, eu NUNCA peguei a linha azul. Quando fui para aqueles lados da cidade (só uma ou duas vezes), acho que minha aversão era tanta que acabei pegando ônibus (e olha que eu ODEIO ônibus). Mas talvez a maioria das pessoas não pense como eu. A descobrir.

Talvez por eu (ainda?) não conhecer muita gente por aqui, às vezes sinto falta de sair e saber que, do meu carro, vou cruzar o carro de algum amigo em algum congestionamento, ou poder buzinar para alguma amiga atravessando na faixa de pedestres à minha frente. Ou de saber que, mesmo pegando metrô numa garnde maçã com uma população enorme, mal preciso de iPod, porque com certeza vou encontrar alguém na linha D, duas estações ao sul de onde eu peguei o metrô originalmente. Ou, enquanto espero impaciente o metrô da linha 4 na Union Square, um amigo meu vai acenar pra mim do 6 em que ele está (indo para casa?), e vai me fazer sorrir.

Sinto falta de algumas dessas coisas, confesso, mas eu gosto de sair a pé, mesmo sabendo que minhas caminhadas terão um adicional de aventura durante pelo menos metade do ano, por conta da neve e do gelo. Já me habituei a calcular o tempo que eu vou levar para chegar em qualquer lugar que me interesse, e sempre vou armada com meu iPod ou meu telefone devidamente carregado com músicas. O lado ruim é que eu não tenho lido tanta ficção quanto costumava (pegando a linha D do metrô do Bronx ao Brooklyn diariamente, eu lia pelo menos um romance por semana), mas tenho ouvido mais música. Não sei se isso é bom ou ruim. Mas acho que está faltando ficção na minha vida. A ser corrigido durante as "férias" de final de ano. Hum.

Por outro lado, tenho procurado bem mais coisa nova pra ouvir. Não com muito sucesso, como vocês puderam comprovar (visto minha súplica por mixtapes), mas (re)descobri algumas coisas legais. Aliás, ultimamente, calculo o tempo de "viagem" entre minha casa e qualquer destino com base no meu iPod. Por exemplo, a distância da minha casa até os lugares abaixo (que são os lugares a que eu vou com uma certa regularidade - uns mais que outros), em termos de música (e de o que eu tenho ouvido no trajeto):

- até meu escritório na UQAM: 4 músicas do Spiritualized
- até meu escritório na UQAM, depois de tomar um Red Bull: 2 músicas do Spiritualized
- até a academia: 4 músicas do Airborne Toxic Event
- até a casa do AmigoSemTwitter: 4 músicas do Camera Obscura + Radiohead fazendo cover de "Ceremony"
- até o Burritoville: 7 músicas do LCD Soundsystem
- até a McGill (digamos, o Leacock Building): 8 músicas do LCD Soundsystem
- até o Marché Saint-Jacques: 2 músicas do Pulp
- até o parque La Fontaine: 2 músicas do Hot Chip

A conclusão, que vocês provavelmente não devem ter sacado, a não ser que conheçam razoavelmente bem Montreal é que, depois de morar em cidades cujo ritmo de vida é absolutamente frenético, eu cultivei um hábito peculiar: eu ando rápido. Muito rápido.

Parte disso também se deve ao fato de que, dos 15 aos 25 anos, eu usava salto alto diariamente, o tempo todo - e já andava rápido. Ainda há controvérsias sobre o salto fortalecer ou atrofiar os músculos das pernas e enrijecer os tendões (como o tendão de Aquiles), mas o fato é que, depois de eu me conformar com minha altura e abandonar o salto (porque ele sempre ficava preso naquelas grades de ventilação do metrô nas calçadas de NY, sem contar outros acidentes mais graves), vi que também conseguiria andar rápido sem salto, uma coisa que eu sempre achei bem difícil.

Parte da transição (para a adaptação muscular) foi eu ter investido em um sem-número de pares de sapatos ortopédicos (é, gente, vaivêno!). Porque eu juro: se você usa salto o tempo todo durante 10 anos, algo muito estranho acontece, sim, com seus músculos e tendões. E não é fácil corrigir. Três anos de sapatos ortopédicos depois (fase de adaptação), tenho estado feliz e contente já há quase um ano passando metade do tempo usando tênis (quem diria!) e a outra metade usando botas de neve.

Mas, para quem usou botinhas ortopédicas na tenra infância e, ainda assim, ficou com os joelhos MUITO tortos, qualquer coisa é lucro, sacam? Aparentemente passei uma parte considerável da minha vida aprendendo a andar, o que me deixa mais tranquila quando eu penso que ainda não consegui desenvolver plenamente minha destreza social. Mas para isso existe o álcool, que tem funcionado como o equivalente social dos sapatos ortopédicos. E considerando também a minha falta de aptidão social e a quantidade de álcool que às vezes se faz necessária para compensá-la, é bom mesmo que eu não esteja usando salto.

Mas, sem carro e sem metrô para servir como meio de interação, e, sendo pedestre convicta, o jeito é conversar sobre... sapatos (porque acho que conversar sobre pés é um troço meio esquisito, mas, sei lá, cada um com seu fetiche). É, acho que eu até posso socializar com pessoas conversando sobre sapatos. Desde que em nenhum momento da conversa eu arranque um do pé e arremesse na cabeça da pessoa. Hm. Nota mental. Nota mental bem importante. Vou colocar um post-it na carteira, pra não esquecer, just in case.

lundi 21 novembre 2011

Métro, boulot... métro, boulot, métro, boulot. Dodo?

Nível de cansaço: o máximo possível. Sei que vocês não estão acreditando, mas vou contextualizar: fui tomar banho ouvindo My Bloody Valentine e Nine Inch Nails (não perguntem...) pra não entrar em coma narcoléptico e morrer afogada no chuveiro. Tá nesse nível a coisa.

Vamos voltar para mais ou menos um mês e meio atrás, quando tudo começou.

O projeto Common People foi oficialmente retomado no início de outubro. E o resto veio no pacote. Porque parte importante do pacote é eu ter um emprego. Porque eu sou workaholic e acho que ser free-lance na vida não conta. Estava sem emprego de verdade (mas não sem ser paga, porque a gente é feliz vivendo de bolsa e de freelas) desde dezembro, pouco antes de ir embora de NY. Até que.

Até que resolveram me contratar para um trabalho de verdade. E, apesar de eu estar com o cabelo semi-cagado, e ter passado o mês de outubro com aquela cara de maquiagem-borrada-de-dia-seguinte, bronzeado (ou falta de, no caso) duvidoso e frequentando lugares de classificação social igualmente duvidosa, o emprego que eu arrumei NÃO foi de cover da Courtney Love. Eu sei que vocês estão com orgulho. Me mandem fan letters.

Fato é que eu fui contratada para ser monitora de dois (!) cursos (de graduação) na faculdade. And when it rains, it pours. O primeiro rolou porque, convenhamos (e modéstia à parte), eu era a pessoa mais qualificada. O outro foi porque eu sou BFF da secretária do departamento, e ela me recomendou para o professor. Ficadica, amïgues: muito amor à secretária do seu departamento, sempre.

E tudo bem. Trabalho na agenda, dinheiro no bolso. Alegria, alegria. Oremos.

Ah, mas eu não contei os detalhes, né. O trabalho consiste em ser monitora (i.e. tirar dúvidas de alunos) E corretora. Ou seja, professor oficial dá as aulas e elabora a prova. Alunos fofolitos fazem a prova. A gatona aqui corrige. Não é nada tão complicado ou pavoroso assim. Na verdade (e eu sei que vou soar louca para alguns), até que é um trabalho legal (melhor que separar clipes por tamanho).

O único detalhe é que eu tinha mais de cem provas e trabalhos a corrigir. Num prazo de duas semanas. Trinta e poucas provas de mais ou menos 3500 palavras cada. E uns setenta trabalhos de, em média, 15 páginas cada, em espaço SIMPLES. No meio desse prazo, minha viagem para o Kansas obviamente embolou o meio de campo. O resultado é que ainda tinha muito, muito trabalho a fazer essa semana. Negociei prazos, ganhei uns dias aqui e ali, mas, mesmo assim, de quarta-feira até hoje eu consegui dormir, no total, 21 horas, o que dá uma média de 4 horas e 12 minutos por noite (considere-se que algumas noites dormi mais, outras não dormi nada e tal, óbvio). Delícia, hein.

Bom, tudo acabou hoje. Quer dizer, acabou até a segunda rodada de provas e trabalhos, a começar lá pelo meio de dezembro. Já deu para sentir qual vai ser meu passatempo natalino, né (insira aqui o comentário pejorativo do meu pai, dizendo que eu sou atéia, e não deveria reclamar de passar o Natal trabalhando, mimimi, Freud-ligou-e-mandou-beijo).

Aí, dia desses pessoa me manda e-mail reclamando de ter de trabalhar em sistema de plantão. Senta lá, Cláudia. Porque a vida acadêmica não está esse burro na sombra, não, tá?

A sobrevivência essa semana foi garantida à base de Red Bull e 5-Hour Energy (tudo bem que rolou uma desidratação básica, da qual eu só cosegui me recuperar completamente hoje de manhã, acho, mas enfim).

Aliás, cancelem o pedido de mixtapes. Me enviem um carregamento de estimulantes no lugar, desde que o prazo de entrega seja antes de 14 de dezembro. Porque eu certamente vou precisar.


P.S.: não recomendo (mas amo muito) o uso de estimulantes. A julgar pelo estado de meus tornozelos (e meu histórico de problemas circulatórios bizarros), eu diria que: ou (a) estimulantes como os citados acima fazem coisas BEM estranhas com nosso organismo (ver: fazer nossas juntas incharem numa vibe artrite reumatoide) ou (b) estou grávida de 8 meses, prestes a dar à luz (o que, da última vez que eu chequei, não era uma possibilidade). Mas vai saber.

P.P.S.: Como virar BFF da secretária do seu departamento (dica para acadêmicos). Cada um tem uma técnica. Vocês pode sondar sobre pontos de interesse em comum (geralmente, gatos - incluindo LOLcats - e/ou crianças). No meu caso, a coisa foi meio que forçada pelo fato de eu me deparar com os mamilos da minha secretária diariamente, enquanto ela tinha que disfarçadamente lidar com minhas celulites e estrias (porque sou de verdade, não sou Gisele e tenho celulite E estrias, lidem com isso!). Contextos exóticos são minha especialidade, ceis já sacaram. Mas eu explico: eu ia pra academia justamente no MESMO horário que a secretária, de segunda a sexta. Então, cinco vezes por semana, encontrava com ela no vestiário, ela se vestindo num canto enquanto eu saía do banho no outro. Ou seja, ela me via de calcinha bege. A única alternativa que eu tinha era virar BFF dela, né. E, meninos, podem desligar a imaginação fértil, porque eu falei calcinha BEGE, tá ok? (Essa é pro Goommer.) E vestiários femininos são bem menos interessantes que vocês imaginam. Eu prometo. Mas eles geram empregos. Bizarro.

mercredi 16 novembre 2011

Buffalo débile

Toda uma dificuldade em encontrar um salão de beleza aberto no final de semana no Kansas. Tentei sábado no final da tarde. Depois de tentar uns 3 salões, perguntei pra umas pessoas, que me olharam com cara de espanto e entenderam que eu não era de lá - daí estar fazendo uma pergunta tão absurda (afinal, que manicure trabalha sábado à tarde, oras?).

Ficou pra segunda-feira, dia mundial das manicures de folga. No entanto, a manicure do salão da esquina estava trabalhando. Parfait!


Horário marcado, lá fui eu com minhas cutículas em petição de miséria.

A manicure era uma velhinha simpática, que me pareceu bastante boazinha. Até que.

Até que ela resoveu que ia conversar comigo, né. Porque aí a coisa tomou um rumo as-sus-ta-dor.

Primeiro, ela me perguntou se eu morava ali (não) se/porque era casada com algum militar (não). Depois, perguntou quantos anos eu tenho (28). E então perguntou por que eu não sou casada (porque não quero), e se era por que meu namorado estava me enrolando (muito pelo contrário, a matrimoniofobia é minha).

E aí ela também resolveu me dizer que era melhor eu superar logo essa coisa de não querer casar, porque não estou ficando mais jovem conforme o tempo passa (cejura??). Me perguntou se eu tenho filhos (não), e se eu quero ter filhos (o horror! o horror!). E se eu sou católica (não - mas juro que fiquei com medo de dizer que não trabalho com deus). Ou se eu tenho algum tipo de espiritualidade (hm... hahaha, tá certo). E acrescentou, sabiamente, que, quando eu estiver velha, solteirona e sem filhos, vou queer repensar isso. Porque quando eu estiver triste e solitária, só haverá uma pessoa para me consolar nos momentos de desgraça, que certamente virão: isso mesmo, DEUS!

(Cêtáfalandosério???)

A pessoa entra pra fazer a unha, sai cortando os pulsos. É essa a ideia?

Porque, olha, estava super ok com minhas escolhas e até mesmo com a possibilidade de ser um pouco flexível em algumas (leia-se: 10% no aspecto matrimônio, caso seja imprescindível), mas depois dessa manicure com lição de moral... hm, não obrigada. E vou pensar duas vezes antes de voltar ao Kansas e ter qualquer tipo de conversa com qualquer pessoa.

Caipira deve estar achando super ótimo esse dois-por-um de você ir fazer as unhas e sair de lá com uma "filosofia de vida" atravessada na garganta, de brinde. Mas eu só queria sair dali e encontrar um rifle. Rápido.

E um caixa eletrônico. Coisa que também não existe na terra da Dorothy. Jamais serei capaz de entender.

Porque, não, no Kansas não há caixa eletrônicos assim, por toda parte, como no resto do mundo civilizado (à exceção da Bélgica). Depois de ir ao "meu banco" e descobrir que não havia caixa eletrônico na agência (!!), fui a um outro banco, procurando um caixa eletrônico. A mulher que me deu informação me indicou que era do lado de fora. Lá fui eu descobrir que... era um caixa eletrônico drive thru, ou seja, tive que fazer fila (a pé) atrás de um pick-up e de um trator!! Gênio!

A gente pisca, se distrai e, quando vê, acorda num mashup estranho de David Lynch com Sam Mendes com irmãos Coen. Desisto dos sapatinhos vermelhos. Quero voltar pra civilização!

lundi 14 novembre 2011

Gueule d'aminche

**Alerta de novela mexicana**

Ceis acham que são só grupos étnicos isolados, mas inner-breeding também super acontece na filosofia. Os motivos são óbvios: falta de aptidão social e a não-existência de bebida alcoólica suficiente no mundo.

Eu não posso falar muito, porque, né. Tô toda trabalhada na inner-breeding filosófica. Então que fique claro: longe de mim cobrar aptidão social dos outros. Mas aí, tem aqueles dias em que a gente recebe o certificado de cretinice nível Platinum. Vamos à história, que faz parte da lista das coisas que me deprimem e que, ao mesmo tempo, me tornam digna de um foot-in-mouth award épico:

Um ano atrás, estou lá, à toa, em NY, sozinha em casa. Um amigo meu, chamemos ele de W., vai a um bar para conhecer pessoalmente um certo sujeito, chamemos este de C.A. Como estava à toa, fui junto. Do bar, fomos para a casa de W., onde começamos o fim da noite com Moonshine e, obviamente, todos nós capotamos antes de conseguirmos nos mover. Acordo 7 horas depois, no sofá da sala de W., onde dormi profundamente. No outro sofá, na minha diagonal, está C.A. Bom dia!! W. acorda logo depois e faz ovos benedict para todos. Desnecessário dizer que W. é uma das minhas pessoas favoritas no mundo, por conta do whisky, do vocabulário 120% profano e dos ovos benedict, dentre outras coisas.

Logo depois desse dia, W., C.A., eu e todo o resto do nosso grupo conhecemos ainda R. e S. Eu já havia avisado a W. que S. era gata e que, se eu fosse ele, investiria. Sou uma boa wingwoman, acreditem! Tento criar as condições para S. e W. saírem, se conhecerem melhor, Deus sabe. Rola mais ou menos. W. também acha R. uma pessoa legal. Eu desconverso, digo que S. vale mais a pena. R. não é muito bonita (dentes medonhos - maior pet peeve do universo!), e é meio chata.

Algumas semanas depois, C.A., que tinha acordado diagonalmente a mim na casa de W., começa a sair com R. Alguma coisa está meio que rolando. Enquanto isso, W. e S. continuam sendo um fracasso. Eles até saíram, mas, pelo que W. me contou, o fracasso foi completo.

Alguns meses depois, C.A., de quem, a bem da verdade, eu não gosto muito, decide que é bom demais para R., e o romancezinho deles acabou.

W. continua falando que R. é super legal, e que ela é muito mais legal que parece etc.etc. Eu mantenho minha posição de que R. é sem graça (ai, meldels, aqueles dentes!) e meio chata (tricô, gente! tricô!). Sou honesta, porque, né, conheço W. há 3 anos e passamos por muitos porres e ressacas juntos. W. fica curioso com meus comentários e eu disserto sobre por que acho R. uma pessoa chata. E sem graça. E como ela tem dentes feios e coisas do gênero.

Corta para oito meses depois: não tenho notícias de W. há um tempão. Até que.

Até que o Respectivo me conta que W. e R. estão prestes a ficar noivos. Mas eu sequer sabia que eles estavam namorando!! Vi W. há exatos 7 meses, e ele não estava nem namorando! COMO ASSIM, ele vai ficar noivo?? E de R.????

Bom, gente, essa sou eu: a pessoa que passa meses falando pro cara não sair com a mina porque ela é feia e chata e, de repente, eles vão casar. Bem-vindos à epítome da cretinice. Coisa que só eu (com muito amor) faço por vocês.

Minha resolução seria até começar o bolão do divórcio, mas W. é uma das poucas pessoas no mundo que merece muito amor e todas as coisas fofinhas da vida. (Mas que isso não vai dar certo... ah, não vai!)

Mas fato é que eu SEI que S. era a primeira opção de W. E que R. saiu com o canalha do C.A., antes de sequer pensar em dar bola pra W. E eu sei de tudo isso, e sei que tentei parar esse trem antes que ele descarrilhasse. Não digam que eu não avisei... My job's done here.


Agora... vamos para de casar e reproduzir, amiguinhos! Porque, porfa, né. Eu achei que o trato fosse que todos nós íamos ficar pra tios(as) juntos e vocês não estão cumprindo a parte de vocês do trato.

E, seríssimo agora, gente: contraceptivo, ok? Muito contaceptivo. Porque eu sou pro-choice, mas sei que vocês não são (todos).

E só me convidem pro casamento se for em um lugar legal, porque não tenho tempo de ir passar carão na Heartland. E me ajudem a tirar esse gosto de pé que está na minha boca, rápido!

samedi 12 novembre 2011

Toto t'as t'y ton vélo

Mal falei do Kansas aqui, né. Os posts de setembro vão sair em retrospectiva tardia, porque não tô com tempo. Mas o importante, e o que eu não contei em detalhes, é minha bicicleta. Pra quem não entendeu: é. Eu comprei uma bicicleta. No Kansas. E ela vai ficar no Kansas. Pra eu anar quando vier. A minha bicicleta vintage (da década de 1950), amarela, linda, que ficou pronta e que eu pude estrear nessa viagem.

Corta pra eu sendo gatona de bike:

Sendo gata de bike dentro de casa. Porque a bike é vintage, é linda, e é pesada que nem o demônio.
Comofas pra descer escadas com ela??? - Resposta: Respectivo (feminismo ligou e mandou beijos)

Tô linda? Tô. Tô nervosa? Com medo? Bagarai.

Tá, a essas alturas, eu já tô bem @vitorfasano: curtindo.

Minha bike é bem mais legal que o Toto.

vendredi 11 novembre 2011

Jamais assez haut

Tem dias que são perfeitos. E esses são raros. Ontem, por exemplo, NÃO foi um deles.

O dia começa com aquela walk of shame básica. De baixo de chuva. Porque desgraça pouca é bobagem. E você, obviamente, sem guarda-chuva (porque, alas!, quando você saiu de casa sabe-se Deus quantas horas - ou dias - antes, não estava chovendo, nem com cara de chuva). Excelente. A sorte é que, a princípio, eu não tinha que ir muito longe. Andei apenas 3 quarteirões debaixo de uma chuva gelada e logo cheguei ao abrigo temporário de Flo. Quem abre a porta é um mocinho simpático, que acha que eu estou lá para uma aula de piano. "Não, só vim encontrar a Flo. Mas eu estou atrasada... marquei com ela às 10h00..." Eram 10h25.

"Ela está dormindo, mas eu vou chamar. Entre." E o pianista desaparece. E eu fico no meio dessa sala dessa casa onde eu nunca estive, meio sem saber o que fazer. Adoro quando o dia começa com essa vibe David Lynch. Me dá esperança na humanidade.

Flo aparece depois de uns 5 minutos, com mais cara de sono do que eu (bom, ela com cara de quem dormiu demais, eu com cara de quem dormiu pela metade). Resolvo as coisas que tenho que resolver com ela, reticente. Porque não estava com a menor vontade de ter que lidar com pegar o metrô, voltar para casa e lidar com o mundo. Não naquele momento. Flo propõe irmos tomar um café. Ótima ideia.

Andamos, na chuva, mais alguns quarteirões. Flo pede um café e um croissant. Eu não estou com estômago para pensar em nada a essas alturas. Não antes de poder chegar em casa e dormir mais umas 4 horas, pelo menos. "Chá verde."

Mas cinco minutos com Flo deixam qualquer pessoa automaticamente de bom humor. Primeiro porque ela é linda (e a beleza vai salvar o mundo, blá, blá, blá), e segundo porque ela está basicamente na merda (mas na merda mesmo) e está super de bom humor. Super de bem com a vida. Eu lá, de mau humor por conta do cansaço, da chuva, da falta de lar (três problemas facilmente solucionáveis), e ela super pra cima. Te faz pensar, né. Esse encontro com a Flo foi basicamente o ponto determinante da semana, por uma série de motivos (o principal sendo que já estávamos adiando isso fazia uns 10 dias, e aí calhou de marcarmos na quinta-feira e tudo o mais, porque era o único dia em que nós duas estávamos livres de manhã).

Tomei meu chá, criei coragem e voltei pra casa. Virei gente e saí, porque tinha uma reunião às 14h. O plano era chegar na universidade lá pelas 13h. e trabalhar um pouco, tranquila, antes da minha reunião.

Santa ingenuidade, Batman. A essa altura, já estava começando a manifestação nacional dos estudantes contra a alta das "mensalidades" das universidades. O que significou que TODAS as portas da minha universidade estavam barradas por manifestantes. Bom, trabalhar, eu podia trabalhar em casa, mas e minha reunião?

Mandei um e-mail para os envolvidos, perguntando como proceder. Enquanto esperava resposta, fui até o banco, a uns 2Km dali (e ainda embaixo de chuva - mas dessa vez com guarda-chuva), sacar dinheiro para levar pra minha viagem pros EUA. Achando que minha reunião seria cancelada.

Saindo do banco recebo um e-mail, sugerindo nos encontrarmos em um café ao lado da universidade. Volto os tais 2Km. Novamente debaixo de chuva. Mas o mais legal é que, essa vez, os manifestantes já estavam "marchando". Em direção contrária a minha. Mais de 20 MIL pessoas. E eu com meu guarda-chuva gigantesco. Enfim, tudo errado. Tudo muito errado.

Chego no café exasperada, atrasada depois de ter que lidar com a massa de gente e trombar com cartazes, faixas e afins. "Uma água, por favor."

Reunião. Falta de vontade de ir embora e lidar com o mundo. Tema recorrente. Enrolo um pouco conversando com PrettyBoy, com quem eu meio que nunca tinha conversado.

Descubro que PrettyBoy, que eu achava ser uma pessoa unidimensional, é até uma pessoa legal. Meio unidimensional, de fato, mas uma pessoa legal. Eu julgo as pessoas e não deveria, blá, blá, blá. Sou uma pessoas menos boa por isso, blá, blá, blá. Mas tive meu momento fofura e redenção. Crédito, por favor.

Volto para casa e trabalho um pouco. Não consigo raciocionar e paro. Ligo pra Cassy, para dar feliz aniversário. Desligo. Sento e olho as paredes. Tenho que fazer o raio da minha mala, para o meu voo que sai às 5h30 da manhã, e que vai me fazer acordar às 2h45 para ir pro aeroporto. Não tenho vontade de fazer as malas. Jogo algumas roupas dentro, na esperança de que elas combinem (e que eu não esqueça de levar calças, como fiz quando fui a Boston). Contemplo o marrom das paredes.

Estaria eu (logo eu?) sofrendo de mau humor seguido de ressaca moral? (parte do meu M.O.: mau humor seguido de chilique, seguido de ressaca moral por conta do chilique, seguido por mau humor por conta da ressaca moral... ad infinitum) Estaria eu precisando voltar a me conformar com o fato de que o Woody Allen baixou de vez e voltar para a terapia? Estaria nossa heroína em sérios apuros???

Ben chega em casa, pergunta se-eu-comi-se-eu-estou-com-fome. Puxa, FOME! Me dei conta de que as únicas coisas que consumi o dia inteiro foram: chá verde com Flo e uma água com PB e M.

Resto du Village. Poutine. Imediatamente.

Veredito: achei que era ressaca moral, mas era fome (e sempre é, afinal!). A flexibilidade moral continua intacta.

Mas, peraê, que nenhuma história minha tem um final feliz que não seja aquele tapa na cara, ainda que de leve: obviamente que, eu lá, toda contente de estar me entupindo de uma poutine toute garnie (porque paranoia com obesidade não trabalhamos), e entra um cara louco-e-bêbado (NENHUM exagero) e senta pra comer. Ele começa a gritar palavrões sem parar, numa vibe Tourette bem esquisita ("Crisseostietabarnak!"), sem parar MESMO. Gritando. E comendo. E fazendo barulhos nojentos. E aí ele começa a cuspir no chão do restaurante! E por aí a coisa foi... SEM PARAR. Por uns 40 minutos.

Desnecessário dizer que desisti da minha poutine pela metade.

Volto para casa - já sem fome, ao menos - e programo meu alarme para as 2h45 da manhã. O único final possível.

lundi 7 novembre 2011

Salomé

Ou: notas sobre o sábado à noite de alguém que nunca quis ser Carrie Bradshaw.
[*alerta de post mulherzinha - não digam que eu não avisei*]

Porque a gente não tem vida por aqui. É. Faz frio e a vida está em algum lugar subterrâneo ou bem longe daqui.

Acordei meio estragada, meio insone no sábado, provavelmente por já estar lutando contra um resfriado chato que se instalou plenamente no domingo.

Fato é que motivação para fazer alguma coisa produtiva no sábado: faltou. Faltou muito.

Passei algumas horas na cama com Ockham. Levantei pra tomar banho e ver se me animava a fazer alguma coisa. Não conseguir passa da louça acumulada na pia da cozinha e de uma máquina de roupa suja (as outras vão ficar para durante a semana).

Em um determinado momento, vamos chamá-lo de "21h.", me dei conta de que tinha esquecido de comer (fato recorrente ultimamente, como vocês devem ter notado - aliás, tô virando Tales; se eu desaparecer, favor vasculhar os poços mais próximos). Preguiça de fazer comida. Ia demorar muito. Mas é por isso que Deus (ou a Marie Curie) inventou a pipoca de microondas. Meu jantar de anoréxica preferido: pipoca e água com gás (se bem que anoréxicas talvez prefiram sem gás; bom, sei lá). Peguei umas provas para ir corrigindo para passar o tempo e liguei a TV.

Tenho poucos canais e 90% deles são francófonos. Não respeito muito a TV francófona e odeio muito TV dublada em francês. Mas eis que... eu descobri que eu tenho o "Cosmo Channel" (alerta de FALTA DE DIGNIDADE!), em inglês e que, das 21h às, sei lá, 4h da manhã, eles iam passar reprises de vários episódios de Sex & The City.

Aí, eu pensei em textos como esse e esse e me lembrei de o quanto sempre achei a Carrie meio assustadora (tu-dum-tshhh!) e, não, nunca quis ser Carrie Bradshaw (sim, eu trabalho bastante com ThoughtCatalog, se vocês também não perceberam), e achava muito psicótica a relação que ela tinha com o Mr. Big, e com o Aidan, e com o Russo (sem falar com as ex de cada um, aka Carrie psicopata, hein?). Enfim, muito mulherzinha louca-do-cu da TPM. Tudo errado.

Heroína mesmo era a Miranda. Moderna, com uma carreira, terninhos (wearing the fucking pants!), independente, a voz da razão, enfim. Sempre achei a Miranda um role-model bem razoável. E podem tomar isso com quaisquer ressalvas, visto que esse comentário vem de alguém que assistiu 3749 vezes a cada episódio de Sex & The City (mas não assisti a nenhum dos dois filmes, alas!). Mas a Miranda é um padrão exigente. A conclusão a que eu cheguei foi a seguinte: "You aim for Miranda, you end up like Samantha." Porque é difícil não exagerar na praticidade (da mesma forma que eu acho que "You aim for Carrie, you end up like Charlotte", algo até mais comum).

Por outro lado, (spoiler alert) a Miranda acaba a série no Brooklyn, casada, com um filho. E a Samantha acaba lutando contra um câncer de mama, e, depois de pegar o ator bonitão, mudar para a costa oeste e coisas do tipo, ela acaba... livre. LIVRE! Levando em consideração coisas como essa e essa, estou começando a digerir a ideia de que eu talvez seja bem mais Samantha (ainda que com ressalvas, porque, né).

Bom, desde que eu não termine Charlotte, acho que ainda estou no lucro.

Desnecessário dizer que eu só corrigi umas quatro ou cinco provas no meio dessa digressão toda aí, né.

O resfriado, aliás, também passou à la Samantha: in on Sunday night, out by Monday morning.

Hakuna Matata!

dimanche 6 novembre 2011

samedi 5 novembre 2011

Ma chanson leur a pas plu...

Pedi mixtapes, ceis me ignoraram (exceto o J., que sugeriu Dale Earnhardt Jr Jr, que me quebrou um galho). E agora, eu tenho que lavar louça, lavar roupa, lavar banheiro (é, vida de glamour) e não tem mixtape para ouvir. Ia desejar o mal a vocês, mas como acordei proativa (a misantropia tá numa fase mais seletiva) resolvi fazer minha própria mixtape, com músicas recicladas (i.e. não descobri nenhuma música nova que me despertou amor enorme, mas vou fazer uma mixtape com músicas que eu já tinha aqui no meu player).

Preciso de trilha sonora para trabalho doméstico. E podem achar ruim, mas não reclamem, porque esse playlist não vai fazer sentido para as pessoas que vivem fora da minha cabeça. Vou chamar essa mixtape virtual à la tudojuntoemisturado de...

Songs for Mephistopheles
1. Bonnie Tyler. Two Out Of Three Ain't Bad (single mix)
2. Massive Attack. Unfinished Sympathy
3. Depeche Mode. Enjoy The Silence
4. Teenage Fanclub. The Concept
5. The Postal Service. Such Great Heights
6. New Order. Bizarre Love Triangle
7. Joy Division. Love Will Tear Us Apart
8. Moby. The Great Escape
9. Arcade Fire. Rebellion (Lies)
10. Pavement. Shady Lane
11. Matt Nathanson. Come On Get Higher
12. The Cure. Just Like Heaven
13. LCD Soundsystem. Can Change
14. Pulp. Babies

Preciso de uma máquina de lavar louças.

-----------------------------------------------------------
Corta para duas horas depois, falando com Juju ao telefone enquanto lavava louça. Ela me lembra de uma conversa digna de YouTube que eu tive com A.E., um amigo nosso, durante o Evento do Ano.

A.E.: Mas, Aline, você tem que casar.
Eu: Não, obrigada.
A.E.: Por que não?
Eu: Porque eu quero ser livre.
A.E.: Mas você TEM que casar.
Eu (gritando): Eu quero ser livre! EU QUERO SER LIVRE!!
A.E.: Mas, Aline...
Eu (gritando): EU QUERO SER LIVRE!
(duas últimas frases são repetidas ad infinitum)

Mesa inteira olha para mim em choque. Risos nervosos. Entram os noivos. Descem as cortinas. Fim.
------------------------------------------------------------

Como eu queria ser capaz de lembrar dessas conversas! Preciso de um cérebro novo. Mas, sério: eu preciso MESMO é de uma máquina de lavar louças. E de mixtapes.